quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O Inferno, a Dose e a Liberdade




Quem vê a minha feição meiga e meu discurso reflexivo, que por vezes cai no sentimentalismo excessivo, não imagina quanta maldade sou capaz de fazer.


Meus amigos sabem... Mas toda a maldade que eu faço é para mim mesma. Dores que alimento, pessoas que teimo em manter na minha vida enquanto deveriam estar bem longe, outras que me ignoram, mas finjo que ainda estou ali, algumas poucas que sepultei e nunca mais deixarei voltar, sem dar direito a uma segunda chance. Maus hábitos que alimento para se tornarem meus pequenos desafios, que servem para me desviar dos maiores problemas, sins que me obrigo a dizer e me puno por não ter dito o sincero não.


Como diz Martha Medeiros, todo paraíso precisa de um pouco de inferno. Pois é, tenho meu inferninho. Fica perto da saída de emergência, por onde fujo quando entro em desespero. Porta, aliás, que anda cada vez menos movimentada, graças a Deus, literalmente.


Estou voltando a acreditar nas minhas antigas crenças depois de um flerte imaturo e escondido com o ateísmo. Resultado de doses de Sartre, Nietzsche, Kafka e Wilde. Passei de um para o outro sem oxigenar a alma. Mas errei na medida do veneno e achei a cura. Eles eram demasiados “santos” em suas crenças e na vontade de abrir as mentes humanas - como de fato fizeram - que senti o dedo de Deus em suas linhas. Contraditório? Deus é contraditório.


São escritores muito complexos e reconheço meu atrevimento ao fazer essa análise. Mas todos eles me instigaram a isso, ao pensamento livre.


Conheço pessoas que os endeusam, outras dizem que são crias do diabo... fico no meio- termo, tirei o sumo. Vi neles tanta verdade, sentimentos vicerais, dores e traumas que mutilaram suas almas que me soam puros (nunca ingênuos).


Sartre, por exemplo, era muito feio, gerava até ojeriza em algumas pessoas, mas passou sua vida toda cercada de muitas e até belas mulheres, chegou a ter nove ao mesmo tempo e por muitos anos. Geralmente seu contato sexual com elas durava um tempo, depois, muitas vezes, se tornava uma relação casta, mas nunca se abandonavam. Tinha seu pequeno harém, sustentava emocional e financeiramente suas mulheres (menos Simone de Beauvoir) e precisava do amor delas para viver. Amava cada uma de um modo diferente. Chegou a adotar a mais jovem para poder deixar o legado de suas obras, já que não teve filhos.


Para muitos essa é uma vida errante e digna de censura. Mas isso é fazer um reducionismo simplista. Por mais que tenha havido promiscuidade, em nenhum momento Sartre leviano ou superficial em seus relacionamentos. Sempre foi sincero quanto a sua vida poligâmica. Teve uma relação com todas elas que transcendia, em muito, o físico. Tinham uma ligação muito mais intelectual e espiritual do que sensual. Suas brigas e términos se davam por idéias, mudanças de valores, não por sentimentos de posse ou fim do amor. Eles possuíam o essencial para um relacionamento: o respeito. Não faço apologia, nem sou partidária da poligamia, longe disso. Me descobri demasiada Cristã para isso, além do que, no que tange relacionamentos, gosto de cercas altas. Mas minhas opiniões não me impediram de ver a grandeza de Sartre. Quem consegue ver pureza nisso, mesmo que não compactue, tem alma livre. Sartre foi feliz em suas palavras ao dizer que o inferno são os outros.

De fato, cada um de nós sabe onde está o seu inferno e do resto, fazemos o que quiser.




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Foto do meu amigo Davi Santos

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Abrindo o Portão...













"And love is not the easy thing


Is the only baggage that you can bring


Love is not the easy thing


The only baggage you can bring


Is all that you can't leave behind"


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Este é um texto de despedida.
Estou indo para outro lugar.
Estou deixando tudo o que já não quero.
Um legado que não servirá a ninguém, pois só vestiu a mim e pareceria estranho em qualquer outra pessoa.
Deixo hábitos que não reitero mais,
Buscas que acabaram,
Livros que nunca vou ler,
Crenças que eu tentei ter fé, mas se fosse segui-las condenaria minha alma.
Deixo sapatos que nunca doeram meus pés, quero amaciar novos...
Aprender com novas dores.
Deixo numa porta as flores para que outro regue, essas tenho dó de abandonar...
Estou juntando o que há de melhor em mim e indo para outro lugar.
Larguei velhos vícios e bloqueei o caminho para outros seguidores.
Ignoro os que me chamam, só escuto o que me soa melodia.
Estou indo sem deixar migalhas de pão ou pedras pelo caminho,
Não quero voltar, nem que me achem.
Levo páginas em branco e canetas coloridas.
Levo cilindros, vou ir para onde falta o ar.
Quero aprender a usar pés-de-pato, experimentar dar alguns passos para trás e mergulhar num novo mundo...
Vou sonhar para a frente.
Sei que não é fácil, mas talvez alguém me ajude a reaprender a respirar. Quero ar de qualidade.
Vou eu em busca do meu Ale nto, da minha paz, do meu melhor perfume, do que renova minha fé.
Quero repousar minhas noites no meu melhor travesseiro,
Sentir a doce brisa do ar quente e ofegante que vem quando avistamos um gramado verdinho, ensolarado e corremos até nos atirar sem medo em sua brandura.
Não digo para qual lugar estou indo, porque não sei se vou ficar.
Estou sem teto, mas tenho um lar inteiro dentro de mim.
Levo as chaves, mas para onde vou de nada adianta ter as chaves se as portas estiverem fechadas.
Mesmo que seja com uma cara carrancuda, alguém tem que me receber, dar as boas-vindas e oferecer pouso.
Quero acomodações módicas, toda riqueza vai estar na simplicidade dos sentimentos.
Serei uma boa hóspede. Carrego pouca bagagem, pois é essencial ser livre para poder ficar.
Estou abrindo o caminho...
Levo minha bússola, meu cantil, tênis confortável, protetor solar e imaginação de sobra para passar o tempo.
Não importa a distância, o andar me faz feliz.
Essa solidão passageira não me traz medo. É bom também aprender a ser só.
Nada receio, porque mesmo que eu não encontre ninguém a me esperar, o meu coração já mudou de endereço e nunca mais voltará para o lugar de onde partiu.


* *


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Desconstruindo Papai Noel


Diz-se que só se ama uma vez na vida. Talvez porque isso seja um mito, tipo Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa. A gente crê com muita fé, experimenta o contato, a vivência, depois se descobre que ele não existe. Por isso só acontece uma vez, por isso só se crê no Papai Noel uma vez. A decepção pode ser grande, mas superamos, pois sabemos que houve uma boa intenção por trás. Os adultos se travestem de Papai Noel para alimentar o sonho que eles também tinham e gostariam de ter. Não há maldade no início, nem no fim. Mas uma hora a maturidade chega, e precisamos saber a verdade. Às vezes nos contam, outras descobrimos por si só... Assim como o fim de um grande amor, que, como as “grandes” histórias narradas, são únicas e eternas. Nós criamos nossos mitos, os vestimos e deixamos ali, em lugar sublime na nossa alma para serem venerados. Criam mofo, rendem boas histórias, da mesma forma que a velha fantasia do Papai Noel guardada em um saco em uma prateleira na parte de cima do roupeiro. Vez ou outra, para desmistificar algum “trauma” de infância ou relembrar melancolicamente, a gente pega, dá uma olhadinha, mas nunca com ânimus de vê-la em uso novamente (isso destruiria o mito).


É reconfortante não precisar mais se expor ao ridículo de pôr a meia na janela esperando o presentinho depois, nem largar da mão da mamãe para pegar uma balinha oferecida pelo Bom Velhinho que sacode o sino em frente à loja. É consolador ter o sentimento fácil e superficial que não nos faz falta quando perdemos, que não nos ridiculariza. É melhor não amar de novo, viver com a cota de amor verdadeiro que tivemos uma vez na vida. É bom ter nosso mito de estimação.


Será? Eu ando pensando que não... na verdade sempre fui meio às avessas. Quando meus irmãos mais velhos ainda usavam fraldas, eu me rebelei e simplesmente as aboli, um dia tirei minhas fraldas e disse pra minha mãe: “não quelo mais usar flauda”, porém, quando tinha 9 anos ainda chupava bico, quando era para pôr vestido de prenda, eu batia o pé para pôr as bombachas do meu irmão... e eu sempre tive muito medo do Papai Noel. Na verdade nunca entendi a idolatria das crianças por ele. Achava todas vendidas. Nunca sentei no colo de um, mesmo que prometesse me dar a Barbie, o Ken e todo os acessórios da vida rosa pequena burguesa dela.
Natal sempre foi um misto de alegria e dor. Pra mim não existia sextas–feiras 13, mas sim 24 de dezembros. Essas noites eram perturbadas... assim como o amor. Assim como os “grandes amores”.


Eu, diferente de muitos fiquei extremamente feliz quando percebi que o Papai Noel não existia. Certa noite, com o “monstro” sentado na poltrona de casa, fui submetida à sessão anual de tortura infantil. Após receber o presente eu tinha que dar o bendito beijo de agradecimento. Entre gritos de desespero e sapateadas fui colocada do lado dele pelo colo da minha Mãe. Todos riam de mim. Ao chegar perto vi aquele rosto de papel machê, aquela boca rosa, aquela bochecha lilás-azulada (aliás, o coringa do filme do Batman é a cara do meu Papai Noel...), então, por detrás daquela máscara consegui vislumbrar os cabelos e a nuca do meu dindo. Foi uma das minhas maiores alegrias de infância. Fiquei quietinha, mantive a cena dramática e nunca contei para meus irmãos (eu sabia que para eles aquilo não era importante). Nem lembro o presente que ganhei, mas nada me trouxe tanta paz naquele Natal.


Por isso, assim como o mito do Papai Noel, falo do mito do amor sem muito conhecimento de causa, mas com vasto conhecimento na área. Tive um grande amor, com todos os ingredientes de uma grande história de amor, incluindo ápices de felicidade plena e um longo e doloroso final.

Mas não foi “o meu grande amor”. Foi um grande, mas não único amor. Sempre soube que seria ilusão e perda de tempo achar que nunca mais viria alguém que suportasse meus defeitos, que me achasse engraçadinha com a placa de bruxismo, que me amasse muito, apesar de conhecer meus defeitos, que compreendesse minhas carências e minha mania de auto-suficiência. É da minha essência não idolatrar ninguém, mas sei reconhecer as qualidades das pessoas e, principalmente, sei ver quem é capaz de me amar. Confesso que depois dele, vi pessoas que poderiam me amar, mas eu não teria a mesma capacidade com elas, não haveria a reciprocidade necessária para se ter um grande amor. Também confundi outras tantas vezes sentimentos meus e dos outros que com o tempo me perdi na busca, deixei meus olhos desatentos.


Na última visita da minha mãe, entre goles de café e alguns desabafos, ela me atentou para essa procura. Disse: “Filha, quando fores procurar um namorado, deseje alguém que tenha caráter, que te ame muito, mas que vá amar ainda os seus filhos, que não tenha tudo, mas que cresça contigo, que não tire a tua autoridade, que tenha força, mas não a use desmedidamente, que tenha opiniões, mas que seja sensato, que não te deixe jamais constrangida ou te faça sentir humilhada, que possa, após muitos anos se orgulhar de ti e tu dele e por fim, que consigam, mesmo velhos terem ternura um pelo outro, porque ao final da vida vai restar o que vocês construírem e o amor que nutrirem durante a vida”.


Depois disso, fiquei igual aos adultos quando chega novembro, comprando luzes coloridas, pondo bolinhas de vidro no pinheiro, ligando estrelas que piscam no telhado, guirlandas desejando boas-vindas na porta e meias na janela, esperando o presentinho que a gente sabe que não vem - ao menos de onde se espera - mas que podem acabar atraindo um bom velhinho, ou nem tão velhinho assim... afinal, têm mitos que devem morrer, mas ilusões que precisam ser mantidas.
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Do álbum de infância...