quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Alma Canhota







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Quero placidamente transitar entre as paisagens da minha alma
Reconhecendo cada esquina como antigas moradas.
Almejo viver minha vida sem altares ou púlpitos.
Sonho pela sutil presença das horas
Sentir cada vão momento como vão momentos que são.
Escrever sem pensar. Escrever por sentir
e sentindo, no cerne imutável da existência,
criar a minha audaciosa biografia póstuma.
Quero passar meus dias a escrever sobre o de cujus que serei.
Quero a morte latente nos meus dias para viver com a gana de um sobrevivente
A morte acompanha a vida, e isso é o que lhe dá sentido.
Quero escrever minha biografia deslizando a mão esquerda sobre o papel manchando de tinta a pele, como cicatriz da jornada errante.
A torta, a gauche, a mutante alma que me suporta.
Pobre alma amante fiel, filha incompreendida e resignada
minha jovem alma sossegada que desperta com o cingir da carne.
E por tão doce e límpida, disputada entre Deus e o diabo pelos seus santos pecados, incompreendida entre os homens, na incompetência de alcunhar, te chamam de canhota
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Mulher de 30





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A alcunha de balzaquiana sempre me pareceu algo superior, persuasivo, sexy... venho treinando há algum tempo para não me preocupar quando chegasse a hora. Antes me autointitulava de pré-balzaquiana.  Agora que estou prestes a me tornar uma, sei exatamente o que isso significa.

Ser balzaquiana nos dias de hoje significa ter uma dose excessiva de autoestima, senso de humor e oportunidade.

É que acontece o seguinte: quando chegamos aos 30 ficamos no que chamo de “limbo sexo-emocional”. É uma fase em que não nos satisfazemos com qualquer coisa, com um casinho “meia boca”, com um sexo mais ou menos, nem temos tolerância com uma conversa recheada de palavras mononeuronais.

Tenho várias amigas solteiras que passarão o próximo sábado ouvindo uma boa música, bebendo uma boa cerveja e aproveitando ao máximo a companhia de si mesmas. Sem se autoflagelar por não estarem casadas e com filhos.

Claro que a maioria almeja ter uma família, um homem para chamar de seu e poder fazer um bom sexo diariamente, mas infelizmente isso pode não acontecer tão cedo. Não temos o afã de precisar se jogar na “night” a fim de descolar um futuro marido. Mais do que nunca o intuito aqui é se divertir.

Vez ou outra até é bom sair na balada e se deixar levar pelas figuras cômicas que aparecem, como os pavões que recheiam as noites, querendo sobressair aos demais, se tornando a referência da festa como “o chato” da noite.


Mas o fato é que o perfil feminino ao qual me refiro são mulheres que estão bem sozinhas, mas sabem como é bom estar em boa companhia e que festa não é lugar onde se encontra alguém em potencial para se tornar algo mais.

E aí complica, pois as possibilidades se tornam limitadas. Como não vamos à caça, o jeito é ter os olhos atentos. Eu, por exemplo, já iniciei um relacionamento na delegacia, ao tratar dos interesses de uma cliente com o escrivão de polícia. Começamos falando sobre a Lei Maria da Penha e terminamos conversando sobre os sonhos desfeitos no meio desse mundo opressor.

Tenho uma amiga que tem todos os atrativos para fisgar um bom homem, mas ela é médica gastroenterologista e trabalha cerca de 15  horas por dia.

O nicho dela são os pacientes, namorados em potencial... mesmo prezando pela ética profissional, ter um caso com um paciente não é crime! Certa vez ela contou que apareceu no consultório um homem lindo, inteligente, carismático e cheio de outras qualidades, até trocou uns olhares. Acontece que em determinada altura da consulta ela precisou perguntar como eram as fezes dele: dura, pastosa, em pedaços, etc.  Nem preciso dizer que a cantada desandou...

Outra amiga se interessou por um colega de trabalho, começaram a almoçar todos os dias, faziam programas juntos, se divertiam muito, porém nada acontecia... até que ela descobriu que o moço era gay e estava interessado no seu irmão.

As mulheres de trinta estão no pico de suas potencialidades, cheias de qualidades legadas da recém passada juventude, aliadas a uma prodigiosa sabedoria que as distinguem da vala comum. Não são nem tão novas que sejam ingênuas e previsíveis, nem tão velhas que sejam antiquadas e distantes.

Como fala Balzac, “chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer".

Mas  o fato é que a verdadeira mulher de 30 passa à margem de qualquer classificação que geralmente possui conotação sexual. Ela se preocupa mais consigo mesma, em se conhecer, se amar, se auto sustentar financeira e emocionalmente, a vencer os preconceitos e deixar os melindres de lado. E nessa trajetória ela se esculpe com tal beleza que acaba se tornando extremamente atraente aos olhos seletivos de quem realmente merece tê-la ao seu lado.



Florianópolis, 12 de dezembro de 2010.




* foto: google

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sobre cotidiano e o tempo








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Quando tocou o despertador implorei por mais alguns minutos. Rolando na cama lembrei do desastre que tinha feito na noite anterior. Estava revoltada com as pontas secas do cabelo e resolvi eu mesma cortar. Óbvio que não deu certo. Levantei da cama e caí no chuveiro. Mal me olhei no espelho. Fiz o ritual diário para sair de casa, amarrei os cabelos e fui ganhar o mundo.

Cheguei no trabalho e dei uma olhada na agenda para ver algum horário livre para ir ao cabeleireiro arrumar o estrago. Notei que nessa semana não conseguiria ir, com muito custo encaixei a manicure às 8 horas da manhã seguinte.  Peguei um café e mergulhei no processo penal (que nunca foi meu forte).  Precisava destrinchar um parecer que estou fazendo há dias. Sabia que o dia seria curto porque no meio da tarde tinha consulta com a oftalmologista e não podia adiar. Meus olhos andam enxergando mal. Depois da consulta iria para a corrida, passar no supermercado e, por fim, passear com meu cachorro.

O trabalho estava fluindo e resolvi enforcar o horário do almoço. Eis que recebo uma ligação. Precisava redigir urgente um importante documento e levá-lo em mãos ao destinatário. Larguei o processo penal e mergulhei na legislação administrativa. Descubro que a rede de internet caiu sem previsão para voltar. Me virei com o que tinha em  mãos e às 14:30 hs o documento estava pronto.  Corri para entregá-lo ao destinatário que, por sorte, encontrei com rapidez. Tarefa cumprida com folga de uma hora até a consulta.

Sem titubear entrei no primeiro salão de beleza que vi no caminho. Falei para a cabeleireira que ela tinha 40 minutos para devolver a dignidade aos meus cabelos. Enquanto a moça lavava minhas madeixas pensei sobre a correria louca do dia-a-dia, pela qual a maioria de nós passamos. Eu gosto desse agito, de sempre ter algo a fazer, desafios a vencer. É o mundo em movimento. Mas às vezes o relógio se torna um algoz, colocando em eclipse o sol  da nossa vida. Nessas horas queria me teletransportar para qualquer lugar com baixa densidade demográfica, temperatura amena  e pouco ruído onde pudesse descansar os olhos em alguma bela paisagem.

De cabelo cortado fui na médica. Saí de lá com mais 0,25 grau de astigmatismo e uma receita para um novo óculos. Fui direto na ótica, que fica na rua mais movimentada da cidade. Fiquei meio perdida porque não encontrei a loja. Até que concluí que ela havia fechado. Decidi ir em outra loja perto da minha casa. Dei dois passos e ouvi uma voz cantando:  “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para...”   A música certa, na hora certa.

Por um momento pensei em ir atrás da voz que cantava, mas lembrei que tinha mais tarefas a cumprir. Dei dois passos adiante, mas a música já estava dentro de mim... “enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso faço hora, vou valsa. A vida é tão rara...”. Dei meia volta e fui ao encontro do bálsamo da vida. Músicas sempre me salvam. A meia quadra dali encontrei um rapaz cantando entre a  confusão de gente. Parei para respirar a vida por alguns minutos.

Na primeira música  tive vontade de correr como Forrest.  Então começou a cantar a segunda: “ Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...”. Nessa hora meu coração inundou  e tive vontade de chorar. E veio a terceira: "Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...” Daí simplesmente agradeci por existir.

Pensei em filmar a cena para compartilhar com meus amigos. Mas desisti. Deixei o celular na bolsa, fechei os olhos e flutuei. O relógio não existia mais, me permiti por alguns instantes viver a plenitude da existência. Depois de umas quatro ou cinco músicas a noite caiu e o som do helicóptero da polícia sobrevoando despertou a todos. Lembrei que estou nos dias nebulosos de Florianópolis. Pedi para uma menina que filmou as músicas me enviasse os vídeos e, agradecida por aquele momento, fui embora.

Consegui pegar a outra ótica aberta e encomendei as novas lentes. Cheguei em casa  com plano de seguir o previsto na agenda. Ia por rapidamente o tênis para correr, mas encontrei meu cachorro destilando amor. Desisti da corrida e presentei o Smart com um longo passeio pelo bairro. Sempre fui adepta da corrente do bem. Há uma frase clássica de um dos meus filmes preferidos em que o protagonista, após viver voluntariamente a experiência da extrema solidão, diz : “ a felicidade só é verdadeira quando compartilhada." Decidi  compartilhar e multiplicar com meu cachorro a felicidade que sentia.

Na volta, de alma leve, fui ao banheiro tirar a maquiagem. Olhei para o lado e lembrei que tenho uma deliciosa banheira na minha casa, que só usei uma vez esse ano  quando queimou o chuveiro. Deixei  ela encher. Peguei minhas músicas preferidas, me despi e entrei na banheira. Então percebi como é fácil fazer o tempo parar.


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Video







terça-feira, 16 de setembro de 2014

Coração em Vinte de Setembro

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Vou antecipar meu 20 de Setembro porque meu coração está bombeando saudade. Só quem é gaúcho sabe o que digo. Como canta Vitor Ramil, nunca pensei que minha sina fosse andar longe do pago. Porém a vida tem suas razões e por algum motivo, que espero ser justo,  me trouxe para viver numa linda ilha, mas longe da minha gente.

Nessa época do ano meu coração, que é dado à alegria,  chora e se aperta. De onde eu vim aprendemos desde cedo nossa história,  que num país de liberdade negociada por patacas, manchamos o verde e amarelo da bandeira brasileira com sangue da nossa gente, por ideologia e valores nobres, pela liberdade, para poder comercializar nossa riqueza “salgada” sem  sermos explorados pela cobiça da coroa.

Lutamos pela liberdade dos escravos, pela justa tributação do charque e do couro, pelo interesse do nosso povo, não nos envergando às tropas imperiais, e isso é  só um exemplo de tantas lutas das quais não fugimos. Durante a Revolução Farroupilha construímos e afirmamos princípios políticos, culturais, econômicos, sociais e principalmente ideológicos que guiam os gaúchos até os dias de hoje. 

De onde eu vim as crianças são piás que entoam o hino Rio-Grandense antes mesmo de  aprenderem que a família real veio para o Brasil fugindo de Napoleão.  Somos herdeiros de uma legítima  capitania hereditária, de uma terra  que  passa de pai para filho e,  pra onde quer que vá, coloca um punhado do chão no coração e leva consigo como um relicário.

Lá  no  meu pago os inimigos são declarados e as armas são iguais. É onde os rivais brigam sem que ninguém de fora esteja autorizado a entrar na peleja,  mas também se unem e se defendem mutuamente quando é preciso, como fazem os legítimos irmãos. 

Rio Grande do Sul, filho rebelde do sofrido e também  honroso Brasil, obrigada por fazer de ti  meu esteio e minha  pátria.

“Entre nós reviva Atenas
para assombro dos tiranos
Sejamos gregos na glória
e na virtude, romanos”

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foto: goole

terça-feira, 29 de julho de 2014

Novo Amigo





Eu e o silêncio estamos conversando.
Sussurrando baixinho, porque ele não é dado a alardes.
Há tempos vem tentando chegar perto.
O silêncio é um sábio conselheiro. Tem me dito tantas coisas.
A gente se encontrou frente ao mar, chegou de mansinho e me encarou.
Desses encontros que o acaso gosta de marcar.
Não pude desviar.
Nos conhecíamos de vista, mas nunca quis me aproximar.
Quanto notei, já estávamos trocando confidências e perdemos a hora.
A paz que me trouxe foi tanta que não consegui dizer adeus.
Despretensiosamente convidei pra vir comigo, e não é que ele aceitou?
Hoje o silêncio me faz companhia, me afaga e acarinha.
A gente tem se entendido.
Desde que ele chegou não tenho mais andado sozinha.

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Conhece-te a ti mesmo e torna- te quem tu és



A música diz que a gente mal nasce e já começa a morrer. Sim, é verdade. Mas também é verdade que a cada dia renascemos. A todo momento células morrem e outras nascem. Tal qual Fênix, ressurgimos das cinzas de nós mesmos a cada golpe fatal que a vida nos dá.

Nem sei quantas vezes morri e renasci. Me reconstruí. Uma época pensei que as quedas eram atos falhos e tornei mais atenta no caminhar. Ingênua, não sabia que o caminho seria sempre assim, sinuoso, minado e escorregadio, mas, apesar de tudo, com lindas paisagens para contemplar. Lembro da lição do meu pai, ao dizer que não dava um próximo passo sem garantir que iria apoiar o pé em uma pedra bem alicerçada. Nunca tive essa certeza nos meus passos.

Desde cedo indagava sobre meus atos. Me apaixonei aos 6 anos, ele tinha 11. Na primeira discussão de relacionamento recebi um ultimato: só namoraria comigo se entregasse meu bico para o papai Noel. Na hora falei que sim, afinal estava apaixonada, mas após duas noites sem o bico rosa e furado vi que não estava pronta para dar o próximo passo.

Por essa idade também experimentei uma crise existencial: ir para a escola. Fui resistente, não gostava da hierarquia na hora de formar a fila pra entrar na sala de aula, nem de fazer teatrinho da família urso. Logo aprendi uma artimanha para fugir a encenação: ser narradora. Sempre me oferecia para ser narradora das histórias, assim participava sem ter que brincar igual criancinha. Virei narradora oficial até o fim dos meus dias escolares.

Mas essa sensação de não fazer parte do contexto sempre esteve latente. Acho que fui uma criança subversiva, frequentemente dava um jeito de escapar da aula de massinha de modelar. Dizia para a professora que estava com dor de barriga e iria para casa (que ficava do outro lado da rua), mas ao invés disso, me escorava em uma árvore do terreno baldio aos fundos com meia duzia de gibis de história em quadrinhos e ali ficava até bater o sinal e chegar em casa para o almoço. Depois de um tempo e muita conversa com meus pais aprendi a andar na linha, ou disfarçar bem. Ia para a escola todos os dias, obedecia aos professores, fazia todos os trabalhos de educação artística e tinha muitos amiguinhos.

E assim foi. Muitos amigos mas poucos confidentes. Raras pessoas conseguiram alcançar meu entendimento sobre as coisas. Não que eu estivesse além, só era diferente. Por vezes queria olhar uma pedra e ver só uma pedra. Não pensar em como ela foi parar ali. Se há aranha ou formiga embaixo dela. Se ela é gelada ou eu que sou quente, se quem é mais forte: a pedra ou a água ou então questionar a origem etimológica da pedra.

Até que um namorado me apresentou ao Nietzsche e Fernando Pessoa. Depois conheci Kafka, Sartre, Clarice Lispector, Oscar Wilde, Schopenhauer e meu círculo de amizade se estendeu. Senti pela primeira vez o que era estar em catarse. Quando os lia, era como se estivessem traduzindo minha alma. Senti, finalmente, comunhão com alguma coisa. Descobri que simplesmente sou existencialista, o que me faz estar em consonância com o mundo, sensível aos meus sentimentos e ao do outro. Atenta aos agitos internos e inconformada com a forma rasa de compreensão da vida. Nessa andança encontrei tantos outros como eu. Finalmente tinha achado minha tribo, apesar de não pertencer a nenhum rebanho.

Por vezes pensei em ser mais reativa, menos reflexiva. É impossível não pensar, porém isso não impede de viver. Com o tempo aprendi a ver beleza e felicidade nas coisas cotidianas e deixei de esperar uma data especial para abrir a última garrafa do meu melhor vinho. Parafraseando Oscar Wilde, as coisas simples são o último refúgio para um espírito complexo.

Desde então venho buscando me encontrar, achar um lugar tranquilo e confortável dentro da minha complexidade que torne equilibrada a existência. Meditação; corrida e natação; yoga e música; escrita e fotografia. Silêncio e falas; troca de ideias e afeto; contato com a dor e o amor do outro. Descobri que ser diferente me tornou igual a todos.

Buscar a si mesmo é uma tarefa que ganhamos logo que nascemos. Talvez seja o motivo para estarmos aqui, um cálculo complexo que não conseguiremos jamais tirar a prova real. Onde a busca pela resposta é a própria resposta. E assim vem a real felicidade. Ter lucidez, dar -se ao direito de sentir tudo o que a carne permite e o espirito comporta, não fugir da dor nem do prazer e pouco ligar para o que disserem sobre você.

Libertador é saber a real medida de si mesmo e lembrar sempre que és humano e, por isso, já nasceu perdoado. É nessa hora que deixamos de morrer e começamos a viver.

 
 
 


terça-feira, 17 de junho de 2014

Entre Onze e Trinta e Três



Quando se aproximou meu aniversário de onze anos decidi que queria fazer um galeto para comemorar. Isso significava um marco na minha vida. Era o fim do balão surpresa, doces e música do Trem da Alegria. Foi uma decisão bem pensada, já que seria um divisor de águas: deixaria de ser criança e estaria me tornando adulta, ao menos era essa a conotação que um aniversário sem balão e gelatina colorida tinha para mim.

Depois de conversar com a mãe sobre meu novo contexto existencial, baseando a tese no fato de eu não chupar mais bico desde os nove anos e já estar “mocinha”, comecei a organizar a festa de transição da infância para o mundo dos adultos. Fiz o convite para o almoço/balada apenas para os amigos que eram jovens adultos como eu e preparei o grande dia.  O pai era o assador, irmão o deejay e a pista de dança foi montada na garagem de casa com as luzes forradas com papel celofane para garantir o clima intimista.

Pois bem, a hora do almoço foi chegando e meus amigos não vieram, só estava meia dúzia de agregados da família, vizinhos e amigos dos meus irmãos. A festa foi um tremendo desastre!  Nessa hora fui apresentada ao mundo cruel dos adultos. Dias depois fiquei sabendo que meus coleguinhas não tinham entendido que era uma festa, porque quando convidei falei que era  almoço e não aniversário. Nessa hora percebi que estava lidando com crianças e não com jovens adultos como eu...

Os anos se passaram e perdi o hábito de festejar meu aniversário, até que este ano, sob pressão de algumas amigas decidi juntar o pessoal. Reservei camarote, showzinho de rock, lugar legal e tal. Convidei os amigos mais chegados - que confirmaram a presença - e fui festejar a idade de Cristo. Eis que novamente quase perco minha festa por W.O., meus amigos deram no show... alguns chegaram cedo e logo foram para um  show de pagode, outros chegaram na prorrogação do segundo tempo, sem contar naqueles que já tinham outro aniversário programado há mais tempo e nem entraram na lista VIP.

Essa história teria tom dramático se eu tivesse onze anos, mas com trinta e três... ah, nessa idade não precisamos mais de provas de amor, precisamos sim do mais autentico e sincero amor. Se meus amigos curtem certa banda de pagode, se outros chegaram tarde, atrasou a apresentação dos filhos na festa junina ou  tiveram outro compromisso, algum imprevisto ou se brigaram com o namorado, o que importa?  Sou adepta de cargas emocionais leves, pois de pesados já bastam os encargos da vida. Meus amigos agiram assim simplesmente por um motivo: eu os deixo livres. Livres para ir, vir, ficar ou sair. E a consciência disso lhes dão liberdade para serem o que são. É por isso que são meus amigos, por se mostrarem pra mim sem máscaras ou subterfúgios.

 Não quero visita protocolar, sorriso falso ou presença inanimada numa mesa de bar. Gosto de amizades vivas e latentes. Quero a autêntica presença de quem amo, amizade com cabresto não está entre as minhas preferências. Talvez essa seja a base para os relacionamentos sadios e duradouros.  Sou adepta daquele velho ditado: se amas, deixe livre... a pior coisa é o afeto forçado, sorriso amarelo e  uma “pseudo-companhia”.  O mundo está cheio falsidade, carne processada, pedras preciosas sintéticas, cerejas falsas feitas de chuchu, unhas de acrílico, couro ecológico e por aí vai... então se a cor dos olhos for falsa, que pelo menos o olhar seja verdadeiro. Por isso gosto dos meus amigos justamente como são, sem máscaras, de cara limpa e alma exposta.

Vou me sentir extremamente decepcionada se faltar alento nas horas de dor, se não houver alguém para arrumar meu véu na hora de entrar na igreja (sim, ainda quero isso...), se não tiver em quem apoiar quando meu mundo cair, rir quando eu contar desajeitadamente uma piada,  ou quando não tiver ninguém pra revisar um texto que escrevi as cinco da manhã. E quanto a isso, sei que faltam dedos nas mãos para contar quantas pessoas estão no plantão 24 horas para me socorrer.

Talvez seja isso, a certeza de ser amada e querida não deixa margem para insegurança e melindres.

Chega uma hora em que não somatizamos nem catalisamos dores desnecessárias pois, por mais largos que os ombros se tornem com os percalços da vida, a gente aprende que boa parte  da bagagem é descartável . E isso faz toda a diferença.

E qual o final da história? Com a ausência de tantos na festa, pude dar mais atenção a um novo amigo e encher minha agenda das próximas semanas com cafés, almoço e happy hour com aqueles que querem me entregar o presente ou dar um abraço atrasado. Ou seja: multipliquei minha festa!

A felicidade vem justamente quando aprendemos a guardar os dramas, medos e máscaras nas prateleiras do quartinho dos fundos e vamos viver, sem a obrigação de que saia tudo conforme o planejado, pois o melhor da vida acontece no improviso.


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sexta-feira, 21 de março de 2014

Paralelas



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Ontem fiquei maquinando nessa cabecinha loira.... às vezes faço umas conexões mentais meio loucas, mas que me fazem todo sentido.

Sempre fui péssima nas ciências exatas. Nunca entendi a cadeia de carbono, nem matrizes, amperagem. O que salvava eram as matérias em que eu podia fazer alguma abstração ou link com algo que fizesse sentido, tipo... trigonometria, geometria, cinemática, soluções químicas.

Fui premiada numa feira escolar de matemática (matemática!) quando apresentei um trabalho só com origami. Origami é trigonometria pura! É assim que eu vou aprendendo...

Sempre tive certeza que as exatas nada me acrescentariam na vida. Achava muita inutilidade, mas o curioso é que dali tirei vários aprendizados que carrego e, não raro, uso no dia a dia, como a força elástica nos relacionamentos, Leis de Newton: ação e reação das palavras ditas, a  inércia da zona de conforto, também têm os  fatos cartesianos, axiomas, incógnitas...

Para mim essas aulas eram pura filosofia. O efeito propulsor da mola, aquela que tem no fundo do poço, sabe? E a onda senoidal... já viu uma? O gráfico de uma senoide é tão esclarecedor para entender as fases da vida... às vezes por cima, outras por baixo...  opõe à linearidade.

Queria tanto que minha vida fosse um trajeto com velocidade média linear... ou apenas com algumas curvas adjacentes, mas  sou feita de nitroglicerina pura. Dizem que a principal característica da nitroglicerina é a instabilidade.

Minha terapeuta diz que sou normal, então nem vou registrar que queria ser calminha e previsível como uma molécula de H2O, que se mistura calmamente com quase tudo sem causar estrago e quando não se mistura, também não se contamina.

Pois é, parafraseando Clarice Lispector, com a devida licença poética, que dizia " eu sou um mistério pra mim", aqui digo... sou uma incógnita pra mim.

Mas tudo isso pra dizer que ontem, conversando com uma amiga, tive um insight, e lembrei das retas paralelas.

Minha amiga tem um amigo virtual. Mas não é qualquer amigo... se conhecem há 10 anos. Ela mora em Porto Alegre e ele no Acre. Nunca se encontraram, sem facebook, skype, muito menos whatsapp. Nunca trocaram telefones. Suas conversas são apenas por e-mail. E falam sobre tudo, acompanham a vida um do outro, passaram por casamento, separação, filhos, mortes de familiares... são confidentes.

 Achei tudo tão louco... questionei a ela se não tinha curiosidade, vontade de se conhecerem. Ela respondeu que não, que até gostaria de abraçá-lo, mas que essa forma de contato está ótima. Arrumaram um jeito que ambos se sentem confortáveis. Disse que se houvesse maior contato, não teriam tanta franqueza entre eles e essa amizade é, por vezes, libertadora para ela.

Foi aí que lembrei da lição  sobre as retas paralelas, que  até então não tinha entendido direito. Veio à mente o professor explicando: "paralelas são duas linhas que andam juntas, sem se tocar, apenas se cruzam no infinito." Quando ele terminou a frase minha cabeça deu um nó e fiquei sem entender bulhufas... até que passado um tempo, desisti de entender e se tornou um axioma. É assim, porque é assim. E deu.

Isso até a noite de ontem. Consegui ver claramente. Esses amigos são como duas paralelas... andam juntos, sem se tocar, mas não se afastam. E, quem sabe, se cruzarão no infinito. Porém essa teoria, de que as paralelas se cruzam no infinito, não é absoluta. Aliás, nada é absoluto nessa vida. Nem minhas análises, nem as teorias, nem os axiomas. Sempre há novas teses sendo testadas, saindo vencidas ou vitoriosas.

Mas essa história das paralelas fez pensar nos relacionamentos em geral. Transportando o conceito da área das exatas para as humanas, a qual entendo bem. É interessante um relacionamento amoroso se composto por paralelas, onde coexistam duas pessoas sem que alterem sua forma, compasso, independência e individualidade, mas se cruzem, porém antes do infinito, porque o infinito é longe demais... Elas podem se cruzar agora, depois e várias vezes mais, numa doce alquimia.

Pois é, talvez esse conceito já exista e eu nem saiba. Enfim... têm lições que demoramos a aprender, mas quando aprendemos, fazem todo o sentido.


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foto: google



quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Amor Natimorto




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Um dia, nalgum lugar, uma eternidade após,
Eu lembraria tudo isto num suspiro:
Dois caminhos divergiam numa floresta de outono,
E eu, eu escolhi o menos percorrido,
E isto fez toda a diferença!

Robert Frost

  
Do Amor Natimorto

Sossega a voz e o coração
Silencia os pensamentos, abafa os gemidos
Nada há de ser tão cruel quanto “o que poderíamos  ter sido”
De hipóteses estamos cheios, amor natimorto.

Amo-te no futuro do pretérito
Como quem tomou o veneno antes mesmo da picada
Aquele que nem vive e já morre

"Amor declarado morto,
Como pode ser tão vivo
Dentro dos limites do meu corpo?"

E qual pena maior do que amar sem amar?
Então se for assim, prefiro que me deixe viver e esfaqueie lentamente.
Deixe-me sentir que nalgum momento houve pulso. Por que daí valeria a morte.

 Enche-me de vazio. Mas não me torture assim.
 Não mate os abraços, beijos, gemidos e plurais.
 Ou que  mate, então...
Salve-me dessa hesitação a cansar meus dias.  

Mas mate lentamente ... que seja de desgosto, frieza, desencanto  ou qualquer coisa que doa em mim. Porque agora não sinto nada que não seja brisa suave.
Seja cruel, me faça sentir cada instante do teu adeus. 

Poupe-me  do sofrimento de não sofrer.
Quero doses cavalares da tua carne e homeopáticas de lucidez.
Dê-me, apenas, o direito ao último suspiro
Aquele que antecede a morte, mas que liberta a alma.


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foto: google

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Resoluções


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Passei o reveillon com amigas numa praia. Após a ceia, fomos para a beira do mar, sendo que até lá, passamos por uma trilha íngreme no breu da noite. Chegamos ofegantes, mas em tempo de apreciar os lindos os fogos. Ótima companhia e o mar imenso à frente. Fomos  correndo pular as sete ondas. Concentradas, contando em conjunto... uma, duas, três... sete!!!! Começamos bem o ano.

A noite passou e 2014 chegou junto com a ressaca de freixenet. Na conversa do café uma delas perguntou: Bine, tu fez os sete desejos?  Eu achando estranho a pergunta respondi: como assim, sete desejos?  ... Ué, os sete desejos das ondas... Ó Cristo! Não era só contar os pulinhos e a sorte vinha de arrasto??

Eis que ela me responde... pois é, eu também não fiz. Mas falei para um carinha que pulei as sete ondas e ele pediu que contasse um dos meus pedidos. Não fiz nenhum também!

Óbvio que rimos muito e conjecturamos sem titubear: nosso ano vai ser trash...  sem  amor, sem dinheiro, sem saúde e blá blá blá. Após um minuto de silêncio ela  soltou a pérola: Quer saber? Melhor que tenha sido assim mesmo... começar o ano sem expectativas, sem frustrações e tudo o que vier é lucro!

A paz e felicidade reinaram em nossos corações...  lembrei de um conselho que recebi certa feita : |Fabrine, crie tudo... mas nunca crie expectativas.  E é verdade. O mal do século são as expectativas, em si e nos outros.  Planos são necessários e plausíveis para direcionar nossas vidas, mas projetar resultados cartesianos  baseados em fatos que nãos estão totalmente sob nosso controle é assinar atestado de frustração e tristeza futura.

Então este ano não fiz resoluções de ano novo.  Para que fazer prognósticos criados no afã do momento, com a sensibilidade aflorada com a comoção da expectativa do ano que virá, fadados a darem errado? Não... deixei para janeiro, quando a poeira tá baixa e  o senso de realidade está mais condizente com as minhas necessidades.

Em 2014 não quero emagrecer, quero ser  frequentadora assídua da academia, beber mais água e menos cerveja, comer mais salada. Também não quero dinheiro, quero  trabalhar afinco todos os dias úteis e ser  valorizada por isso. E não quero ser feliz, quero  visitar mais meus amigos, ir ao cinema, voltar a nadar, caminhar  ao sol e conviver muito com a minha família.

Também não quero um amor, quero abraçar, ser abraçada, beijar, ter muitos orgasmos, descansar a cabeça em um lugar seguro e flutuar. E que tudo isso seja com  mesma pessoa que me faça rir de doer  a barriga.

Ah... e quero chorar um pouquinho também, porque a tristeza faz parte da vida e mostra que estou viva e suscetível aos desprazeres inerentes a ela. Vai me fazer dar mais valor a tudo o que escrevi  antes.

Esse ano quero ter a mesma convicção e confiança que meu cão tem em mim: De que quando eu esteja presente, tudo estará bem e eu só traga afeto, carinho, proteção.


Se 2014 me trouxer tudo isso, maravilha! Se não trouxer... daí vou me divertindo com o que aparecer...  assim a gente faz com que a felicidade vire rotina.




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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Jardim Secreto



Este texto, diferente dos demais que escrevo em uma única “sentada”, levou alguns meses para ser feito, talvez porque só hoje eu tenha entendido de fato sobre o que estava falando.




"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior, com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.”

Saint-Exupéry



Li essa frase em um e-mail que recebi e me remeteu  a uma música do Bruce Springsteen, que se chama Secret Garden (jardim secreto). Ela é linda e sempre levou meus pensamentos para longe... num lugar que só eu conheço.

Acho ela de uma profunda sensibilidade. Não sei quantas vezes me peguei cantarolando esta música, andando pela rua e pensando no meu jardim secreto. Na minha livre interpretação, a letra fala de uma mulher misteriosa, que deixa que entrem em sua vida, mas tem um ponto inacessível, um mundo onde somente ela habita e por mais que você se aproxime, jamais chegará perto, sempre estará a milhas e milhas de distância.

Na verdade acho que todos temos um mundo particular isolado e secreto, onde somente nós habitamos. Onde escondemos nossos desejos mais profundos, nossos pensamentos mais torturantes, repreensivos e inconfessáveis.

Um lugar sagrado e necessário para tirarmos umas férias de vez em quando do mundo lá fora. Porém, é ali também que mora tudo aquilo que não queremos mostrar aos outros, nossos medos, traumas e ambigüidades e conflitos e também nossa reserva emocional.

Esse local deve ser sempre preservado, pois nele está nossa essência, nosso cerne, nossa identidade.

Temos características mutáveis e maleáveis, porém nosso ponto de integridade é perene e nada vai fazer mudarmos isso.

Quando alguém tenta, conscientemente ou não, invadir nosso espaço vital, nos sentimos acuados, violados, apreensivos. Refutando assim qualquer ameaça à nossa própria essência.

É uma pena que algumas pessoas que gostamos não tenham a visão dessa cerca que colocamos para defender nosso lugar mais precioso. Às vezes por descuido, desconhecimento ou desatenção invada um local que não a pertence e jamais irá pertencer, por só caber um dentro desse lugarzinho sagrado. Por mais que alguém queira chegar, sempre estará a milhas de distância.

Mas temos vastas planícies lindas, floridas e perfumadas que não tem uma porteira tão hermética, pode-se dar livre passagem e lá sim, cabe mais um, uma pessoa bem-vinda que pode ser pra sempre a fiel guardiã do nosso jardim secreto.


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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Suprimindo o Grito






As melhores frases são as que o silêncio soletra. E os piores vácuos, são os cheios de vazio.

Dizer tudo sem falar nada é a láurea da linguagem.  É o olhar oblíquo,  o sorriso de Da Vinci, é a pauta em branco e o coração latente.

Palavras que nunca direi, estas são as mais valiosas. Lembro dos meus hiatos como momentos. Algumas vezes medo, outros sabedoria.

Poucas vezes silenciei tão alto. Mas esses gritos sem eco, ainda ressoam na minha alma.

Não gosto de calar, mas cada vez mais me calo.  Minhas falas estão tão calejadas, que agora o silêncio se torna astro-rei, e supre a incompetência das palavras não entendidas, das palavras mal escritas que só de pensar, cansa os dedos e seca a pena.

De tanta incompreensão, as palavras suprimidas escorrem dos olhos, e a lágrima se faz verso, tão belo e transmutado que traz sorriso ao rosto cansado, fazendo rica qualquer rima.

Escrever nada mais é do que passar pela alma as palavras incompreendidas, pôr o meu perfume soletrado e, após, asfaltar com elas o caminho empoeirado por onde ando.

Essas palavras talvez não façam sentido para ninguém além de mim, mas de sentido as almas estão cheias, e de sentimentos os textos andam vazios.

Mas o que eu escrevo... isso tem alma, coração e fé. Tem um amor tão grande, que faz de um simples  fonema a poesia mais bela que Drummond sequer sonhou.

Escrever traduz a alma e silencia o coração, deixando sempre à minha escolha onde pôr o ponto final, incluir as reticências ou, por fim, suprimir o grito.



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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Porquê dos Espinhos




Hoje meu sobrinho e afilhado de 8 meses fez uma cirurgia para corrigir uma má formação no crânio. Tão pequeno já ganhando a sua primeira (e grande) cicatriz.

Há uns 8 anos atrás minha sobrinha também precisou fazer uma delicada cirurgia com um mês de vida, porque nasceu com as válvulas do coração invertidas. Outra que ganhou bem novinha sua primeira cicatriz.

Naquela época o corte foi da altura do peito até quase o meio da barriga. Algo apavorante para uma leiga na área, como eu. Lembro de quando fui visitá-la na UTI,  parecia tão frágil, cheia de tubos e curativos. Segurei seus dedinhos e senti a pressão daquela mãozinha segurando a minha.  Fiquei hipnotizada olhando a barriga dela se mexendo com a respiração. Foi algo indescritível sentir a força da vida em cada inspiração que aquele pedacinho de gente dava. Emocionante ver que um Ser tão pequeno e frágil carrega em si uma prodigiosa fortaleza.

Hoje ela é uma menina linda, cheia de vida e serelepe que enche a nossa vida de alegria e, a outrora imensa cicatriz, hoje é apenas um risquinho quase imperceptível. Mas está lá, como registro da primeira luta que ela travou com a vida. Sei que o mesmo vai acontecer com o bebezinho da família que hoje passa pela mesma provação. Logo, logo essa grande marca vai se dirimir e perder a força no transcorrer da sua vida. No futuro será apenas uma história para contar.

Tenho várias cicatrizes, mas a mais importante é uma abaixo do joelho. Marca de um acidente ocorrido em 1994, em que perdi alguns queridos amigos de infância. Sem dúvida foi um dia que jamais esquecerei. Cada vez que a vejo, agradeço por ter essa cicatriz, pois muitos não tiveram esta sorte.

Mas, muito mais do que cicatrizes na pele, carregamos cicatrizes na alma. Marcas silenciosas, mas que ao mesmo tempo, se tocadas, seu grito ecoa dentro de nós.

Meus irmãos e cunhados, não tenho dúvidas, ficaram com marcas no coração pelo sofrimento dos seus filhos, pelo medo de perder seus bebezinhos ou por não poderem eles próprios, evitar a cirurgia.

Meus pais jamais esqueceram o dia do meu acidente, as horas de desespero por não saber se eu tinha sobrevivido ou não.  Os pais dos meus amiguinhos que se foram tiveram seus corações dilacerados pela morte prematura de suas crianças.

Outros talvez não tenham essas marcas tão profundas, mas tiveram seus corações partidos pela perda de um grande amor, por um erro cometido, uma injustiça sofrida, por sentir a falta de um estimado bichinho de estimação ou por uma oportunidade perdida.

São essas marcas que nos moldam, que nos tornam mais fortes e calejados.  Elas são inerentes à existência humana e, uma existência sem cicatrizes, é uma existência perdida. Só sofre quem se expõe, quem ama, se arrisca, quem enfrenta as cirurgias que a vida faz na nossa alma, sem as quais, talvez, para sempre ficaríamos mancos.

Por fim, acredito que a vida, definitivamente, não foi feita para a linearidade, mas sim para altos e baixos, tropeços, quedas e cortes.  Mas precisamos lembrar que a cada ferida feita na alma ou no corpo, a vida dá um jeito de se regenerar, de se recriar e de trazer um novo sentido e olhar para a nossa extraordinária existência.

Por isso, parafraseio Nietzsche, que em sua inquestionável sapiência sobre a experiência humana afirma que  tudo aquilo que não nos mata, nos torna mais forte. Por isso também aprendemos a nos defender e, como já se sabe, rosa sem espinhos, não é rosa.


* Este texto é para meus pequenos e fortes botões de rosa Larissa e Caio e suas lindas cicatrizes.

Foto: Google

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Ensaio sobre Baratas







Certa feita uma amiga disse que em meio a uma discussão com o namorado, soltou a seguinte frase: “eu mesma mato minhas baratas”.

Quando  contou o que houve, essa frase ecoou nos meus pensamentos. É uma boa forma de dizer que ela é independente e autossuficiente, claro que estou fazendo uma interpretação lato sensu.

Por um breve momento, lembrei das várias baratas que já matei nessa vida. Sim, morando sozinha, se eu não matar, quem vai? Pior é saber que um bicho feio e nojento daqueles está habitando meu lar.

Não tenho medo de barata, tenho muito nojo, ojeriza e o único medo é que ela venha para perto de mim.

Já travei duelo com spray de cabelo, desodorizador de ambiente, detergente de louça, até amaciante de roupas. Pego a arma que estiver mais perto. Confesso que nas vezes em que não matei afogada, pelo menos deixei ela bem tontinha.

Não é uma tarefa fácil, até mesmo porque, conforme um documentário, as baratas são os únicos seres que sobreviveriam a uma guerra nuclear. Imagine...

Quem já passou por isso sabe o pânico que dá quando ela está em cima da porta, com as anteninhas se mexendo e olhando pra ti, parecendo pronta pra dar o bote.

Sou uma mulher que mata suas próprias baratas, instala chuveiro, troca resistência, botijão de gás, toca sua vida e lida com os embates do dia a dia sem ter pra onde correr e confesso que há pouco drama nisso. Momentos de solidão, vazio e carência fazem parte da vida de todas as pessoas que vivem sozinhas ou não.

Acho que foi isso que minha amiga quis dizer. Que ela sabe se defender e não precisa de um homem ao seu lado para servir como alegoria.

Vivemos numa época em que as pessoas querem, mais do que convenções sociais, serem felizes.

Este parece um texto feminista, mas não é, serve para os homens também. Pessoas que podem fazer um bom lar, criar laços saudáveis e perenes de afeição são as que sabem matar suas próprias baratas, são as que “pegam” juntas nos embates da vida e não têm medo de viverem sozinhas.

É claro que adoraria ter alguém comigo para ajudar a montar a melhor estratégia para matar o tal bichinho ou segurasse a lanterna para eu trocar a resistência do chuveiro à noite, quando queima no meio do banho (segurar a lanterna e trocar a resistência junto é uma árdua tarefa), mas não é por isso que vou por uma plaquinha no pescoço e escrever: “procura-se”.

Todos nós sempre estamos a procura de alguém para coexistir, ter filhos, para amar e ser amado,  eu não fujo à regra. Mas não quero um genitor para meus filhos, um provedor ou a companhia de uma pessoa que sirva para eu descarregar minhas carências ou satisfazer meus caprichos.

Então, que fique claro, não estou queimando sutiã, apenas ratifico a opinião de que, em tempos de relacionamentos falidos, solidão a dois e comodismo emocional,  opto por continuar matando, eu mesma,  minhas baratinhas.


"Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência  de pessoas. Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer a verdadeira companhia."

Friedrich Nietzsche







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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Brilho nos olhos




Na época da ditadura, o cronista Tarso de Castro publicou uma coluna totalmente em branco na Folha, em protesto contra a prisão do jornalista Lourenço Diaféria, e foi retaliado também por não escrever nada. Ou seja, censuravam até uma página em branco.

Soube disso na aula de história e me marcou a ironia que envolve esse contexto. Hoje me peguei pensando nisso. Nos textos em branco que publico diariamente na minha vida.

Quase todos os dias acontece algo que eu penso “deveria escrever sobre isso”, mas me auto-censuro.
Não quero encher minha vida da vazios, coisa que muita gente faz. E agora falo em terceira pessoa, porque no mundo tem muita gente cheia de páginas em branco, publicadas nos principais cadernos que compõem suas vidas.

Oscar Wilde dizia que viver é a coisa mais rara no mundo, porque a maioria das pessoas apenas existe. Eu me considero borderline, estou na corda bamba entre viver e existir. Quero e tento viver intensamente, mas por vezes existir apenas é tão mais brando, calmo e seguro... Viver exige coragem, força e resiliência.

 E assim fui alternando meu livro entre páginas cheias de cor e outras pálidas, sem viço. Mas a mim, como uma boa leitora, jamais agradaria ler um livro com falhas, com histórias pela metade, sem nuances que instigam meu pensar, meu olhar, meu viver.

Muitos leitores meus deixaram de ler o blog porque não havia mais nada de novo escrito, muitas pessoas deixaram de habitar minha vida porque me auto-censurei pra elas. Pelo meu eterno silêncio. Não que seja ruim, a vida é assim. Ninguém entra ou permanece na nossa vida por acaso.

Estou escrevendo justamente por isso, porque não quero ser um livro pela metade, quero encher meus dias de cores, mesmo que por vezes essas cores sejam preto e branco, quero ter nele páginas perfumadas, páginas com reticências, mas com uma bela história, com personagens reais, humanos e com brilho no olhar. Do jeito que eu gosto de viver e ter por perto.

Uma pessoa me ensinou a abrir meu caderninho e escrever diariamente textos multicoloridos, com direito a desenhos e aromas. Com ela aprendi que nenhum sonho, nenhum sentimento ou desejo deve ser censurado. Essa pessoa me ensinou a viver.

Porque, como está escrito no meu poema preferido, mesmo com toda a tragédia, sofrimentos e sonhos desfeitos, o mundo ainda é belo.