quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Enquanto a moça dormia com seu cão




* * *

Invente verdades, se diversifique.
Esqueça fórmulas e caminhos conhecidos,
Esqueça o lugar comum, caso viva nele.
Pense menos nas jogadas.
Perceba os outros.

Ouça a moça cantarolar a música que toca sua alma,
O velho na parada lendo com os dedos seu livro da história da ciência em braile.
A moça dormindo com seu cão no colo...

Ver o desfilar de fragmentos de emoções e pensamentos na rua centenária.
O novo cristão pregando ao lado da velha figueira, dizendo que o milagre vai acontecer.
O louco locutor das ruas falando sobre política vestido de mulher, com uma caixa de som no pescoço.

E a vizinha ranzinza rindo dele.

A nobre cafeteria cheia de doutores de si mesmos, distribuindo tapinhas nas costas dos conhecidos.

A democracia da mesa de xadrez da praça... só não havia nenhuma mulher. Talvez mulheres não joguem xadrez...

O sol à pino sobre todos, as horas passando para todos, a alegria à mão de todos.
Por um momento voltei a pensar em mim, meus pés doem. Calcei o sapato errado.

E a moça continuava dormindo com seu cão...
*

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Razão pelo qual um sem o outro não existem




* *


Imagine que o orgasmo durasse horas,
E que o olhar que te enternece fixasse nos teus ininterruptamente, até cansar.

Imagine a paixão perene,
E que não existisse o choro compulsivo que te lava alma.

Imagine que gosto teriam os prazeres efêmeros se fossem eternos.
O sonho se realizando dias e dias a fio, tal qual idealizado, sem que houvesse esforço.

Competições sem podium,
Pecados sem julgamentos e penitências.

Imagine o abraço sufocando tua respiração sem cessar.
E o gosto que teria cada novo dia se a morte não existisse.

A satisfação é a inversa medida do sofrimento suprimido em cada ato.

O espasmo, a aflição, o prazer, o tempo...

Que triste, que triste o ausência permanente da dor.

Há quem chame de masoquismo, mas ao contrário,
É por tanto gostar do prazer que enalteço a dor.
**

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Máscaras (aos meus amigos)

A pessoa que eu achava que fosse mais feliz se matou, e eu demorei a escrever algum texto por medo de falar coisas que não sentia. Não quero mais falsidades na minha vida.

Ele era meu amigo há mais de 10 anos. Nos víamos nas férias, porque eu morava no Rio Grande do Sul e ele em Florianópolis. Tinha 43 anos, alto executivo de um banco da elite.

Lembro de cada dia juntos. Com ele eu podia brincar de rica. Não pagava nada pra mim, mas eu esbanjava junto. Cada real muito bem aplicado. Mas também fazíamos programinhas de estudante. Num reveillon, eu totamente dura, passamos a noite toda passeando entre a Praia da Pinheira e a Guarda do Embaú, em seu carro conversível, bebendo todas e conversando com a lua. Sempre ríamos muito juntos. Qualquer drama virava piada de doer a barriga em sua boca. Num carnaval na cidade do interior onde eu morava, em pleno festejo aparece ele, de surpresa, pronto para passar a festa da carne comigo. Inesquecível...

Então os anos passaram e eu vim morar pertinho do meu amigo. O banco no qual trabalhava era vizinho do meu apartamento. Às vezes nos esbarrávamos nas esquinas, sempre fazendo promessas de almoço que nunca aconteceram. Às vezes eu dava uma entradinha no Banco para dar um abraço. Mas correira da vida, na qual vai boa parte das nossas desculpas, abafou nossa amizade.

Certo dia recebo a ligação de uma amiga em comum, falando que meu amigo tinha morrido. Até então surtiam boatos de assalto, vingança, tudo, menos suicídio. Jamais passaria isso na cabeça de qualquer pessoa que o conhecia.

Fui no velório, cheguei antes dele... ninguém acreditava que de fato se tratava do nosso amigo. Só acreditei quando vi o corpo inerte, irreconhecível... não havia dúvidas de que tinha se enforcado.
Sem cartas de despedida ou qualquer desabafo com amigos... trancou o cachorro na área de serviço, fechou a porta do quarto, bebeu todas... se entupiu de remédios, amarrou o lençol no cano de ferro do chuveiro, pôs o pescoço e se foi para sempre.

Destrinchando a sua vida, vimos que havia muitas coisas que não sabíamos. Nem os amigos, nem ninguém. Isso ficou ecooando na minha cabeça.
De quantas mascaras somos feitos? Quantos sorrisos enrustidos distribuímos, quantas mágoas e dores carregamos sozinhos sem dividir o peso com alguém que nos ama?

A gente sempre se indaga o motivo de estar vivo, os amores que deixamos passar, tantamos lidar com as nossas dores... mas e a dos amigos? Poucas vezes temos a sensibilidade de nos preocupar com as dores de quem está ao nosso lado, com o sofrimento verdadeiro dos nossos amigos.

Ao cumprimentar alguém sempre perguntamos: “Oi, tudo bem?” e a resposta sempre é “Oi, tudo bem, e contigo?”. Aceitamos ela sem questionar... já chega os nossos problemas... Mas sabemos que na minha vida ou na tua nunca está tudo bem.

Meu aniversário está chegando. Vou receber cumprimentos com desejos sinceros de felicidade, saúde e amor. Vou ficar muito agradecida, mas minhas angústias, anseios e decepções ainda vão me perseguir... algumas vou conseguir dirimir sozinha, apenas algumas...

Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo, sim, de envelhecer sem franqueza, sem assumir minhas dores, sem lutar pelo amor, pela sincera gratidão minha para com as pessoas que me fazem bem. Tenho medo de responder sempre que está tudo bem comigo enquanto meu mundo desmorona.

Não tenho qualquer tendencia suicida, mas tenho receio de sempre esperar meus amigos advinharem meus pensamentos e meus problemas para me darem uma palavra de conforto.

Tenho a sorte de me sobrar amigos para estenderem a mão ou darem o ombro, mas me falta sinceridade para dizer que preciso. Apesar de já ter sido socorrida muitas vezes por esses anjos disfarçados que estão na minha vida.

Depois que passei a morar só aprendi que muitas vezes precisamos nos bastar. Pôr a cabeça no travesseiro e ter uma conversa franca consigo mesmo, mas não nascemos para sermos só.

Tantas vezes penso nos meus amigos que teriam prazer em ouvir meus lamentos e que me fariam rir da tragédia... assim como meu amigo que não está mais aqui fazia comigo e eu poucas vezes fiz com ele.

Por isso, meus amigos que amo tanto... da forma mais sincera e pura que há, me perdoem os olhares e ouvidos desantentos. Às vezes pode me sobrar simpatia e faltar sensibilidade.

Em tempos de conversas instantâneas, mensagens pelo celular e e-mails, nos tormamos tão próximos e acessíveis, mas imensamente distantes das almas das pessoas. Dificilmente passamos do trivial.
Meu amigo que se matou estava todos os dias on line no meu computador, mas raramente trocávamos uma palavra além de cumprimentos ou carinhas engraçadinhas. Cada um queria guardar para si seus problemas.
Por isso rogo aos meus amigos pela sinceridade. Pela sinceridade minha e pela sinceridade deles.
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Me dêem de presente de aniversário suas máscaras e eu lhes darei a minha.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Grande Eco


Mudanças sempre causam um agito. Mesmo que para melhor, elas inquietam. Mas têm horas em que mudar é inevitável. Talvez não mudar necessariamente, mas assumir o que se é e deixar ir o que não te serve mais.
A gente vai mudando aos poucos, pequenos fragmentos nossos se alteram de forma lenta e gradual, até que chega um momento em que assumir essas alterações se torna obrigatório, porque já não somos mais os mesmos. Nossa feição não condiz com nosso olhar, nos tornamos um blefe.
Impreterivelmente é preciso decidir trocar as vestes ou costurar em si essa túnica puída e obsoleta que há tanto tempo usamos.
Por um bom tempo teci minha nova veste. Não sei se é melhor ou pior do que a antiga, mas com certeza é mais confortável. Com o tempo a gente vai aprendendo que o que mais importa não é a beleza, mas a leveza. Nada mais me aperta, oprime ou constrange. Isso é essencial para a felicidade.
Nada de agradar aos outros, carregar a responsabilidade da alegria ou tristeza de alguém. Cada um que assuma seus ais. Sempre levei mais felicidade em campos férteis do que naqueles áridos em que nunca vingou qualquer coisa que eu plantei... o que não se confunde com frieza perante aos infelizes... acontece que a felicidade nunca vem de fora. Se você duvida disso, desejo que descubra o quanto antes, porque mais cedo ou mais tarde, vais aprender.
Não é megalomania, mas as pessoas precisam se bastar. A infelicidade vem justamente em querer buscar em outro o que lhe falta. Mas ninguém pode suprir o vazio que carregas na alma. Todos temos um vazio na alma. Uns mais, outros menos. Carências, traumas, excesso de amor, falta de amor. Em cada extremo nosso há um vazio latente.
Sempre fugi dos meus vazios. Nietzsche dizia que quando a gente olha muito tempo para o abismo, ele também olha pra gente. Meu abismo era meu vazio. Quando resolvi olhar para ele ou o enfrentava ou me sucumbia. Não há redenção em superá-lo. É obrigação de cada um.
A nossa maior briga não é com Deus, com pai, namorado, chefe ou qualquer bode espiatório em que personificamos nossa raiva ou angústia. O maior inimigo sempre somos nós mesmos.
Fazer as pazes consigo mesmo, eis o verdadeiro milagre.

"Conhece-te a ti mesmo. E conhecerás o universo e os deuses."

( Inscrição no frontal do templo de Apolo em Delphos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Moça do Sonho

*


Tocou uma música no carro. Minha amiga suspirou, como quem sente saudade de um amor antigo... a gente reconhece um suspiro apaixonado.
Olhei enviesado, como quem desconfia. Quem é a vítima? Ela se entregou, ficou vermelha de vergonha, desviou o olhar.
Eu estava curiosa para saber quem tinha fisgado o coração dela. Minha amiga é do tipo que eu chamo de “sem sentimentos” menores, nada melodramática. Eu sou passional, não sou dada a amores velados ou silenciosos. Me declaro, choro, amo intensamente... ela não. Até hoje não sei se  já amou de verdade, nem ela sabe...
Minha amiga que tira minhas ilusões. Quando eu estou perdidinha, voando alto, corta as minhas asas e me põe no mundo real. Ela é a rainha das obviedades que eu passo longe... mas não dá moral de cuecas, sempre foi muito sensata.
Amiga de longa data... daquelas que é bom manter para sempre, arquivo vivo. Amizade que não cresce, que já nasceu grande. Que quando está carente, liga só pra dizer que te ama. Fui eu quem ligou para avisar que o nome dela estava no listão, ela que me ligou pra dizer que ouviu meu nome na rádio quando divulgaram os aprovados no vestibular. Liga quando está feliz, triste, com prisão de ventre, com dor de cotovelo, quando morreu a avó... de fazer excursão à sexshop, que conhece as tuas fraquezas e nunca usa isso como arma.
E ela se apaixonou e não me disse! Pior que traição... Insisti e ela revelou, receosa da minha reação... tinha se apaixonado pelo Chico Buarque.
Respirei fundo, segurei o riso. Não podia ridicularizar um sentimento tão forte. Eu sabia que era sério. Sei que ela tem bom gosto, foi quem me apresentou aos Mutantes, Secos e Molhados, Elis... Mas apaixonada pelo Chico! Nunca viu ele...
Ela confessou... o romance se deu em 2008, durou 3 meses. Aconteceu depois de um sonho.
E eu que esperava um sonho erótico me deparei com um sonho singelo, puro e curto... Assim como alguns amores, de fato.
Foi num encontro, na praia. Ele foi muito carinhoso e atencioso. Houve só um leve toque nas mãos... toque que ficou eternizado em sua memória.. Alguns segundos imaginários que foram muito mais concretos e real do que algumas relações efêmeras e superficiais que passam pela nossa vida. Não houve juras de amor, trocas de beijos, mas ela acordou com taquicardia.
Passou três meses com o Chico. Dormia ouvindo Beatriz, acordava com Cotidiano.
É, minha amiga talvez não saiba, mas já amou. Amou como talvez eu nunca tenha amado. Ousou amar o impossível de se ter, amou de forma tão pura e admirável que eu me pego querendo amar assim. E Chico, com certeza, amaria seu amor.
Ela não sabe, talvez nem ele, mas esse amor foi recíproco. Acredito ser ela a tal "Moça do Sonho".
Agora ele achou o sonho extraviado. Quem sabe vasculhando bem o tal bazar, eu tenha a sorte de achar um também...

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó´


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais... ”


A Moça do Sonho, Chico Buarque

*

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Coração Exposto


*


Têm dias em que eu acordo querendo amar.
Dias cheios de segundas intenções.
Acordo com o coração exposto.
Dias sensíveis. De poucas palavras.
Em que prefiro ficar só.
Dias em que tenho medo de estranhos.
Fico envolta com meus sentimentos,
Apaziguando as lembranças distantes, as latentes e as que virão.
Nesses dias vou à livraria,
Encho a vida de prefácios, de amores de outros, de experiências efêmeras.
Ouço algumas vezes uma música que toca minha alma.
Escuto uma tragédia alheia.
Vou ao espelho e me encaro de forma fixa e verdadeira.
Gosto do que eu vejo
Encontro o que procuro noutro.
Travo um intenso silencioso diálogo.
Sem máscaras, subterfúgios ou falsidade.
Sorrio para mim mesma
Faço as pazes com os sentimentos,
Coloco meu coração para dormir.
Aconchego ele no meu peito, sinto se acalmar com a minha respiração.
Encontro, finalmente, o amor em mim.



*

domingo, 25 de janeiro de 2009

Tênis velho


Hoje cheguei em casa no início da noite, estava irrequieta. Uma vozinha dizia run, Bine, run! Fui correr...
Domingo, a cidade vazia, noite calma e ar fresco. Bom para colocar a conversa com a alma em dia. Pus a roupa de ginástica, olhei para meus pés... decidi pôr meu tênis velho. Não quero novas dores hoje. Quero um pouco de conforto do que é seguro, do que não me inquieta. Quero aquilo que já possuo e que me possui.
Deixei o desconforto para meus pensamentos.
Falar das dores da alma.... Essas são as piores. Não há remédio que as cure, se não o esquecimento. Mas até ele fazer efeito, a dor é latente, não dá sossego.
Andei pensando muito na semana que passou sobre essas dores. Não nas minhas, pois elas eu sinto, não preciso pensar, mas nas de outras pessoas.
Tenho um amigo que está com sintomas de depressão. Fui conversar com ele, mas não há o que falar. Como na dor todos somos iguais, minhas únicas palavras foram sobre o que aprendi com elas: “Não dê maior importância do que as coisas têm, isso vai passar e tu sairás mais forte.” As dores são como musculação pra alma. Fortifica e enrijece.
O lado bom das coisas ruins, é que tudo passa. O lado ruim das coisas boas, também é que tudo passa... pode servir de consolo, mas é verdade. O que o tempo não cura, ensina a suportar.
Num curto vôo entre Porto Alegre e Florianópolis dei uma lida na revista da empresa aérea. Lembro de uma frase que me marcou a qual me pego pensando às vezes. Falava sobre uma senhora de 88 anos, batalhadora e vencedora. Usaram a seguinte expressão: “Apesar dos inevitáveis sofrimentos da vida, ela ainda expressa a elegância que fez a sua alma”.
Faz parte da vida os sofrimentos invitáveis. Todos perderemos pessoas que amamos, passaremos por dificuldades, dúvidas, temores, monstros imaginários e reais. Conforme passamos por eles, moldamos nossa alma e alguns, como aquela senhora, passam por tudo isso com a altivez que faz da sua alma, elegante.
Eu pensei cá comigo, muitas dores virão, isso é certo... será que chegarei elegante aos 88 ou serei uma daquelas velhinhas de alma corcunda? Espero que não... aceito de bom grado as dores, mas quero que elas venham aos poucos, como pesos pequenos que nos fortalece sem causar fadiga.
No fim da minha corrida, envolta nesses pensamentos, a chuva chegou. Continuei tranqüilamente a solitária volta para casa, saboreando cada gota que escorria na minha boca, pisando em poças e rindo das marquises.
Já tenho um tênis novo para amanhã, que terei amaciar enquanto aprendo com as novas dores que ele me trouxer. Deixemos, então, eu e o velho, por hora brincar...
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