quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Enquanto a moça dormia com seu cão




* * *

Invente verdades, se diversifique.
Esqueça fórmulas e caminhos conhecidos,
Esqueça o lugar comum, caso viva nele.
Pense menos nas jogadas.
Perceba os outros.

Ouça a moça cantarolar a música que toca sua alma,
O velho na parada lendo com os dedos seu livro da história da ciência em braile.
A moça dormindo com seu cão no colo...

Ver o desfilar de fragmentos de emoções e pensamentos na rua centenária.
O novo cristão pregando ao lado da velha figueira, dizendo que o milagre vai acontecer.
O louco locutor das ruas falando sobre política vestido de mulher, com uma caixa de som no pescoço.

E a vizinha ranzinza rindo dele.

A nobre cafeteria cheia de doutores de si mesmos, distribuindo tapinhas nas costas dos conhecidos.

A democracia da mesa de xadrez da praça... só não havia nenhuma mulher. Talvez mulheres não joguem xadrez...

O sol à pino sobre todos, as horas passando para todos, a alegria à mão de todos.
Por um momento voltei a pensar em mim, meus pés doem. Calcei o sapato errado.

E a moça continuava dormindo com seu cão...
*

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Razão pelo qual um sem o outro não existem




* *


Imagine que o orgasmo durasse horas,
E que o olhar que te enternece fixasse nos teus ininterruptamente, até cansar.

Imagine a paixão perene,
E que não existisse o choro compulsivo que te lava alma.

Imagine que gosto teriam os prazeres efêmeros se fossem eternos.
O sonho se realizando dias e dias a fio, tal qual idealizado, sem que houvesse esforço.

Competições sem podium,
Pecados sem julgamentos e penitências.

Imagine o abraço sufocando tua respiração sem cessar.
E o gosto que teria cada novo dia se a morte não existisse.

A satisfação é a inversa medida do sofrimento suprimido em cada ato.

O espasmo, a aflição, o prazer, o tempo...

Que triste, que triste o ausência permanente da dor.

Há quem chame de masoquismo, mas ao contrário,
É por tanto gostar do prazer que enalteço a dor.
**

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Máscaras (aos meus amigos)

A pessoa que eu achava que fosse mais feliz se matou, e eu demorei a escrever algum texto por medo de falar coisas que não sentia. Não quero mais falsidades na minha vida.

Ele era meu amigo há mais de 10 anos. Nos víamos nas férias, porque eu morava no Rio Grande do Sul e ele em Florianópolis. Tinha 43 anos, alto executivo de um banco da elite.

Lembro de cada dia juntos. Com ele eu podia brincar de rica. Não pagava nada pra mim, mas eu esbanjava junto. Cada real muito bem aplicado. Mas também fazíamos programinhas de estudante. Num reveillon, eu totamente dura, passamos a noite toda passeando entre a Praia da Pinheira e a Guarda do Embaú, em seu carro conversível, bebendo todas e conversando com a lua. Sempre ríamos muito juntos. Qualquer drama virava piada de doer a barriga em sua boca. Num carnaval na cidade do interior onde eu morava, em pleno festejo aparece ele, de surpresa, pronto para passar a festa da carne comigo. Inesquecível...

Então os anos passaram e eu vim morar pertinho do meu amigo. O banco no qual trabalhava era vizinho do meu apartamento. Às vezes nos esbarrávamos nas esquinas, sempre fazendo promessas de almoço que nunca aconteceram. Às vezes eu dava uma entradinha no Banco para dar um abraço. Mas correira da vida, na qual vai boa parte das nossas desculpas, abafou nossa amizade.

Certo dia recebo a ligação de uma amiga em comum, falando que meu amigo tinha morrido. Até então surtiam boatos de assalto, vingança, tudo, menos suicídio. Jamais passaria isso na cabeça de qualquer pessoa que o conhecia.

Fui no velório, cheguei antes dele... ninguém acreditava que de fato se tratava do nosso amigo. Só acreditei quando vi o corpo inerte, irreconhecível... não havia dúvidas de que tinha se enforcado.
Sem cartas de despedida ou qualquer desabafo com amigos... trancou o cachorro na área de serviço, fechou a porta do quarto, bebeu todas... se entupiu de remédios, amarrou o lençol no cano de ferro do chuveiro, pôs o pescoço e se foi para sempre.

Destrinchando a sua vida, vimos que havia muitas coisas que não sabíamos. Nem os amigos, nem ninguém. Isso ficou ecooando na minha cabeça.
De quantas mascaras somos feitos? Quantos sorrisos enrustidos distribuímos, quantas mágoas e dores carregamos sozinhos sem dividir o peso com alguém que nos ama?

A gente sempre se indaga o motivo de estar vivo, os amores que deixamos passar, tantamos lidar com as nossas dores... mas e a dos amigos? Poucas vezes temos a sensibilidade de nos preocupar com as dores de quem está ao nosso lado, com o sofrimento verdadeiro dos nossos amigos.

Ao cumprimentar alguém sempre perguntamos: “Oi, tudo bem?” e a resposta sempre é “Oi, tudo bem, e contigo?”. Aceitamos ela sem questionar... já chega os nossos problemas... Mas sabemos que na minha vida ou na tua nunca está tudo bem.

Meu aniversário está chegando. Vou receber cumprimentos com desejos sinceros de felicidade, saúde e amor. Vou ficar muito agradecida, mas minhas angústias, anseios e decepções ainda vão me perseguir... algumas vou conseguir dirimir sozinha, apenas algumas...

Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo, sim, de envelhecer sem franqueza, sem assumir minhas dores, sem lutar pelo amor, pela sincera gratidão minha para com as pessoas que me fazem bem. Tenho medo de responder sempre que está tudo bem comigo enquanto meu mundo desmorona.

Não tenho qualquer tendencia suicida, mas tenho receio de sempre esperar meus amigos advinharem meus pensamentos e meus problemas para me darem uma palavra de conforto.

Tenho a sorte de me sobrar amigos para estenderem a mão ou darem o ombro, mas me falta sinceridade para dizer que preciso. Apesar de já ter sido socorrida muitas vezes por esses anjos disfarçados que estão na minha vida.

Depois que passei a morar só aprendi que muitas vezes precisamos nos bastar. Pôr a cabeça no travesseiro e ter uma conversa franca consigo mesmo, mas não nascemos para sermos só.

Tantas vezes penso nos meus amigos que teriam prazer em ouvir meus lamentos e que me fariam rir da tragédia... assim como meu amigo que não está mais aqui fazia comigo e eu poucas vezes fiz com ele.

Por isso, meus amigos que amo tanto... da forma mais sincera e pura que há, me perdoem os olhares e ouvidos desantentos. Às vezes pode me sobrar simpatia e faltar sensibilidade.

Em tempos de conversas instantâneas, mensagens pelo celular e e-mails, nos tormamos tão próximos e acessíveis, mas imensamente distantes das almas das pessoas. Dificilmente passamos do trivial.
Meu amigo que se matou estava todos os dias on line no meu computador, mas raramente trocávamos uma palavra além de cumprimentos ou carinhas engraçadinhas. Cada um queria guardar para si seus problemas.
Por isso rogo aos meus amigos pela sinceridade. Pela sinceridade minha e pela sinceridade deles.
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Me dêem de presente de aniversário suas máscaras e eu lhes darei a minha.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Grande Eco


Mudanças sempre causam um agito. Mesmo que para melhor, elas inquietam. Mas têm horas em que mudar é inevitável. Talvez não mudar necessariamente, mas assumir o que se é e deixar ir o que não te serve mais.
A gente vai mudando aos poucos, pequenos fragmentos nossos se alteram de forma lenta e gradual, até que chega um momento em que assumir essas alterações se torna obrigatório, porque já não somos mais os mesmos. Nossa feição não condiz com nosso olhar, nos tornamos um blefe.
Impreterivelmente é preciso decidir trocar as vestes ou costurar em si essa túnica puída e obsoleta que há tanto tempo usamos.
Por um bom tempo teci minha nova veste. Não sei se é melhor ou pior do que a antiga, mas com certeza é mais confortável. Com o tempo a gente vai aprendendo que o que mais importa não é a beleza, mas a leveza. Nada mais me aperta, oprime ou constrange. Isso é essencial para a felicidade.
Nada de agradar aos outros, carregar a responsabilidade da alegria ou tristeza de alguém. Cada um que assuma seus ais. Sempre levei mais felicidade em campos férteis do que naqueles áridos em que nunca vingou qualquer coisa que eu plantei... o que não se confunde com frieza perante aos infelizes... acontece que a felicidade nunca vem de fora. Se você duvida disso, desejo que descubra o quanto antes, porque mais cedo ou mais tarde, vais aprender.
Não é megalomania, mas as pessoas precisam se bastar. A infelicidade vem justamente em querer buscar em outro o que lhe falta. Mas ninguém pode suprir o vazio que carregas na alma. Todos temos um vazio na alma. Uns mais, outros menos. Carências, traumas, excesso de amor, falta de amor. Em cada extremo nosso há um vazio latente.
Sempre fugi dos meus vazios. Nietzsche dizia que quando a gente olha muito tempo para o abismo, ele também olha pra gente. Meu abismo era meu vazio. Quando resolvi olhar para ele ou o enfrentava ou me sucumbia. Não há redenção em superá-lo. É obrigação de cada um.
A nossa maior briga não é com Deus, com pai, namorado, chefe ou qualquer bode espiatório em que personificamos nossa raiva ou angústia. O maior inimigo sempre somos nós mesmos.
Fazer as pazes consigo mesmo, eis o verdadeiro milagre.

"Conhece-te a ti mesmo. E conhecerás o universo e os deuses."

( Inscrição no frontal do templo de Apolo em Delphos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Moça do Sonho

*


Tocou uma música no carro. Minha amiga suspirou... a gente reconhece um suspiro apaixonado.
Olhei enviesado para ela, como quem desconfia. Quem é a vítima? Ela se entregou, ficou vermelha de vergonha, desviou o olhar.
Eu estava curiosa para saber quem tinha fisgado o coração dela. Minha amiga é do tipo que eu chamo de “sem sentimentos” menores, nada melodramática. Eu sou passional, arranco os cabelos, choro, amo loucamente... ela não. Até hoje não sei se ela já amou de verdade, nem ela sabe...
Minha amiga que tira minhas ilusões. Quando eu estou perdidinha, voando alto ela corta as minhas asas e me põe no mundo real. Ela é a rainha das obviedades que eu passo longe... mas não dá moral de cuecas, sempre foi muito sensata.
Amiga de longa data... daquelas que é bom manter para sempre, arquivo vivo. Amizade que não cresce, que já nasceu grande. Que quando está carente, liga só pra dizer que te ama. Fui eu quem ligou para avisar que o nome dela estava no listão, ela que me ligou pra dizer que ouviu meu nome na rádio quando divulgaram os aprovados no vestibular. Liga quando está feliz, triste, com prisão de ventre, com dor de cotovelo, quando morreu a avó... de fazer excursão à sexshop, que conhece as tuas fraquezas e nunca isso como arma.
E ela se apaixonou e não me disse! Pior que traição... Insisti e ela revelou, receosa da minha reação... tinha se apaixonado pelo Chico Buarque.
Respirei fundo, segurei o riso. Não podia ridicularizar um sentimento tão forte. Eu sabia que era sério. Sei que ela tem bom gosto, foi quem me apresentou aos Mutantes, Secos e Molhados, Elis... Mas apaixonada pelo Chico! Nunca viu ele...
Ela confessou... o romance se deu em 2008, durou 3 meses. Aconteceu depois de um sonho.
E eu que esperava um sonho erótico me deparei com um sonho singelo, puro e curto... Assim como alguns amores, de fato.
Foi num encontro, na praia. Ele foi muito carinhoso e atencioso. Houve só um leve toque nas mãos... toque que ficou eternizado na memória dela. Alguns segundos imaginários que foram muito mais concretos e real do que algumas relações efêmeras e superficiais que passam pela nossa vida. Não houve juras de amor, trocas de beijos, mas ela acordou com taquicardia.
Passou três meses com o Chico. Dormia ouvindo Beatriz, acordava com Cotidiano.
É, minha amiga talvez não saiba, mas já amou. Amou como talvez eu nunca tenha amado. Ousou amar o impossível de se ter, amou de forma tão pura e admirável que eu me pego querendo amar assim. E Chico, com certeza, amaria seu amor.
Ela não sabe, talvez nem ele, mas esse amor foi recíproco. Acredito ser ela a tal "Moça do Sonho".
Agora ele achou o sonho extraviado. Quem sabe vasculhando bem o tal bazar, eu tenha a sorte de achar um também...

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó´


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais... ”


A Moça do Sonho, Chico Buarque

*

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Coração Exposto


*


Têm dias em que eu acordo querendo amar.
Dias cheios de segundas intenções.
Acordo com o coração exposto.
Dias sensíveis. De poucas palavras.
Em que prefiro ficar só.
Dias em que tenho medo de estranhos.
Fico envolta com meus sentimentos,
Apaziguando as lembranças distantes, as latentes e as que virão.
Nesses dias vou à livraria,
Encho a vida de prefácios, de amores de outros, de experiências efêmeras.
Ouço algumas vezes uma música que toca minha alma.
Escuto uma tragédia alheia.
Vou ao espelho e me encaro de forma fixa e verdadeira.
Gosto do que eu vejo
Encontro o que procuro noutro.
Travo um intenso silencioso diálogo.
Sem máscaras, subterfúgios ou falsidade.
Sorrio para mim mesma
Faço as pazes com os sentimentos,
Coloco meu coração para dormir.
Aconchego ele no meu peito, sinto se acalmar com a minha respiração.
Encontro, finalmente, o amor em mim.



*

domingo, 25 de janeiro de 2009

Tênis velho


Hoje cheguei em casa no início da noite, estava irrequieta. Uma vozinha dizia run, Bine, run! Fui correr...
Domingo, a cidade vazia, noite calma e ar fresco. Bom para colocar a conversa com a alma em dia. Pus a roupa de ginástica, olhei para meus pés... decidi pôr meu tênis velho. Não quero novas dores hoje. Quero um pouco de conforto do que é seguro, do que não me inquieta. Quero aquilo que já possuo e que me possui.
Deixei o desconforto para meus pensamentos.
Falar das dores da alma.... Essas são as piores. Não há remédio que as cure, se não o esquecimento. Mas até ele fazer efeito, a dor é latente, não dá sossego.
Andei pensando muito na semana que passou sobre essas dores. Não nas minhas, pois elas eu sinto, não preciso pensar, mas nas de outras pessoas.
Tenho um amigo que está com sintomas de depressão. Fui conversar com ele, mas não há o que falar. Como na dor todos somos iguais, minhas únicas palavras foram sobre o que aprendi com elas: “Não dê maior importância do que as coisas têm, isso vai passar e tu sairás mais forte.” As dores são como musculação pra alma. Fortifica e enrijece.
O lado bom das coisas ruins, é que tudo passa. O lado ruim das coisas boas, também é que tudo passa... pode servir de consolo, mas é verdade. O que o tempo não cura, ensina a suportar.
Num curto vôo entre Porto Alegre e Florianópolis dei uma lida na revista da empresa aérea. Lembro de uma frase que me marcou a qual me pego pensando às vezes. Falava sobre uma senhora de 88 anos, batalhadora e vencedora. Usaram a seguinte expressão: “Apesar dos inevitáveis sofrimentos da vida, ela ainda expressa a elegância que fez a sua alma”.
Faz parte da vida os sofrimentos invitáveis. Todos perderemos pessoas que amamos, passaremos por dificuldades, dúvidas, temores, monstros imaginários e reais. Conforme passamos por eles, moldamos nossa alma e alguns, como aquela senhora, passam por tudo isso com a altivez que faz da sua alma, elegante.
Eu pensei cá comigo, muitas dores virão, isso é certo... será que chegarei elegante aos 88 ou serei uma daquelas velhinhas de alma corcunda? Espero que não... aceito de bom grado as dores, mas quero que elas venham aos poucos, como pesos pequenos que nos fortalece sem causar fadiga.
No fim da minha corrida, envolta nesses pensamentos, a chuva chegou. Continuei tranqüilamente a solitária volta para casa, saboreando cada gota que escorria na minha boca, pisando em poças e rindo das marquises.
Já tenho um tênis novo para amanhã, que terei amaciar enquanto aprendo com as novas dores que ele me trouxer. Deixemos, então, eu e o velho, por hora brincar...
*

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Reta de partida e de chegada.





Essa época do ano é contraditória. Quem teve um bom ano fica triste por ele estar indo, quem teve um ano ruim dá graças a Deus que o fim chegou. Mas todos compactuam da idéia de que algo reinicia. Como eu chamo, o tal “delírio coletivo” de que o tempo se recicla. O tempo não se recicla, mas as nossas vidas sim.
O ser humano sempre busca um bom pretexto para fazer as coisas ou deixar de fazê-las. Precisa de algo que motive à mudança ou a tomar atitude. Dietas nas segundas-feiras, orgias pesam menos na consciência se feitas durante o carnaval, perdões são propícios nos Natais. Mas se quiseres cumular tudo, tens que escolher o início do ano. Esta é a data das mudanças, da renovação.
Eu me aproveito dessa época para fazer meus planos, traçar os novos rumos. Confesso que nem sempre dão certo. Muitos projetos se perdem em meados de janeiro... mas uma boa parte se salva e com alguns arranhões chegam ao final do ano com sucesso.
Hoje o blog faz 1 ano de vida. Ele é um desses exemplos. Há muito tempo queria publicar meus textos, mas tinha receio, vergonha... travas. Tive algumas tentativas frustradas que não sobreviveram a uma única postagem. Até que, em meio a uma correria, me sentei no último dia de 2007 num computador que estava à mão e criei o "Ostracismo Voluntário". Escrevi naquela hora para ter o impulso e a meta de continuar a escrever durante o ano. A partir daquele dia estava criada a meta: ter um blog, escrever e publicar meus textos.
O Ser Humano precisa disso, de um objetivo. Pode ser adquirir algum bem ou encontrar o verdadeiro amor, mas todos precisamos de algo que nos faça acordar e vencer um dia. Por mais que adote a filosofia do “carpe diem”, nós vivemos para o amanhã. Nosso dia de hoje está apontado lá adiante. Vamos ao mercado fazer compras para comer nos dias que virão, estudamos para usar o conhecimento no futuro, para passar num concurso, para galgar o emprego almejado; trabalhamos para termos dinheiro para fazer a viagem dos sonhos, para termos filhos, para comprar “o carro”. Pode ser a longo ou curto prazo, mas temos sempre algum objetivo, e é ele quem engrena a máquina da vida. São os sonhos e metas que nos mantêm sãos. Quando agimos para alcançá-los estamos bem, quando conduzimos nossa vida contra os nossos sonhos e metas, nos sentimos frustrados, perdidos. São eles que nos guiam e fazem nosso caminho.
Já que estamos na data certa, vamos repensar nossos objetivos, nossas rotas. Vamos criar metas reais, fazer planos com margem para os tropeços e flexíveis para que se adaptem aos ventos que virão. Crie metas para conseguir os objetivos, mas também metas para moldar a si mesmo. Tentar mudar hábitos ruins, neutralizar defeitos, dirimir conflitos internos.
Hoje, almeje mudar tudo o que quiser, alcançar tudo que desejas. Desejos grandes ou pequenos . Não importa se daqui alguns dias alguns se perderão no caminho, o certo é que sempre vai haver alguns que chegarão incólumes e vencedores no final, assim como essas palavras escritas aqui que, mesmo entre cacófatos, vígulas perdidas, pleonasmos, desencontros entre mesóclises e ênclises, chegou vencedora e imperiosa ao seu destino.
*
Obrigada aos meus queridos leitores que me impulsionam a escrever para amanhã, 31 de dezembro de 2008.

Desejo um 2009 cheio de objetivos vencedores!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

De volta ao Natal

*
Descobri porque não gosto do Natal. Na verdade faz um tempo que eu sei, mas agora resolvi assumir, tenho esperanças que isso me ajude a mudar um pouco essa visão.
No Natal as pessoas entram numa espécie de euforia coletiva. Todos ficam ansiosos para que tudo saia perfeito: a janta, os presentes, a família completa.
Como a perfeição não existe, sempre há frustração...
Meu problema já começa pela janta, comida fria, arroz à grega, farofa com passas... nunca gostei de nozes, frutas cristalizadas, panetone. Tudo bem que sempre tinha comida reservada pra mim sem essas especiarias natalinas, mas mesmo assim eu me sentia estranha no ninho.
Depois os presentes... minha mãe sempre errava os presentes de Natal. Dava o que eu queria pra minha irmã e o dela pra mim, ou então comprava a prima da minha boneca favorita. Isso que desde novembro eu já ia cantando a pedra do que eu queria ganhar do Papai Noel (sujeitinho, aliás, com quem eu mantinha uma péssima relação... sempre tive medo do bom velhinho). Mas os presentes não me preocupavam, ao fim e ao cabo eu sempre me divertia com o que eu (ou os meus irmãos) ganhavam.
Mas agora, depois de adulta, me causa desconforto esse hábito de presentear no Natal. Acho bonito a simbologia de presentear, mas essa onda de consumo exacerbado faz o encanto se perder. Há tempos que nessa época os cristãos vão mais às lojas do que às igrejas.
Nessa semana saí para comprar um livro para dar de presente a um amigo, fui em 4 livrarias e em todas elas foi impossível eu receber atenção de algum funcionário, tamanha a muvuca das lojas. O que me consolou foi notar que as pessoas compram livros ainda, nem que seja para presentear os amigos. Saí de lá sem o livro, afinal, meu presente vai ter menos prestígio se for dado em janeiro? Sei que para meu amigo não...
O problema não está no movimento das lojas, mas no fato das pessoas ficarem desatinadas para dar algum presente no Natal, criam um estresse em função disso. Não raro se endividam... e quando notam que esqueceram de alguém pedem mil desculpas ou saem a cata de uma lembrancinha perdida para dar de consolo.
Ah... agora a família completa. Foram- se os anos em que toda a família se juntava no Natal. Era até engraçado: tio, primo segundo, irmão da cunhada, sobrinhos, tudo junto com “os mais próximos” para a ceia. Sempre rolava um fofoca entre a mulherada, um comentariozinho sobre a nova namorada do primo mais velho, a desconfiança que o tio solteirão é gay, uma tia que bebe demais e fica “sobressalente”, as cunhadas que não se bicam .... Eu gosto quando mistura todo mundo. Mas de uns tempos pra cá as famílias mudaram. Os primos foram morar fora, os tios cansaram de viajar, os pais se separaram, o irmão começou a passar os Natais com a família da esposa que fica em outra cidade, as crianças cresceram... mas ainda junta um pessoal. O problema é que eu sempre lembro dos que não estão. Ainda não consegui me acostumar com a ausência do meu avó, por exemplo.
Acho que nos dias que antecedem o Natal fico mais sensível. Uma espécie de TPM sui geniris. Parece que preciso ser feliz, custe o que custar e essa falsa euforia me sufoca. Fingir não é comigo.
Para mim, o Natal ideal é aquele em que as coisas acontecem de forma espontânea. As pessoas se unem por prazer, não por convenção. Pode ter porco assado, arroz à grega e farofa com passas, mas nada impede que seja uma “pizza especial”. Os parentes não precisam estar juntos, as pessoas que se gostam precisam emanar coisas boas umas para as outras e isso independe de laços sanguíneos.
Não devemos dar maior importância às datas do que às pessoas e aos sentimentos. Dia 25 de dezembro é só mais um dia, a gente que decide se vai fazer dele Natal ou não. Esse ano o meu será! O primeiro Natal depois de vários 25 de dezembros...

Feliz Natal a todos!!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Expelir palavras

*


***

Ando com uma certa angústia em relação ao blog. Às vezes pode parecer displicência, mas no fundo eu acho que é excesso de zelo.
Ele, com um certo orgulho, deixou de ser um ostracismo meu. Tenho pessoas queridas (outras nem tanto) que gostam do que escrevo. Por vezes até me cobram atualizações...
Eu queria muito ter o dom de ter sempre idéias, opiniões e palavras interessantes na ponta dos dedos, mas isso acontece em raros momentos. São insights criativos estimulados por alguma reflexão profunda sobre algo cotidiano, ou algo que me inquietou ou me enraiveceu de tal forma que tenho que escrever como forma de tirar aquilo de mim.
Escrever sobre coisas que não inquietam minha alma me inclina a falar de frivolidades. Sei que a vida é repleta pequenos momentos de discussões cotidianas. Diálogos internos rotineiros, mas inevitáveis. Fazer a lista do mercado, decidir se vou dedicar a manhã de sábado para lavar roupas ou deixar a pilha aumentar e me entregar nas mãos do Morfeu até meio dia... Ligar para alguém para desabafar ou assimilar sozinha o problema... Dar ou não esmola pra criança faminta... Meu dia é feito dessas pequenas indagações e atos que não renderiam um bom texto. O roteiro dos meus dias eu escrevia quando tinha diário. Escrevia nele, desde os dez anos, tudo o que eu fazia. O curioso é que parei de escrever diário, justamente quando meus dias ficaram mais interessantes. Ironias dessa vida... E guardava tudo com um cadeado! Escondia no esconderijo secreto, junto com as cartas de amor. Um dia ainda encontro elas...
Quando meu dia era normal, escrevia “idem ao interior”. Pois é, naquela época já não tinha muita paciência para frivolidades. Se qualquer dia aparecer por aqui um “idem ao anterior”, não se espantem...
Como escrevi no início, coisas cotidianas também me instigam. Eu faço delas um evento quando escrevo, mas na maioria das vezes vivo os dias sem querer analisá-los ou tecer críticas...
Talvez tenha que aguçar isso em mim, talvez seja preguiça... pode ser. Preguiça de pensar... você conhece alguém que já teve? Posso estar sofrendo dessa síndrome quase epidêmica.
O fato é que isso já está me trazendo uma certa angústia, aquela que inquieta minha alma e me faz expelir palavras...



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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

As diferenças que movem o mundo


A diferença entre o veneno e a cura é a dose.
Entre o raso e a essência é o querer ir além.


A diferença entre a primeira e a segunda impressão é o rever.
Entre as almas livres e as outras é a falta de medo do ridículo.


A diferença entre o tentador e o vulgar é a postura.
Entre o pobre e o rico é a medida do que lhe basta.


A diferença entre a risada de alegria e a de desespero é o batimento cardíaco.
Entre o medo e a adrenalina é o suor das mãos.


A diferença entre ver e enxergar é o observar.
Entre a crítica e a ofensa é a intenção.


A diferença entre a criança e o adulto são as dores.
Entre o amor e o ódio é o foco.


Entre a admiração e a inveja é pouca medida de si mesmo.


A diferença entre o primeiro amor e os demais é a falta de referência.
Entre a paz e a solidão é o tamanho do vazio.


A diferença entre o amor e o sexo são as horas depois.
Entre a segurança e a fragilidade é o tamanho da vulnerabilidade.


A diferença entre o que pensa e o que de fato é, está em como age.
Entre a conquista e a impertinência é a abordagem.


A diferença entre os volúveis e os sensatos é a crítica.


A diferença entre o santo e o pecado é o julgamento.


Entre o proibido e o permitido é a existência de testemunhas.


Entre a satisfação e a decepção é a expectativa.


Entre o apaixonado e o poeta é a constância.


A diferença entre tudo e o resto é a essencialidade.


E a ironia que dá graça à história, é que tudo o que nos diferencia acaba por nos tornar iguais.
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Insônia Moral e Cívica

*

Chico Buarque e Milton Nascimento - Cálice


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Minha noite estava terminando de forma razoável. Estou lendo o "Código da Vida", de Saulo Ramos, uma mistura de autobiografia com a história político-social e jurídica do Brasil. Ele é história viva... Estava na parte em que chegou até suas mãos o processo da família de Vladmir Herzog, pedindo reparações morais, queriam apenas que fosse oficialmente aceita a tese de que houve homicídio. Transcreveu uma parte do processo em que Rodolfo Konder, que estava com Herzog no DOI-CODI no dia em que ele foi morto e testemunhou algumas fases da tortura, narrava o que tinha visto, escutado e também sofrido naquelas salas.

Fechei o livro, vi que o sono não viria dali. O “suicídio” de Herzog me causa náuseas... Meia noite e o sono, após eu abstrair para outras áreas mais floridas dos meus pensamentos, finalmente chegou.

Uma hora da manhã toca o telefone, minha mãe avisando que o Fito Paez estava no Jô. Pulei da cama e fui ver. Quem me conhece sabe que Fito, é Fito!

Entrevistinha tosca do Jô, mas pude ouvir algumas canções que valeram a pena. Sempre vale... mas o sono foi-se.

A cama não me atrai, o livro me repugna, a chuva me afasta da sacada... o computador me chama.

Aqui estou. O tracinho do Word pisca, pisca me pedindo mais, mais palavras, mais histórias. Esse Word é curioso, às vezes faminto e desafiador. Mas hoje me pegou desprevenida. Me sinto tentada a falar sobre as surpresas da vida, sobre quando ela nos pega desprevenida... poderia dar um bom texto, mas não agora.

Melhor falar sobre quando ficamos sem palavras. Quando, por exemplo, os homens de farda cometem uma atrocidade com a sociedade, praticando um execrável homicídio, forjam um ridículo suicídio...

De fato Herzog e outros tantos vítimas de luta pela liberdade cometeriam suicídio se soubessem que o “povo” hoje em dia mal lembra da sua luta - da mesma forma como esqueceu da sua própria pátria- que muitos jovens veriam de forma “romântica” o terror da ditadura, que um grande números de cidadãos brasileiros nem sabe que isso existiu. Pergunte para jovens de 17 anos o que foi o AI 5. Melhor nem perguntar... A “massa de manobra” ainda é o partido mais forte desse país.

Ontem foi 7 de Setembro. O dia foi lindo, fiz meu mate e fui para a Beira-Mar, buscar um pouco do pôr do sol do Guaíba ou o gramado da Redenção. Encontrei uma linda Florianópolis, esse país ainda tem coisas lindas.

No caminho pensei, que dia é hoje, mesmo? Nenhuma bandeirinha verde- amarela, nenhum desfile, nada de Hino Nacional o dia todo. Parece que teve desfile dos milicos em algum lugar... é ultraje falar milico? Nem sei... não vou ser presa por isso.

Nos jornais não vi nenhuma referência ao Dia da Independência. Tudo bem, sei em quais circunstâncias ela aconteceu, sei que não há muitos motivos para se comemorar, recebemos poucas medalhas nas olimpíadas, mas fiquei absorta com tamanho desdém dos brasileiros com esse fato importante. Mercadinho aberto, lan house da esquina fechada porque era dia de manutenção, posto funcionando 24 horas... Vi apenas muitas carreatas e panfletos de políticos pelas ruas. No dia 7 de Setembro só se escutou o Hino Nacional porque teve jogo da seleção.

A única referência foi o Presidente aparecer à noite em rede nacional por alguns minutos. Falou do Petróleo. Depois que acabou o ouro, resta o petróleo, mas acho que o preço que estamos pagando dessa vez é bem mais alto, não sei se teremos tantas reservas assim.
Isso me deixou sem palavras. Claro, se fosse numa segunda-feira, todos lembrariam com alegria deste dia.

A tese do suicídio de Herzog ainda prevalece nos quartéis, o motivo dos feriados só são lembrados se não caírem no domingo, autoridades ainda balbuciam o Hino errado em solenidades, terras da Amazônia, pertencentes à União estão sendo vendidas a estrangeiros... continuo sem palavras.

Infelizmente acho que De Gaulle tinha razão, o Brasil não é um país sério. Nem tenta fingir que é.

Vou voltar ao Fito Paez, acho que pego ainda o último bloco. Talvez tenha a sorte de escutar aquela que diz “ Al outro dia como el ave fênix me levanto com el pie direcho y rio sim razón, lhevo uma loucura caprichosa...”.


Amanhã é outro dia...
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Suicídio de joelhos...



Herzog, nas imagens publicadas pelo Correio Brasiliense e na na foto clássica distribuída em 1975 pelos órgãos da repressão da ditadura.





quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O Inferno, a Dose e a Liberdade




Quem vê a minha feição meiga e meu discurso reflexivo, que por vezes cai no sentimentalismo excessivo, não imagina quanta maldade sou capaz de fazer.


Meus amigos sabem... Mas toda a maldade que eu faço é para mim mesma. Dores que alimento, pessoas que teimo em manter na minha vida enquanto deveriam estar bem longe, outras que me ignoram, mas finjo que ainda estou ali, algumas poucas que sepultei e nunca mais deixarei voltar, sem dar direito a uma segunda chance. Maus hábitos que alimento para se tornarem meus pequenos desafios, que servem para me desviar dos maiores problemas, sins que me obrigo a dizer e me puno por não ter dito o sincero não.


Como diz Martha Medeiros, todo paraíso precisa de um pouco de inferno. Pois é, tenho meu inferninho. Fica perto da saída de emergência, por onde fujo quando entro em desespero. Porta, aliás, que anda cada vez menos movimentada, graças a Deus, literalmente.


Estou voltando a acreditar nas minhas antigas crenças depois de um flerte imaturo e escondido com o ateísmo. Resultado de doses de Sartre, Nietzsche, Kafka e Wilde. Passei de um para o outro sem oxigenar a alma. Mas errei na medida do veneno e achei a cura. Eles eram demasiados “santos” em suas crenças e na vontade de abrir as mentes humanas - como de fato fizeram - que senti o dedo de Deus em suas linhas. Contraditório? Deus é contraditório.


São escritores muito complexos e reconheço meu atrevimento ao fazer essa análise. Mas todos eles me instigaram a isso, ao pensamento livre.


Conheço pessoas que os endeusam, outras dizem que são crias do diabo... fico no meio- termo, tirei o sumo. Vi neles tanta verdade, sentimentos vicerais, dores e traumas que mutilaram suas almas que me soam puros (nunca ingênuos).


Sartre, por exemplo, era muito feio, gerava até ojeriza em algumas pessoas, mas passou sua vida toda cercada de muitas e até belas mulheres, chegou a ter nove ao mesmo tempo e por muitos anos. Geralmente seu contato sexual com elas durava um tempo, depois, muitas vezes, se tornava uma relação casta, mas nunca se abandonavam. Tinha seu pequeno harém, sustentava emocional e financeiramente suas mulheres (menos Simone de Beauvoir) e precisava do amor delas para viver. Amava cada uma de um modo diferente. Chegou a adotar a mais jovem para poder deixar o legado de suas obras, já que não teve filhos.


Para muitos essa é uma vida errante e digna de censura. Mas isso é fazer um reducionismo simplista. Por mais que tenha havido promiscuidade, em nenhum momento Sartre leviano ou superficial em seus relacionamentos. Sempre foi sincero quanto a sua vida poligâmica. Teve uma relação com todas elas que transcendia, em muito, o físico. Tinham uma ligação muito mais intelectual e espiritual do que sensual. Suas brigas e términos se davam por idéias, mudanças de valores, não por sentimentos de posse ou fim do amor. Eles possuíam o essencial para um relacionamento: o respeito. Não faço apologia, nem sou partidária da poligamia, longe disso. Me descobri demasiada Cristã para isso, além do que, no que tange relacionamentos, gosto de cercas altas. Mas minhas opiniões não me impediram de ver a grandeza de Sartre. Quem consegue ver pureza nisso, mesmo que não compactue, tem alma livre. Sartre foi feliz em suas palavras ao dizer que o inferno são os outros.

De fato, cada um de nós sabe onde está o seu inferno e do resto, fazemos o que quiser.




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Foto do meu amigo Davi Santos

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Abrindo o Portão...


Perfeita música...
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 U2 - Walk On



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Este é um texto de despedida.
Estou indo para outro lugar.
Estou deixando tudo o que já não quero.
Um legado que não servirá a ninguém, pois só vestiu a mim e pareceria estranho em qualquer outra pessoa.
Deixo hábitos que não reitero mais,
Buscas que acabaram,
Livros que nunca vou ler,
Crenças que eu tentei ter fé, mas se fosse segui-las condenaria minha alma.
Deixo sapatos que nunca doeram meus pés, quero amaciar novos...
Aprender com novas dores.
Deixo numa porta as flores para que outro regue, essas tenho dó de abandonar...
Estou juntando o que há de melhor em mim e indo para outro lugar.
Larguei velhos vícios e bloqueei o caminho para outros seguidores.
Ignoro os que me chamam, só escuto o que me soa melodia.
Estou indo sem deixar migalhas de pão ou pedras pelo caminho,
Não quero voltar, nem que me achem.
Levo páginas em branco e canetas coloridas.
Levo cilindros, vou ir para onde falta o ar.
Quero aprender a usar pés-de-pato, experimentar dar alguns passos para trás e mergulhar num novo mundo...
Vou sonhar para a frente.
Sei que não é fácil, mas talvez alguém me ajude a reaprender a respirar. Quero ar de qualidade.
Vou eu em busca do meu Ale nto, da minha paz, do meu melhor perfume, do que renova minha fé.
Quero repousar minhas noites no meu melhor travesseiro,
Sentir a doce brisa do ar quente e ofegante que vem quando avistamos um gramado verdinho, ensolarado e corremos até nos atirar sem medo em sua brandura.
Não digo para qual lugar estou indo, porque não sei se vou ficar.
Estou sem teto, mas tenho um lar inteiro dentro de mim.
Levo as chaves, mas para onde vou de nada adianta ter as chaves se as portas estiverem fechadas.
Mesmo que seja com uma cara carrancuda, alguém tem que me receber, dar as boas-vindas e oferecer pouso.
Quero acomodações módicas, toda riqueza vai estar na simplicidade dos sentimentos.
Serei uma boa hóspede. Carrego pouca bagagem, pois é essencial ser livre para poder ficar.
Estou abrindo o caminho...
Levo minha bússola, meu cantil, tênis confortável, protetor solar e imaginação de sobra para passar o tempo.
Não importa a distância, o andar me faz feliz.
Essa solidão passageira não me traz medo. É bom também aprender a ser só.
Nada receio, porque mesmo que eu não encontre ninguém a me esperar, o meu coração já mudou de endereço e nunca mais voltará para o lugar de onde partiu.


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