segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Moça do Sonho

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Tocou uma música no carro. Minha amiga suspirou, como quem sente saudade de um amor antigo... a gente reconhece um suspiro apaixonado.
Olhei enviesado, como quem desconfia. Quem é a vítima? Ela se entregou, ficou vermelha de vergonha, desviou o olhar.
Eu estava curiosa para saber quem tinha fisgado o coração dela. Minha amiga é do tipo que eu chamo de “sem sentimentos” menores, nada melodramática. Eu sou passional, não sou dada a amores velados ou silenciosos. Me declaro, choro, amo intensamente... ela não. Até hoje não sei se  já amou de verdade, nem ela sabe...
Minha amiga que tira minhas ilusões. Quando eu estou perdidinha, voando alto, corta as minhas asas e me põe no mundo real. Ela é a rainha das obviedades que eu passo longe... mas não dá moral de cuecas, sempre foi muito sensata.
Amiga de longa data... daquelas que é bom manter para sempre, arquivo vivo. Amizade que não cresce, que já nasceu grande. Que quando está carente, liga só pra dizer que te ama. Fui eu quem ligou para avisar que o nome dela estava no listão, ela que me ligou pra dizer que ouviu meu nome na rádio quando divulgaram os aprovados no vestibular. Liga quando está feliz, triste, com prisão de ventre, com dor de cotovelo, quando morreu a avó... de fazer excursão à sexshop, que conhece as tuas fraquezas e nunca usa isso como arma.
E ela se apaixonou e não me disse! Pior que traição... Insisti e ela revelou, receosa da minha reação... tinha se apaixonado pelo Chico Buarque.
Respirei fundo, segurei o riso. Não podia ridicularizar um sentimento tão forte. Eu sabia que era sério. Sei que ela tem bom gosto, foi quem me apresentou aos Mutantes, Secos e Molhados, Elis... Mas apaixonada pelo Chico! Nunca viu ele...
Ela confessou... o romance se deu em 2008, durou 3 meses. Aconteceu depois de um sonho.
E eu que esperava um sonho erótico me deparei com um sonho singelo, puro e curto... Assim como alguns amores, de fato.
Foi num encontro, na praia. Ele foi muito carinhoso e atencioso. Houve só um leve toque nas mãos... toque que ficou eternizado em sua memória.. Alguns segundos imaginários que foram muito mais concretos e real do que algumas relações efêmeras e superficiais que passam pela nossa vida. Não houve juras de amor, trocas de beijos, mas ela acordou com taquicardia.
Passou três meses com o Chico. Dormia ouvindo Beatriz, acordava com Cotidiano.
É, minha amiga talvez não saiba, mas já amou. Amou como talvez eu nunca tenha amado. Ousou amar o impossível de se ter, amou de forma tão pura e admirável que eu me pego querendo amar assim. E Chico, com certeza, amaria seu amor.
Ela não sabe, talvez nem ele, mas esse amor foi recíproco. Acredito ser ela a tal "Moça do Sonho".
Agora ele achou o sonho extraviado. Quem sabe vasculhando bem o tal bazar, eu tenha a sorte de achar um também...

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó´


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais... ”


A Moça do Sonho, Chico Buarque

*

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Coração Exposto


*


Têm dias em que eu acordo querendo amar.
Dias cheios de segundas intenções.
Acordo com o coração exposto.
Dias sensíveis. De poucas palavras.
Em que prefiro ficar só.
Dias em que tenho medo de estranhos.
Fico envolta com meus sentimentos,
Apaziguando as lembranças distantes, as latentes e as que virão.
Nesses dias vou à livraria,
Encho a vida de prefácios, de amores de outros, de experiências efêmeras.
Ouço algumas vezes uma música que toca minha alma.
Escuto uma tragédia alheia.
Vou ao espelho e me encaro de forma fixa e verdadeira.
Gosto do que eu vejo
Encontro o que procuro noutro.
Travo um intenso silencioso diálogo.
Sem máscaras, subterfúgios ou falsidade.
Sorrio para mim mesma
Faço as pazes com os sentimentos,
Coloco meu coração para dormir.
Aconchego ele no meu peito, sinto se acalmar com a minha respiração.
Encontro, finalmente, o amor em mim.



*