quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sobre cotidiano e o tempo








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Quando tocou o despertador implorei por mais alguns minutos. Rolando na cama lembrei do desastre que tinha feito na noite anterior. Estava revoltada com as pontas secas do cabelo e resolvi eu mesma cortar. Óbvio que não deu certo. Levantei da cama e caí no chuveiro. Mal me olhei no espelho. Fiz o ritual diário para sair de casa, amarrei os cabelos e fui ganhar o mundo.

Cheguei no trabalho e dei uma olhada na agenda para ver algum horário livre para ir ao cabeleireiro arrumar o estrago. Notei que nessa semana não conseguiria ir, com muito custo encaixei a manicure às 8 horas da manhã seguinte.  Peguei um café e mergulhei no processo penal (que nunca foi meu forte).  Precisava destrinchar um parecer que estou fazendo há dias. Sabia que o dia seria curto porque no meio da tarde tinha consulta com a oftalmologista e não podia adiar. Meus olhos andam enxergando mal. Depois da consulta iria para a corrida, passar no supermercado e, por fim, passear com meu cachorro.

O trabalho estava fluindo e resolvi enforcar o horário do almoço. Eis que recebo uma ligação. Precisava redigir urgente um importante documento e levá-lo em mãos ao destinatário. Larguei o processo penal e mergulhei na legislação administrativa. Descubro que a rede de internet caiu sem previsão para voltar. Me virei com o que tinha em  mãos e às 14:30 hs o documento estava pronto.  Corri para entregá-lo ao destinatário que, por sorte, encontrei com rapidez. Tarefa cumprida com folga de uma hora até a consulta.

Sem titubear entrei no primeiro salão de beleza que vi no caminho. Falei para a cabeleireira que ela tinha 40 minutos para devolver a dignidade aos meus cabelos. Enquanto a moça lavava minhas madeixas pensei sobre a correria louca do dia-a-dia, pela qual a maioria de nós passamos. Eu gosto desse agito, de sempre ter algo a fazer, desafios a vencer. É o mundo em movimento. Mas às vezes o relógio se torna um algoz, colocando em eclipse o sol  da nossa vida. Nessas horas queria me teletransportar para qualquer lugar com baixa densidade demográfica, temperatura amena  e pouco ruído onde pudesse descansar os olhos em alguma bela paisagem.

De cabelo cortado fui na médica. Saí de lá com mais 0,25 grau de astigmatismo e uma receita para um novo óculos. Fui direto na ótica, que fica na rua mais movimentada da cidade. Fiquei meio perdida porque não encontrei a loja. Até que concluí que ela havia fechado. Decidi ir em outra loja perto da minha casa. Dei dois passos e ouvi uma voz cantando:  “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para...”   A música certa, na hora certa.

Por um momento pensei em ir atrás da voz que cantava, mas lembrei que tinha mais tarefas a cumprir. Dei dois passos adiante, mas a música já estava dentro de mim... “enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso faço hora, vou valsa. A vida é tão rara...”. Dei meia volta e fui ao encontro do bálsamo da vida. Músicas sempre me salvam. A meia quadra dali encontrei um rapaz cantando entre a  confusão de gente. Parei para respirar a vida por alguns minutos.

Na primeira música  tive vontade de correr como Forrest.  Então começou a cantar a segunda: “ Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais...”. Nessa hora meu coração inundou  e tive vontade de chorar. E veio a terceira: "Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo...” Daí simplesmente agradeci por existir.

Pensei em filmar a cena para compartilhar com meus amigos. Mas desisti. Deixei o celular na bolsa, fechei os olhos e flutuei. O relógio não existia mais, me permiti por alguns instantes viver a plenitude da existência. Depois de umas quatro ou cinco músicas a noite caiu e o som do helicóptero da polícia sobrevoando despertou a todos. Lembrei que estou nos dias nebulosos de Florianópolis. Pedi para uma menina que filmou as músicas me enviasse os vídeos e, agradecida por aquele momento, fui embora.

Consegui pegar a outra ótica aberta e encomendei as novas lentes. Cheguei em casa  com plano de seguir o previsto na agenda. Ia por rapidamente o tênis para correr, mas encontrei meu cachorro destilando amor. Desisti da corrida e presentei o Smart com um longo passeio pelo bairro. Sempre fui adepta da corrente do bem. Há uma frase clássica de um dos meus filmes preferidos em que o protagonista, após viver voluntariamente a experiência da extrema solidão, diz : “ a felicidade só é verdadeira quando compartilhada." Decidi  compartilhar e multiplicar com meu cachorro a felicidade que sentia.

Na volta, de alma leve, fui ao banheiro tirar a maquiagem. Olhei para o lado e lembrei que tenho uma deliciosa banheira na minha casa, que só usei uma vez esse ano  quando queimou o chuveiro. Deixei  ela encher. Peguei minhas músicas preferidas, me despi e entrei na banheira. Então percebi como é fácil fazer o tempo parar.


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Um comentário:

Nelma disse...

Muito bom, vc é um espetáculo. Ler o que vc escreve me faz imaginar a cena é quase palpável...simplesmente uma leitura envolvente... parabéns!!! tua dinda!!!