segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quando Eu Tinha Dezesseis





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Quando eu tinha dezesseis anos achava que a vida era infinita, talvez pelo medo da morte.
Hoje, com trinta e seis, tenho certeza de que ela é. Mas meu corpo não e que a morte é só uma ficção e espero por ela, mas que venha em tempo, por hora, distante.


Quando eu tinha dezesseis não tinha nostalgia.
Agora com trinta e seis, aprendi que nostalgia é o bem querer do passado repisado.


Quando eu tinha dezesseis, amava Fito Paez.
Agora com trinta e seis, também.


Quando eu tinha dezesseis, achava que meus pais eram imortais.
Hoje com trinta e seis, um pai com AVC e mãe que superou dois cânceres e uma trombose, sugo o sumo de suas efêmeras existências terrestres.


Quando eu tinha dezesseis achava que odiava beterraba.
Hoje, com trinta e seis, amo o gosto doce desse tubérculo.


Quando eu tinha dezesseis lia Paulo Coelho e sonhava em fazer o Caminho de Santiago.
Hoje com trinta e seis, depois de ler Kafka, Sartre, Pessoa, Oscar Wilde , Clarice Nietzsche, e Bukowski ainda sonho em fazer o Caminho de Santiago.


Quando eu tinha dezesseis não tinha rugas.
Agora com trinta e seis, desfilo orgulhosamente pelas ruas com meu bigode chinês.


Quando eu tinha dezesseis fazia o que desse na telha.
Agora com trinta e seis, também.


Quando eu tinha dezesseis, sonhava em ser presa numa solitária com um violão onde tocaria lindas canções do Legião.
Hoje com trinta e seis, depois de tentar aprender, descobri  que tocar violão exige dedicação, destreza e talento que não tenho e também que o sonho da solitária é igual ao dos idiotas que vêem poesia na ditadura, além de achar o Legião o suprassumo da depressão.


Quando eu tinha dezesseis pensava que não gostar de algo sobre alguém me faria sua inimiga.
Agora, com trinta e seis, posso achar Legião Urbana depressivo e amar a música Metal Contra as Nuvens e outras tantas mas, ainda assim, não querer ouvir quando acordo num dia de sol.


Quando eu tinha dezesseis achava que o amor era fruto de uma geração espontânea.
Hoje, com trinta e seis e um coração retalhado, sei que ele é fruto de uma construção paulatina.


Quando eu tinha dezesseis, sonhava em casar e ter filhos.
Agora com trinta e seis também, mas já cogito congelar meus óvulos.


Quando eu tinha dezesseis, mudava a cor do cabelo conforme meu estado de espírito,
Hoje, com trinta e seis, também.


Quando eu tinha dezesseis achava minha irmã uma chata e démodé.
Hoje, com trinta e seis, ela é minha melhor amiga.


Quando eu tinha dezesseis, era maniqueísta. Entusiasta dos rasos extremos da vida.
Hoje, com trinta e seis e dez anos de advocacia familiar, sou mediadora, partidária do caminho do meio.


Quando eu tinha dezesseis fazia terapia.
Hoje com trinta e seis, também.


Quando eu tinha dezesseis achava que as borboletas e a fênix me representavam.
Agora, com trinta e seis, também.


Quando eu tinha dezesseis achava que ser caçula me fazia ser a eterna criança da família,
Hoje, com trinta e seis, sei que serei a eterna menina sapeca da família, mas que o meu irmão mais velho,  extremamente exigente e crítico, vai me chamar para ser a sua advogada (e pagar os honorários, mesmo que eu não queira).


Quando eu tinha dezesseis, achava que meu coração era do tamanho da minha mão fechada.
Hoje com trinta e seis, sei que meu coração consegue pulsar e habitar milhas de distância.


Quando eu tinha dezesseis, achava que era dona do mundo e senhora do meu destino.
Agora, com trinta e seis, não tenho mais dúvidas. Sou dona do meu mundo e senhora do meu destino!




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quarta-feira, 1 de março de 2017

Sobre o eterno, o presente e o amor

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Minha irmã me mostrou uma foto em que dormia com seus quatro filhos, pediu que eu escrevesse um texto sobre amor baseado nela. Disse que desejava que o tempo parasse nessa foto para manter as crianças pequenas e sempre perto dela. Lembrei de várias situações em que eu gostaria que o tempo parasse. Lembrei dos amores de carnaval que passam tão rápido, da paixão existente no início dos relacionamentos, dos abraços fortes, dos beijos sufocantes que nos enchem de vida e que gostaríamos de eternizar, do colo da mãe, de brincar com o pai.

Por outro lado, se tivéssemos esse poder, de quantos outros momentos lindos seríamos furtados? De dar um segundo abraço mais cúmplice, de ver as crianças crescerem e nos dando lições de vida, de acordamos no dia depois com a vontade de termos dias a mais. A vontade de tornar eterno a efemeridade contida na felicidade nos tolhe muitos momentos de mais amor. Aceitar a passagem rápida da vida é o segredo da felicidade.

Tão bom quanto ter as crianças protegidas dormindo ao seu lado é poder vê-las acordarem e crescerem. Ver o sorriso delas encantando cada canto da casa e da vida todos os dias.

O amor de verão pode viver até o inverno, primeiro beijo pode se repetir a cada novo dia, a cumplicidade de uma noite de carnaval underground pode perdurar até o próximo Natal. As crianças podem crescer e não mais caberem na cama, mas  sempre estarão aconchegadas no coração dos pais. A lembrança do amor de quando criança sempre estará viva no fio invisível da memória e pode ser revivida todas as vezes que o coração quiser visitar o passado.

Deus nos deu a memória para que sempre possamos fazer essas pausas, essas voltas. A nossa vida não pode jamais parar, mas o coração pode sempre voltar e revisitar nossas antigas paisagens. Mas sempre é bom lembrar que o melhor é estar muito bem aconchegado nos braços desse momento sagrado em que nosso pulsar agora está locado, onde deve estar nosso coração e nossa mente, que não é atoa que é chamado de presente.


Em memória da minha gatinha Poesia que morreu enquanto esse texto foi escrito.
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Despedidas


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Os últimos acontecimentos do ano me fizeram pensar muito sobre a fragilidade  da vida e a real importância da nossa existência. Muitas pessoas perderam seus maridos, filhos, irmãos dando apenas um “até logo”, sem a chance da real despedida. 

Passei a me questionar quantas pessoas que amo e não tive a oportunidade de me despedir. Lembrei dos meus avós falecidos, os que conheci em vida foram internados antes do falecimento e pude, sim, me despedir de todos. Lembro de no leito do hospital beijar cada um, olhar nos olhos e dizer o quantos os amava. Tinha certeza que não teria uma segunda chance para dar adeus.

Perdi amigos também, esses foram no rabo do foguete para o outro plano, de forma abrupta sem que eu pudesse dar um abraço forte e dizer  o quanto eram importantes pra mim.

Veio como lampejo uma súbita e curiosa vontade de que os velórios  fossem feitos com as pessoas ainda vivas. Tipo uma mesa redonda, onde no centro estaria o futuro morto, em que não fosse permitido julgar, nem ofender, nem punir, apenas enaltecer.

Nesse encontro ante mortem poderiam participar todas as pessoas que o pré-defunto tivesse encontrado durante a vida.  Todas teriam direito à voz, mas somente falariam as coisas boas e significativas que ele fez. Não se chamaria velório, talvez festório, pois teria clima de festa e confraternização, com direito a brinde e confetes. Não é isso que se fazem nos velórios? Jogam confetes nos mortos... então pra que privar a pessoa de receber os confetes, elogios e agradecimentos ainda  em vida? Depois sim, viria o velório clássico onde todos os defeitos do morto seriam escritos, sem assinatura, e depositados numa urna a serem enterradas junto com o de cujus. Coisas ruins devem ser enterradas e esquecidas logo, seja de vivo ou morto. Já as boas.... essas devem ser entoadas para além das gerações.

Pois é, talvez você esteja fazendo a mesma pergunta que eu: como saber quando é a hora de fazer o festório, visto que a hora da morte é uma eterna dúvida? A resposta é bem simples, pode-se fazer a qualquer hora e várias vezes, basta que o futuro morto esteja vivo, claro... Pode fazer junto de uma festa de aniversário, no Natal em que a família  está reunida. Pode ser feito também por telefone, quando sentir saudade ou lembrar com carinho da pessoa. É muito simples e libertador.

Uma coisa é fato, todas as pessoas, em detarminado momento, vão nos deixar, seja vivo ou morto. Pense em quantas pessoas passaram pela sua vida? Não falo de quem morreu fisicamente, mas morreu na tua existência física na terra, que não teve mais contato algum. Que sumiram no oco do mundo e nunca irão voltar. Quantas você mesmo as mandou embora? E quantas dessas pessoas se foram sem despedir? Para quantas você gostaria de dizer algumas palavras se soubesse que aquele tchau seria para sempre? Quais seriam suas últimas palavras para ela?

Confesso que não lido bem com despedidas, mas tenho certeza que mais vale um abraço apertado com sabor de último do que mil lamúrias em frente a um caixão. Abracem e beijem seus vivos, ame e enalteça seus amores. Faça um exercício: pense em uma pessoa que amas e estás distante. Agora imagine que acabou de saber que ela morreu. O que sentiria? O que diria? Quais arrependimentos tem? Quais perdões lhe daria? Agora pegue o telefone, facebook, whatsapp, e-mail, marque um café ou qualquer forma de contato que tem com ela e diga tudo o que pensou. Aproveite a oportunidade de experimentar a sensação de paz no coração.

Pode ser clichê, mas não deixe nenhuma reserva de amor guardado para amanhã. Ele pode nunca chegar e o mundo está cheio de últimos abraços suprimidos e os cemitérios lotados de flores que o ente querido ali enterrado nunca sentirá o perfume.

Então desejo que o amor nunca se demore nessa pressa atropelante dos dias e que   sempre haja tempo para todas as despedidas.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Coragem de Maestro





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A vida não te dá respostas prontas, caminhos retos, direções certas nem obviedades. A vida não vem afinada. Como disse Guimarães Rosa, o que ela quer da gente é coragem. 

Tu podes ter a coragem de um kamikaze suicida, de um ancião ou monge tibetano. Coragem para ser o que se é. Mas longo é o caminho do autoconhecimento. 

Ao meu ver, o maior ato de coragem é desbravar a si mesmo. Ser mochileiro de seus lugares inóspitos. Desbravar o inviolável de sua própria alma. Esse é o maior ato de coragem . 

Tantos ganham o mundo perdendo a sua essência. Percorrem a jornada da vida deixando pelo caminho migalhas de sua própria alma, chegando na reta de chegada vencedores de recordes e perdedores de si mesmos. 

Não adianta ser um catedrático laureado mas reprovar no estreito contato com sua própria sombra. Por isso, mais importante do que abrir as cortinas do quarto, é buscar iluminar seu porão.

Às vezes é preciso silenciar a alma do mundo lá fora para poder ouvir qual sinfonia que toca aqui dentro, porque o que faz uma orquestra afinada é o ouvido apurado e a brilhante regência de seu maestro.

Mas não se nasce maestro. É preciso tempo, tato, treino, silêncios, ruídos, coordenação, foco.

E na viagem da vida somos todos maestros amadores conduzindo um bando de desafinados que nos habitam: medos, insegurança, desejos ignorados, talentos adormecidos.

Daí vem a coragem a qual me refiro, aquela necessária para a vida: assumir a maestria perante a condução da nossa existência, pegar a batuta, conhecer e comandar todos os "eus" que nos habitam, afinar os instrumentos e nos tornarmos maestros da nossa mais perfeita sinfonia.

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* foto: google

domingo, 13 de dezembro de 2015

Sobre ventos, cabelos e AI-5


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Cheguei  no cabeleireiro e sentei como uma rainha. Aquele salão chic cheio de espelhos, lustre de cristal, máscaras da L'Oréal e serviçais trazendo café em xícaras de porcelana chinesa. O intuito era cortar as pontas secas e mudar um pouco o layout, como diz meu pai.

Logo chega o ''mestre das tesouras'', muito simpático e sorridente, com aquele instinto de vassalo e pergunta: quanto posso cortar?

Fixando os olhos nos dele através do espelho, respondi: quanto tu achar que precisa.

Até agora não sei por quê falei isso. Por um lapso de segundo me arrependi. Como depositar tamanha confiança em um estranho? Mas meu orgulho impediu de retificar a resposta. Maldito orgulho ceifador.

O olhar dele se transformou e o senti se regozijar por dentro. Em dois segundos me tornei vassala e ele o suserano.  Ali estava eu, igual o arbusto sendo tosquiado pelo Edward Mãos de Tesoura. Só olhava de canto de olho minhas madeixas caírem ao chão, sem dó nem piedade. Senti minha mãe incorporada naquele corpo. Desde meus 23 anos ela diz que já sou velha para ter cabelos compridos. Praga da D. Inês, só pode.

Maldito tosador. Em questão de segundos fui teletransportada do trono majestoso para a guilhotina. As mãos suavam frio e o coração palpitava. Comecei a colocar a mão no cabelo num ato comedidamente desesperado  e notei que pouco restava, nem dava  para dar aquele nó charmoso no meio do calor da balada.

Já tive cabelo curto e lembro do trabalho que dava para domar. Sempre acordava com os cabelos parecendo um capacete loiro que sobreviveu a um acidente, todo amassado. Já sei que perderei meia hora de sono todos os dias só por causa desse ato inconsequente.

Depois do cabelocídio ele pergunta (agora com aquele ar de superior cheio de intimidade)  se eu queria que escovasse com a franja para o lado ou ao meio. Nessa hora quase mandei ele pegar aquela escova e...

Sai dali meio desnorteada. Entrei no primeiro banheiro que vi e fiquei uns vinte minutos mexendo no cabelo, me encarando no espelho, tentando ver todos os ângulos e me reconhecer em algum. Mandei fotos para os amigos, caso me encontrassem na rua saberem que se tratava de mim. Fui para a rua com a força do Sansão  careca  e segui a vida. Assim os dias se passaram, já que a vida não condiciona sua existência pelo nosso corte de cabelo.

Lembrei que hoje marcam 47 anos do AI-5. Para quem não cabulou as aulas de história, ou quem viveu na época da ditadura, sabe que o corte que ele causou na vida dos brasileiros foi imensamente mais castrador, catastrófico e durador do que qualquer corte de cabelo. E a vida seguiu para todos (ou quase).

Nessa hora me dei conta que vida se condiciona a fatos muito mais importantes do que uma visita frustrante ao cabeleireiro. Visitas ao cabeleireiro não entram nos anais. Assim como os finais de relacionamento ou oportunidades perdidas não entram nas biografias.

No final das contas, percebi que o cabelo curto me cai bem, assim como acordar mais cedo me trouxe cafés da manhã mais sossegados e, melhor do que dar nó no cabelo no calor da balada, é sentir o ventinho fresco do final de tarde deliciosamente contornando tua nuca.

Pois é, quero que isso conste na minha biografia : ''Fabrine, aquela que preferia vento na nuca do que nó na cabeça e mil  cortes nos cabelos a um rasgo na Constituição.’’


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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Obscenidades




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Na minha casa não se falava palavrão.  Apesar de meus pais não serem caretas, tinham repúdio às palavras ofensivas. Então não aprendi a conviver muito bem com elas. Uma vez chamei  meu irmão de pentelho na frente do Bispo da cidade, amigo da família. Minha mãe ficou zangadíssima  e tenho certeza que pensou vários palavrões para me xingar.

E assim cresci, sem usar palavras vulgares nas minhas manifestações de ira ou êxtase.  Os palavrões que decorei eram apenas dois: inconstitucionalissimamente  e oftalmotorrinolaringologista. Quando brigava com alguém dizia: inconstitucionalissimamente pra ti!!! Mas o interlocutor nunca entendia a ironia.

Os xingamentos entre mim e meu irmão eram assim: "Bine, vai chupar um prego!" E eu respondia: "e tu vai tomar naquele lugar!"  Sempre acabava rápido porque não tinha mais o que falar.

Fui crescendo e meus amigos “boca sujas” aparecendo. Eu sentia (e ainda sinto) uma certa inveja e admiração por aqueles que quando a bola bate na trave gritam “Ahhhh, porrrrra!!!” Ou na hora de uma discussão enche a boca para mandar o cara pra pqp.

Há poucos dias umas amigas foram juntas num mercado e protagonizaram uma briga com a atendente estúpida. A mais desbocada delas usou todo o seu vasto repertório chulo. Não presenciei a cena, mas de escutar a encenação hilária me regozijava  imaginando eu falando isso tudo para uma certa pessoa.

Tenho uma amiga que, assim como eu,  não tem o hábito de falar palavrão, mas confessou que  aproveita quando está fazendo sexo e rasga todo o seu repertório chulo. Esse acaba sendo um prazer quase orgasmático.

Lembrei  do Drummond, que escreveu um livro cheio de obscenidades, com poesias eróticas, chamado “ O Amor Natural” mas não teve coragem de publicar em vida, porque também não se sentia confortável com essa coisa toda. Há palavrões que são músicas, palavrões que são poesia e poesias que são palavrões (Bukowski que o diga) . 

Só  tinha um momento que eu enchia a boca pra falar palavrão sem consciência pesada. Com quinze anos comprei o CD Cabeça de Dinossauro dos Titãs e conheci a música Bichos Escrotos. Em determinada hora eles mandam toda meiguice se foder. Virou um dos meus hits preferidos, só pra eu poder falar o palavrão.

 Na  época da faculdade frequentava um Pub  que a banda da casa tocava essa música. Toda noite  que eu estava lá dedicavam ela  pra mim. E eu adorava mandar todo mundo pra casa do caralho levantando o dedo do meio  bem desaforada. Mas só no show. Depois  botava um halls na boca  e seguia a festa com a boca limpa.

Não sei se foi esse cerceamento que me deixou uma pessoa mansa e pouco belicosa ou se já é instintivo, mas percebi que mesmo se permitido fosse - pois agora já posso falar a merda que quiser, sem levar tapa na bunda - os palavrões se tornaram inócuos pra mim. Eu xingo com os olhos, ofendo com os quadris e extravaso movimentando de forma debochada o canto da boca. Aprendi que há outras formas de hiperbolizar  minhas emoções. Descobri que meu sorriso nem sempre é simpatia. Essa talvez seja minha maior obscenidade.

Mas de tudo isso, o inquestionável é o poder libertador do palavrão,  que evapora  o álcool e exorciza os demônios. Palavrão é o fio terra da linguagem,  o subterfúgio criado pelo homem para  descarregar a  carga tóxica excessiva de emoções comprimidas. Enquanto as pessoas brigam se xingando gastam mais energia enchendo a boca do que as mãos. Por  isso anseio por um mundo de mais palavrões explícitos ou tácitos e menos vias de fato. E que meus amigos desbocados sejam ainda mais desbocados porque se a palavra liberta, o palavrão é a liberdade em euforia. 

Como disse Dercy Gonçalves “palavrão, meu filho, é condomínio, palavrão é fome, palavrão é a maldade que estão fazendo com um colírio custando 40 mil réis, palavrão é não ter cama nos hospitais. Palavrão, mesmo que ninguém assuma, é a miséria, a falta de respeito, é a sacanagem que estão fazendo com o povo. Isso que é palavrão.”

E o resto do vocabulário pode ser usado de escracho na boca de quem bem entender e se alguém se sentir ultrajado, que coloque tarja preta nos ouvidos.

Só sei que geralmente onde tem palavrão não tem hipocrisia. Talvez por isso  eu prefira mil vezes os boca sujas do que os boca abertas.   

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Pimenta da vida

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Ontem foi aniversário de uma amiga. Menina de alma doce, compositora talentosíssima e com uma capacidade de empatia ímpar. Ela leu algumas mensagens de felicitações. Dentre elas, uma me chamou a atenção. Desejava felicidades, amor, saúde e também que mantivesse a tristeza latente em sua alma, para que ela pudesse continuar escrevendo lindas canções,  porque a beleza das letras está na dor pungente. 

Olhei para a aniversariante com ares de resignação, porque é a mais pura verdade.  Eu escrevo quando dói.  Me senti humana nessa hora (sim, têm dias que me ponho acima dos deuses do Olimpo). Também desejei (em silêncio) a dor a ela, e a mim. 

Lembrei que não escrevo há tempos. Não que esteja sem dores, só acho que me anestesiei.  Dor que não se sente, não se tem.  Voltei pra casa derrotada, como um vencedor mundial de MMA que usou drogas e burlou o antidoping. Dores íntimas e silenciosas, quando descobertas, ardem mais.

Passei o dia a cutucar as feridas da minha alma. Raspei saudades, tirei a casca das escolhas mal feitas, passei álcool nos cortes que me mutilei por derrotas não digeridas. Despi as indulgências e fiquei nua com a pele lanhada. Enchi a banheira de sal e mergulhei. Senti cada ardência dos machucados que aceitei de presente da vida. E agradeci por sentir a dor de estar viva.

Esse texto de tom pesado, aos olhos de um poeta, soa brisa. E para um bom intérprete de alma, sabe que é aí que mora a felicidade. Em aceitar a incompletude da vida, os desencontros, as esperas, os becos sem saída que nos ensinam a pular o muro.

Tem uma música que diz “eu não consigo ser alegre o tempo inteiro”. Pois é, eu também não consigo, e nem quero. Quero a distância e a chegada.  Mais que sorrisos francos, quero o choro sincero. Enquanto as pessoas têm medo de chorar, eu tenho gana por viver. Mal sabem elas que as lágrimas lavam a alma para a alegria fazer morada.

As pessoas fogem desenfreadamente da dor. Bebem, cheiram, têm relacionamentos fugazes, se escondem e vivem como múmias sem sentir o real gosto de estar vivo. 

A felicidade vem para aqueles que ousam sentir a derrota, que colocam os joelhos no chão não apenas por devoção, mas por serem alunos da escola dos tombos e tropeços. Aliás, quero ser laureada nesse liceu, porque cada tombo ensina a se levantar e cair com mais suavidade, até chegar o dia em que perdemos o medo de beijar o chão.  

A felicidade é um milagre para poucos que ousam ir além da reles superficialidade dos lugares comuns, dos sentimentos comuns, do relacionamento meia boca, do sorriso que não mostra os dentes, do rolo compressor da  rotina esmagadora de sonhos.

Eu quero mais, eu bebo a vida aos goles. Prefiro ter a língua queimada do que comer a vida pelas beiradas. Eu quero mesmo é me doer (e me doar) inteira, afinal a dor é a pimenta da vida.



Para Indy, que sempre leva minha dor para dançar.

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Alma Canhota







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Quero placidamente transitar entre as paisagens da minha alma
Reconhecendo cada esquina como antigas moradas.
Almejo viver minha vida sem altares ou púlpitos.
Sonho pela sutil presença das horas
Sentir cada vão momento como vão momentos que são.
Escrever sem pensar. Escrever por sentir
e sentindo, no cerne imutável da existência,
criar a minha audaciosa biografia póstuma.
Quero passar meus dias a escrever sobre o de cujus que serei.
Quero a morte latente nos meus dias para viver com a gana de um sobrevivente
A morte acompanha a vida, e isso é o que lhe dá sentido.
Quero escrever minha biografia deslizando a mão esquerda sobre o papel manchando de tinta a pele, como cicatriz da jornada errante.
A torta, a gauche, a mutante alma que me suporta.
Pobre alma amante fiel, filha incompreendida e resignada
minha jovem alma sossegada que desperta com o cingir da carne.
E por tão doce e límpida, disputada entre Deus e o diabo pelos seus santos pecados, incompreendida entre os homens, na incompetência de alcunhar, te chamam de canhota
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Mulher de 30





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A alcunha de balzaquiana sempre me pareceu algo superior, persuasivo, sexy... venho treinando há algum tempo para não me preocupar quando chegasse a hora. Antes me autointitulava de pré-balzaquiana.  Agora que estou prestes a me tornar uma, sei exatamente o que isso significa.

Ser balzaquiana nos dias de hoje significa ter uma dose excessiva de autoestima, senso de humor e oportunidade.

É que acontece o seguinte: quando chegamos aos 30 ficamos no que chamo de “limbo sexo-emocional”. É uma fase em que não nos satisfazemos com qualquer coisa, com um casinho “meia boca”, com um sexo mais ou menos, nem temos tolerância com uma conversa recheada de palavras mononeuronais.

Tenho várias amigas solteiras que passarão o próximo sábado ouvindo uma boa música, bebendo uma boa cerveja e aproveitando ao máximo a companhia de si mesmas. Sem se autoflagelar por não estarem casadas e com filhos.

Claro que a maioria almeja ter uma família, um homem para chamar de seu e poder fazer um bom sexo diariamente, mas infelizmente isso pode não acontecer tão cedo. Não temos o afã de precisar se jogar na “night” a fim de descolar um futuro marido. Mais do que nunca o intuito aqui é se divertir.

Vez ou outra até é bom sair na balada e se deixar levar pelas figuras cômicas que aparecem, como os pavões que recheiam as noites, querendo sobressair aos demais, se tornando a referência da festa como “o chato” da noite.


Mas o fato é que o perfil feminino ao qual me refiro são mulheres que estão bem sozinhas, mas sabem como é bom estar em boa companhia e que festa não é lugar onde se encontra alguém em potencial para se tornar algo mais.

E aí complica, pois as possibilidades se tornam limitadas. Como não vamos à caça, o jeito é ter os olhos atentos. Eu, por exemplo, já iniciei um relacionamento na delegacia, ao tratar dos interesses de uma cliente com o escrivão de polícia. Começamos falando sobre a Lei Maria da Penha e terminamos conversando sobre os sonhos desfeitos no meio desse mundo opressor.

Tenho uma amiga que tem todos os atrativos para fisgar um bom homem, mas ela é médica gastroenterologista e trabalha cerca de 15  horas por dia.

O nicho dela são os pacientes, namorados em potencial... mesmo prezando pela ética profissional, ter um caso com um paciente não é crime! Certa vez ela contou que apareceu no consultório um homem lindo, inteligente, carismático e cheio de outras qualidades, até trocou uns olhares. Acontece que em determinada altura da consulta ela precisou perguntar como eram as fezes dele: dura, pastosa, em pedaços, etc.  Nem preciso dizer que a cantada desandou...

Outra amiga se interessou por um colega de trabalho, começaram a almoçar todos os dias, faziam programas juntos, se divertiam muito, porém nada acontecia... até que ela descobriu que o moço era gay e estava interessado no seu irmão.

As mulheres de trinta estão no pico de suas potencialidades, cheias de qualidades legadas da recém passada juventude, aliadas a uma prodigiosa sabedoria que as distinguem da vala comum. Não são nem tão novas que sejam ingênuas e previsíveis, nem tão velhas que sejam antiquadas e distantes.

Como fala Balzac, “chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer".

Mas  o fato é que a verdadeira mulher de 30 passa à margem de qualquer classificação que geralmente possui conotação sexual. Ela se preocupa mais consigo mesma, em se conhecer, se amar, se auto sustentar financeira e emocionalmente, a vencer os preconceitos e deixar os melindres de lado. E nessa trajetória ela se esculpe com tal beleza que acaba se tornando extremamente atraente aos olhos seletivos de quem realmente merece tê-la ao seu lado.



Florianópolis, 12 de dezembro de 2010.




* foto: google

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sobre cotidiano e o tempo








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Quando tocou o despertador implorei por mais alguns minutos. Rolando na cama lembrei do desastre que tinha feito na noite anterior. Estava revoltada com as pontas secas do cabelo e resolvi eu mesma cortar. Óbvio que não deu certo. Levantei da cama e caí no chuveiro. Mal me olhei no espelho. Fiz o ritual diário para sair de casa, amarrei os cabelos e fui ganhar o mundo.

Cheguei no trabalho e dei uma olhada na agenda para ver algum horário livre para ir ao cabeleireiro arrumar o estrago. Notei que nessa semana não conseguiria ir, com muito custo encaixei a manicure às 8 horas da manhã seguinte.  Peguei um café e mergulhei no processo penal (que nunca foi meu forte).  Precisava destrinchar um parecer que estou fazendo há dias. Sabia que o dia seria curto porque no meio da tarde tinha consulta com a oftalmologista e não podia adiar. Meus olhos andam enxergando mal. Depois da consulta iria para a corrida, passar no supermercado e, por fim, passear com meu cachorro.

O trabalho estava fluindo e resolvi enforcar o horário do almoço. Eis que recebo uma ligação. Precisava redigir urgente um importante documento e levá-lo em mãos ao destinatário. Larguei o processo penal e mergulhei na legislação administrativa. Descubro que a rede de internet caiu sem previsão para voltar. Me virei com o que tinha em  mãos e às 14:30 hs o documento estava pronto.  Corri para entregá-lo ao destinatário que, por sorte, encontrei com rapidez. Tarefa cumprida com folga de uma hora até a consulta.

Sem titubear entrei no primeiro salão de beleza que vi no caminho. Falei para a cabeleireira que ela tinha 40 minutos para devolver a dignidade aos meus cabelos. Enquanto a moça lavava minhas madeixas pensei sobre a correria louca do dia-a-dia, pela qual a maioria de nós passamos. Eu gosto desse agito, de sempre ter algo a fazer, desafios a vencer. É o mundo em movimento. Mas às vezes o relógio se torna um algoz, colocando em eclipse o sol  da nossa vida. Nessas horas queria me teletransportar para qualquer lugar com baixa densidade demográfica, temperatura amena  e pouco ruído onde pudesse descansar os olhos em alguma bela paisagem.

De cabelo cortado fui na médica. Saí de lá com mais 0,25 grau de astigmatismo e uma receita para um novo óculos. Fui direto na ótica, que fica na rua mais movimentada da cidade. Fiquei meio perdida porque não encontrei a loja. Até que concluí que ela havia fechado. Decidi ir em outra loja perto da minha casa. Dei dois passos e ouvi uma voz cantando:  “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para...”   A música certa, na hora certa.

Por um momento pensei em ir atrás da voz que cantava, mas lembrei que tinha mais tarefas a cumprir. Dei dois passos adiante, mas a música já estava dentro de mim... “enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso faço hora, vou valsa. A vida é tão rara...”. Dei meia volta e fui ao encontro do bálsamo da vida. Músicas sempre me salvam. A meia quadra dali encontrei um rapaz cantando entre a  confusão de gente. Parei para respirar a vida por alguns minutos.

Na primeira música  tive vontade de correr como Forrest.  Então começou a cantar a segunda: “ Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...”. Nessa hora meu coração inundou  e tive vontade de chorar. E veio a terceira: "Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...” Daí simplesmente agradeci por existir.

Pensei em filmar a cena para compartilhar com meus amigos. Mas desisti. Deixei o celular na bolsa, fechei os olhos e flutuei. O relógio não existia mais, me permiti por alguns instantes viver a plenitude da existência. Depois de umas quatro ou cinco músicas a noite caiu e o som do helicóptero da polícia sobrevoando despertou a todos. Lembrei que estou nos dias nebulosos de Florianópolis. Pedi para uma menina que filmou as músicas me enviasse os vídeos e, agradecida por aquele momento, fui embora.

Consegui pegar a outra ótica aberta e encomendei as novas lentes. Cheguei em casa  com plano de seguir o previsto na agenda. Ia por rapidamente o tênis para correr, mas encontrei meu cachorro destilando amor. Desisti da corrida e presentei o Smart com um longo passeio pelo bairro. Sempre fui adepta da corrente do bem. Há uma frase clássica de um dos meus filmes preferidos em que o protagonista, após viver voluntariamente a experiência da extrema solidão, diz : “ a felicidade só é verdadeira quando compartilhada." Decidi  compartilhar e multiplicar com meu cachorro a felicidade que sentia.

Na volta, de alma leve, fui ao banheiro tirar a maquiagem. Olhei para o lado e lembrei que tenho uma deliciosa banheira na minha casa, que só usei uma vez esse ano  quando queimou o chuveiro. Deixei  ela encher. Peguei minhas músicas preferidas, me despi e entrei na banheira. Então percebi como é fácil fazer o tempo parar.


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Video







terça-feira, 16 de setembro de 2014

Coração em Vinte de Setembro

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Vou antecipar meu 20 de Setembro porque meu coração está bombeando saudade. Só quem é gaúcho sabe o que digo. Como canta Vitor Ramil, nunca pensei que minha sina fosse andar longe do pago. Porém a vida tem suas razões e por algum motivo, que espero ser justo,  me trouxe para viver numa linda ilha, mas longe da minha gente.

Nessa época do ano meu coração, que é dado à alegria,  chora e se aperta. De onde eu vim aprendemos desde cedo nossa história,  que num país de liberdade negociada por patacas, manchamos o verde e amarelo da bandeira brasileira com sangue da nossa gente, por ideologia e valores nobres, pela liberdade, para poder comercializar nossa riqueza “salgada” sem  sermos explorados pela cobiça da coroa.

Lutamos pela liberdade dos escravos, pela justa tributação do charque e do couro, pelo interesse do nosso povo, não nos envergando às tropas imperiais, e isso é  só um exemplo de tantas lutas das quais não fugimos. Durante a Revolução Farroupilha construímos e afirmamos princípios políticos, culturais, econômicos, sociais e principalmente ideológicos que guiam os gaúchos até os dias de hoje. 

De onde eu vim as crianças são piás que entoam o hino Rio-Grandense antes mesmo de  aprenderem que a família real veio para o Brasil fugindo de Napoleão.  Somos herdeiros de uma legítima  capitania hereditária, de uma terra  que  passa de pai para filho e,  pra onde quer que vá, coloca um punhado do chão no coração e leva consigo como um relicário.

Lá  no  meu pago os inimigos são declarados e as armas são iguais. É onde os rivais brigam sem que ninguém de fora esteja autorizado a entrar na peleja,  mas também se unem e se defendem mutuamente quando é preciso, como fazem os legítimos irmãos. 

Rio Grande do Sul, filho rebelde do sofrido e também  honroso Brasil, obrigada por fazer de ti  meu esteio e minha  pátria.

“Entre nós reviva Atenas
para assombro dos tiranos
Sejamos gregos na glória
e na virtude, romanos”

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foto: goole

terça-feira, 29 de julho de 2014

Novo Amigo





Eu e o silêncio estamos conversando.
Sussurrando baixinho, porque ele não é dado a alardes.
Há tempos vem tentando chegar perto.
O silêncio é um sábio conselheiro. Tem me dito tantas coisas.
A gente se encontrou frente ao mar, chegou de mansinho e me encarou.
Desses encontros que o acaso gosta de marcar.
Não pude desviar.
Nos conhecíamos de vista, mas nunca quis me aproximar.
Quanto notei, já estávamos trocando confidências e perdemos a hora.
A paz que me trouxe foi tanta que não consegui dizer adeus.
Despretensiosamente convidei pra vir comigo, e não é que ele aceitou?
Hoje o silêncio me faz companhia, me afaga e acarinha.
A gente tem se entendido.
Desde que ele chegou não tenho mais andado sozinha.

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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Conhece-te a ti mesmo e torna- te quem tu és



A música diz que a gente mal nasce e já começa a morrer. Sim, é verdade. Mas também é verdade que a cada dia renascemos. A todo momento células morrem e outras nascem. Tal qual Fênix, ressurgimos das cinzas de nós mesmos a cada golpe fatal que a vida nos dá.

Nem sei quantas vezes morri e renasci. Me reconstruí. Uma época pensei que as quedas eram atos falhos e tornei mais atenta no caminhar. Ingênua, não sabia que o caminho seria sempre assim, sinuoso, minado e escorregadio, mas, apesar de tudo, com lindas paisagens para contemplar. Lembro da lição do meu pai, ao dizer que não dava um próximo passo sem garantir que iria apoiar o pé em uma pedra bem alicerçada. Nunca tive essa certeza nos meus passos.

Desde cedo indagava sobre meus atos. Me apaixonei aos 6 anos, ele tinha 11. Na primeira discussão de relacionamento recebi um ultimato: só namoraria comigo se entregasse meu bico para o papai Noel. Na hora falei que sim, afinal estava apaixonada, mas após duas noites sem o bico rosa e furado vi que não estava pronta para dar o próximo passo.

Por essa idade também experimentei uma crise existencial: ir para a escola. Fui resistente, não gostava da hierarquia na hora de formar a fila pra entrar na sala de aula, nem de fazer teatrinho da família urso. Logo aprendi uma artimanha para fugir a encenação: ser narradora. Sempre me oferecia para ser narradora das histórias, assim participava sem ter que brincar igual criancinha. Virei narradora oficial até o fim dos meus dias escolares.

Mas essa sensação de não fazer parte do contexto sempre esteve latente. Acho que fui uma criança subversiva, frequentemente dava um jeito de escapar da aula de massinha de modelar. Dizia para a professora que estava com dor de barriga e iria para casa (que ficava do outro lado da rua), mas ao invés disso, me escorava em uma árvore do terreno baldio aos fundos com meia duzia de gibis de história em quadrinhos e ali ficava até bater o sinal e chegar em casa para o almoço. Depois de um tempo e muita conversa com meus pais aprendi a andar na linha, ou disfarçar bem. Ia para a escola todos os dias, obedecia aos professores, fazia todos os trabalhos de educação artística e tinha muitos amiguinhos.

E assim foi. Muitos amigos mas poucos confidentes. Raras pessoas conseguiram alcançar meu entendimento sobre as coisas. Não que eu estivesse além, só era diferente. Por vezes queria olhar uma pedra e ver só uma pedra. Não pensar em como ela foi parar ali. Se há aranha ou formiga embaixo dela. Se ela é gelada ou eu que sou quente, se quem é mais forte: a pedra ou a água ou então questionar a origem etimológica da pedra.

Até que um namorado me apresentou ao Nietzsche e Fernando Pessoa. Depois conheci Kafka, Sartre, Clarice Lispector, Oscar Wilde, Schopenhauer e meu círculo de amizade se estendeu. Senti pela primeira vez o que era estar em catarse. Quando os lia, era como se estivessem traduzindo minha alma. Senti, finalmente, comunhão com alguma coisa. Descobri que simplesmente sou existencialista, o que me faz estar em consonância com o mundo, sensível aos meus sentimentos e ao do outro. Atenta aos agitos internos e inconformada com a forma rasa de compreensão da vida. Nessa andança encontrei tantos outros como eu. Finalmente tinha achado minha tribo, apesar de não pertencer a nenhum rebanho.

Por vezes pensei em ser mais reativa, menos reflexiva. É impossível não pensar, porém isso não impede de viver. Com o tempo aprendi a ver beleza e felicidade nas coisas cotidianas e deixei de esperar uma data especial para abrir a última garrafa do meu melhor vinho. Parafraseando Oscar Wilde, as coisas simples são o último refúgio para um espírito complexo.

Desde então venho buscando me encontrar, achar um lugar tranquilo e confortável dentro da minha complexidade que torne equilibrada a existência. Meditação; corrida e natação; yoga e música; escrita e fotografia. Silêncio e falas; troca de ideias e afeto; contato com a dor e o amor do outro. Descobri que ser diferente me tornou igual a todos.

Buscar a si mesmo é uma tarefa que ganhamos logo que nascemos. Talvez seja o motivo para estarmos aqui, um cálculo complexo que não conseguiremos jamais tirar a prova real. Onde a busca pela resposta é a própria resposta. E assim vem a real felicidade. Ter lucidez, dar -se ao direito de sentir tudo o que a carne permite e o espirito comporta, não fugir da dor nem do prazer e pouco ligar para o que disserem sobre você.

Libertador é saber a real medida de si mesmo e lembrar sempre que és humano e, por isso, já nasceu perdoado. É nessa hora que deixamos de morrer e começamos a viver.

 
 
 


terça-feira, 17 de junho de 2014

Entre Onze e Trinta e Três



Quando se aproximou meu aniversário de onze anos decidi que queria fazer um galeto para comemorar. Isso significava um marco na minha vida. Era o fim do balão surpresa, doces e música do Trem da Alegria. Foi uma decisão bem pensada, já que seria um divisor de águas: deixaria de ser criança e estaria me tornando adulta, ao menos era essa a conotação que um aniversário sem balão e gelatina colorida tinha para mim.

Depois de conversar com a mãe sobre meu novo contexto existencial, baseando a tese no fato de eu não chupar mais bico desde os nove anos e já estar “mocinha”, comecei a organizar a festa de transição da infância para o mundo dos adultos. Fiz o convite para o almoço/balada apenas para os amigos que eram jovens adultos como eu e preparei o grande dia.  O pai era o assador, irmão o deejay e a pista de dança foi montada na garagem de casa com as luzes forradas com papel celofane para garantir o clima intimista.

Pois bem, a hora do almoço foi chegando e meus amigos não vieram, só estava meia dúzia de agregados da família, vizinhos e amigos dos meus irmãos. A festa foi um tremendo desastre!  Nessa hora fui apresentada ao mundo cruel dos adultos. Dias depois fiquei sabendo que meus coleguinhas não tinham entendido que era uma festa, porque quando convidei falei que era  almoço e não aniversário. Nessa hora percebi que estava lidando com crianças e não com jovens adultos como eu...

Os anos se passaram e perdi o hábito de festejar meu aniversário, até que este ano, sob pressão de algumas amigas decidi juntar o pessoal. Reservei camarote, showzinho de rock, lugar legal e tal. Convidei os amigos mais chegados - que confirmaram a presença - e fui festejar a idade de Cristo. Eis que novamente quase perco minha festa por W.O., meus amigos deram no show... alguns chegaram cedo e logo foram para um  show de pagode, outros chegaram na prorrogação do segundo tempo, sem contar naqueles que já tinham outro aniversário programado há mais tempo e nem entraram na lista VIP.

Essa história teria tom dramático se eu tivesse onze anos, mas com trinta e três... ah, nessa idade não precisamos mais de provas de amor, precisamos sim do mais autentico e sincero amor. Se meus amigos curtem certa banda de pagode, se outros chegaram tarde, atrasou a apresentação dos filhos na festa junina ou  tiveram outro compromisso, algum imprevisto ou se brigaram com o namorado, o que importa?  Sou adepta de cargas emocionais leves, pois de pesados já bastam os encargos da vida. Meus amigos agiram assim simplesmente por um motivo: eu os deixo livres. Livres para ir, vir, ficar ou sair. E a consciência disso lhes dão liberdade para serem o que são. É por isso que são meus amigos, por se mostrarem pra mim sem máscaras ou subterfúgios.

 Não quero visita protocolar, sorriso falso ou presença inanimada numa mesa de bar. Gosto de amizades vivas e latentes. Quero a autêntica presença de quem amo, amizade com cabresto não está entre as minhas preferências. Talvez essa seja a base para os relacionamentos sadios e duradouros.  Sou adepta daquele velho ditado: se amas, deixe livre... a pior coisa é o afeto forçado, sorriso amarelo e  uma “pseudo-companhia”.  O mundo está cheio falsidade, carne processada, pedras preciosas sintéticas, cerejas falsas feitas de chuchu, unhas de acrílico, couro ecológico e por aí vai... então se a cor dos olhos for falsa, que pelo menos o olhar seja verdadeiro. Por isso gosto dos meus amigos justamente como são, sem máscaras, de cara limpa e alma exposta.

Vou me sentir extremamente decepcionada se faltar alento nas horas de dor, se não houver alguém para arrumar meu véu na hora de entrar na igreja (sim, ainda quero isso...), se não tiver em quem apoiar quando meu mundo cair, rir quando eu contar desajeitadamente uma piada,  ou quando não tiver ninguém pra revisar um texto que escrevi as cinco da manhã. E quanto a isso, sei que faltam dedos nas mãos para contar quantas pessoas estão no plantão 24 horas para me socorrer.

Talvez seja isso, a certeza de ser amada e querida não deixa margem para insegurança e melindres.

Chega uma hora em que não somatizamos nem catalisamos dores desnecessárias pois, por mais largos que os ombros se tornem com os percalços da vida, a gente aprende que boa parte  da bagagem é descartável . E isso faz toda a diferença.

E qual o final da história? Com a ausência de tantos na festa, pude dar mais atenção a um novo amigo e encher minha agenda das próximas semanas com cafés, almoço e happy hour com aqueles que querem me entregar o presente ou dar um abraço atrasado. Ou seja: multipliquei minha festa!

A felicidade vem justamente quando aprendemos a guardar os dramas, medos e máscaras nas prateleiras do quartinho dos fundos e vamos viver, sem a obrigação de que saia tudo conforme o planejado, pois o melhor da vida acontece no improviso.


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sexta-feira, 21 de março de 2014

Paralelas



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Ontem fiquei maquinando nessa cabecinha loira.... às vezes faço umas conexões mentais meio loucas, mas que me fazem todo sentido.

Sempre fui péssima nas ciências exatas. Nunca entendi a cadeia de carbono, nem matrizes, amperagem. O que salvava eram as matérias em que eu podia fazer alguma abstração ou link com algo que fizesse sentido, tipo... trigonometria, geometria, cinemática, soluções químicas.

Fui premiada numa feira escolar de matemática (matemática!) quando apresentei um trabalho só com origami. Origami é trigonometria pura! É assim que eu vou aprendendo...

Sempre tive certeza que as exatas nada me acrescentariam na vida. Achava muita inutilidade, mas o curioso é que dali tirei vários aprendizados que carrego e, não raro, uso no dia a dia, como a força elástica nos relacionamentos, Leis de Newton: ação e reação das palavras ditas, a  inércia da zona de conforto, também têm os  fatos cartesianos, axiomas, incógnitas...

Para mim essas aulas eram pura filosofia. O efeito propulsor da mola, aquela que tem no fundo do poço, sabe? E a onda senoidal... já viu uma? O gráfico de uma senoide é tão esclarecedor para entender as fases da vida... às vezes por cima, outras por baixo...  opõe à linearidade.

Queria tanto que minha vida fosse um trajeto com velocidade média linear... ou apenas com algumas curvas adjacentes, mas  sou feita de nitroglicerina pura. Dizem que a principal característica da nitroglicerina é a instabilidade.

Minha terapeuta diz que sou normal, então nem vou registrar que queria ser calminha e previsível como uma molécula de H2O, que se mistura calmamente com quase tudo sem causar estrago e quando não se mistura, também não se contamina.

Pois é, parafraseando Clarice Lispector, com a devida licença poética, que dizia " eu sou um mistério pra mim", aqui digo... sou uma incógnita pra mim.

Mas tudo isso pra dizer que ontem, conversando com uma amiga, tive um insight, e lembrei das retas paralelas.

Minha amiga tem um amigo virtual. Mas não é qualquer amigo... se conhecem há 10 anos. Ela mora em Porto Alegre e ele no Acre. Nunca se encontraram, sem facebook, skype, muito menos whatsapp. Nunca trocaram telefones. Suas conversas são apenas por e-mail. E falam sobre tudo, acompanham a vida um do outro, passaram por casamento, separação, filhos, mortes de familiares... são confidentes.

 Achei tudo tão louco... questionei a ela se não tinha curiosidade, vontade de se conhecerem. Ela respondeu que não, que até gostaria de abraçá-lo, mas que essa forma de contato está ótima. Arrumaram um jeito que ambos se sentem confortáveis. Disse que se houvesse maior contato, não teriam tanta franqueza entre eles e essa amizade é, por vezes, libertadora para ela.

Foi aí que lembrei da lição  sobre as retas paralelas, que  até então não tinha entendido direito. Veio à mente o professor explicando: "paralelas são duas linhas que andam juntas, sem se tocar, apenas se cruzam no infinito." Quando ele terminou a frase minha cabeça deu um nó e fiquei sem entender bulhufas... até que passado um tempo, desisti de entender e se tornou um axioma. É assim, porque é assim. E deu.

Isso até a noite de ontem. Consegui ver claramente. Esses amigos são como duas paralelas... andam juntos, sem se tocar, mas não se afastam. E, quem sabe, se cruzarão no infinito. Porém essa teoria, de que as paralelas se cruzam no infinito, não é absoluta. Aliás, nada é absoluto nessa vida. Nem minhas análises, nem as teorias, nem os axiomas. Sempre há novas teses sendo testadas, saindo vencidas ou vitoriosas.

Mas essa história das paralelas fez pensar nos relacionamentos em geral. Transportando o conceito da área das exatas para as humanas, a qual entendo bem. É interessante um relacionamento amoroso se composto por paralelas, onde coexistam duas pessoas sem que alterem sua forma, compasso, independência e individualidade, mas se cruzem, porém antes do infinito, porque o infinito é longe demais... Elas podem se cruzar agora, depois e várias vezes mais, numa doce alquimia.

Pois é, talvez esse conceito já exista e eu nem saiba. Enfim... têm lições que demoramos a aprender, mas quando aprendemos, fazem todo o sentido.


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foto: google