**
Lembro quando vi meu primeiro cabelo branco. Já tinha 37 anos, mas foi um choque. Jamais imaginei que teria aquela reação. Sentei com o fio na mão e chorei. Na verdade nunca imaginei que fosse ter cabelos brancos. Senti pela primeira vez no corpo o sinal da minha finitude. Dramática, pensei: estou morrendo!
É curioso porque começamos a morrer assim que nascemos. Sempre digo que a morte acompanha a vida e ela que lhe dá sentido. Sem a morte a vida teria outro sabor. Cada dia seria só mais um dia, talvez a existência fosse um extenuante ritual entre acordar e dormir. Fazemos planos, prazos, traçamos metas, sonhos porque sabemos da escassez do tempo.
Por que estou escrevendo isso? Hoje ao escovar os dentes vi um cabelo branco. Mas dessa vez o contemplei. Ao me olhar no espelho lembrei que estamos todos sentados na beira da cama olhando para o fio de cabelo branco na mão. O COVID-19 nos levou para próximos da cova, lembramos que tem uma nos esperando. Essa proximidade com ela fez com que batesse um desespero. Ninguém quer morrer, todos se protegem.
Pois bem, tenho uma boa e uma má notícia:
A má é que o COVID-19 vai mostrar para muitos que eles já estão mortos e não se deram conta. Vivem sem sonhos, andam sem abrirem os olhos, comem sem saborear. Estão algemados na rotina, casados com pessoas que não existem mais. A esposa mudou e você não aceitou deixar ela ir, o filho ficou adulto mas continua dormindo no quarto do adolescente que não existe mais, o emprego é um covil que o COVID-19 te libertou. Tu não és mais o mesmo da foto da identidade. Morremos todos, ou quase.
Essa prisão em que estamos não há habeas corpus que liberte. Antes não tínhamos tempo para ver o quão enclausurados estávamos em celas que nos colocamos por cada escolha que fizemos movida pelo medo, covardia ou insegurança e não tivemos coragem de mudar, seja por orgulho, seja por conveniência emocional ou financeira. Olhamos para os lados e vemos a quem estamos presos e onde é nossa prisão.
Tu, se pudesses escolher um lugar e companhia para se confinar seria com quem te cerca e no lugar o qual habitas? Somos presos as nossas escolhas. Sejam as que nos trazem alegria ou não. O COVID-19 deu liberdade temporária de coisas que muitos diziam que os prendiam mas que, talvez, não suportem viver sem.
A boa notícia? Você não está preso a nada e nem ninguém. Essa pandemia vai passar, a cada um só cabe se proteger e orar. Quando sair da quarentena vais perceber que única prisão que te mantém encarcerado é alma presa ao local que habita: o corpo. E a liberdade está na consciência. Seja em casa, no bar ou na beira da praia, teu corpo será sempre teu lar e a consciência tua companheira.
Aproveite esse tempo precioso e único para conhecer bem tua morada, seja um bom síndico desse condomínio. Faça as pazes com a vizinhança. E se não estás satisfeito com ela, aproveite para encaixotar a mudança. Talvez o COVID-19 esteja batendo na porta para te despertar do coma profundo e devolver a completude que comporta cada respiração que a vida te presenteia .
sábado, 28 de março de 2020
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
As voltas que a vida dá
**
Em uma conversa com amigos ouvi
algo que me pôs a pensar. Um deles falou sobre as voltas da vida. Todos já
conhecemos os motes: a vida dá voltas, o fulano vive em volta do próprio
umbigo, minha cabeça está dando voltas, e por aí vai... De fato, a vida dá
voltas. Assim como a Terra, onde os ciclos são marcados pelas voltas em torno
do sol, da lua, de seu próprio eixo. Talvez caiba a analogia entre as voltas
que damos na a sociedade, na nossa família e em nós mesmos. Sim! A vida é feita
de voltas. Pensa comigo sobre seus dias. Desde que acorda até a hora de dormir,
quantas voltas você dá? Volta entre o quarto e o espelho do banheiro, volta da
casa até a padaria, ao trabalho, da sua mesa à sala do chefe, da firma até o
restaurante, do final do expediente até a academia, à escola do filho, depois
ao mercado, voltas entre a geladeira e o sofá... entre o escovar dos dentes ao
deitar na cama.
A vida é feita nessas voltas que
repetimos todos os dias como um mantra. Dar bom dia ao porteiro, a moeda para o
flanelinha, esquentar a marmita... aí é que a vida habita. É esse interregno de
tempo que come os dias ou os alimenta. Isso é você quem deve saber. Como fala a
linda música “contigo’’ do Joaquim Sabina... yo no quiero comerme una manzana
dos veces por semana sin ganas de comer. Não engulo mais nada que não quero.
Posso não gostar de algo e comer pois aceito a necessidade e passo a gostar.
Por isso todo dia no café tomo suco verde. A vida é reiterar, é depurar o
paladar. Há voltas chatas que é preciso sempre percorrer. Um casamento onde ainda
há amor, deve voltar, mas tirar a erva daninha do caminho e fazer uma nova
plantação. A academia é um saco, mas você pode pedalar ou aprender a nadar. O
emprego é uma prisão, mas lembra que nas suas leis não há pena perpétua. Há
voltas que devemos mudar.
Você detesta o trabalho, mas
sempre volta. Odeia academia, mas três vezes por semana está lá. O casamento
está uma guerra, mas você se deita com quem tem o outro par da aliança e muitas
vezes diz que é por causa das crianças...
Seu corpo se nutre do que você escolhe pegar no mercado entre a
prateleira e o caixa e no abrir e fechar da geladeira. Na zona de conforto
moram muitas voltas que são ciclos viciosos e, na vã tentativa fugir, nos
embriagamos numa inconsciente sabotagem. Uns passam horas em frente à TV,
outros comem até se empanturrar. É trabalhar sem parar, cuidar dos filhos sem
se cuidar, todo dia passar no bar, malhar, malhar, malhar, é também se isolar
ou nunca se envolver... os excessos são tentativas de fugas de algum lugar que
não queremos voltar. Porém, a prisão sempre nos acompanha, ela está na mente e
o cadeado da cela está aberto, mas é difícil enxergar. Muitos têm medo de sair
do lugar.
O milagre da vida acontece na saída pela
tangente. É impulso, não frear nem encurvar. É fazer um novo caminho arrancando
à força a cerca que te prende e deixa sua existência nanica como um bonsai. Ninguém
é um hamster fadado a passar a vida na gaiola, gastando energia naquela rodinha
infame. Vivemos acorrentados, porém, a prisão
está na mente e o cadeado da cela está aberto. A vida é caminho entre o alvo e
a seta, você só precisa decidir onde quer chegar. Te digo com toda propriedade,
essa resposta está no curto trajeto entre o espelho e o seu olhar. Mire nesse
alvo e saia da curva. Tome
coragem chame a vida para dançar. Há quantos anos você não dá uma cambalhota na
cama antes de deitar?
Obs.: Como tema de casa, para
quem gostou do texto, recomendo fortemente que escutem a música “Quem me leva
meus fantasmas” do poeta português Pedro Abrunhosa na voz da Betânia. Foi a
trilha sonora para escrever essa crônica.
segunda-feira, 22 de abril de 2019
Dia de Índio
Hoje é o dia do índio. Data controvertida pois, eu e muitos, achamos que não deve ter uma data para comemorar a existência do índio. Creio que seja um dia para refletir sobre a cultura indígena, sobre o que fizemos com eles, sobre onde estão eles no nosso País.
Curiosamente estou lendo o livro Emprega-dor: a participação da classe dominante na construção do Direito do Trabalho no Brasil - uma história forjada com alienação, estranhamento e ideologia, do amigo Almiro Eduardo de Almeida que analisa, entre outras coisas, a história das relações do trabalho no país.
Me deparei com uma parte em que ele fala sobre a inclusão do índio como "trabalhador" na fase primitiva da economia brasileira.
De fato, ali havia muito trabalha-dor. A dor do abuso, do roubo, da exploração, do egoísmo, da ganância, da expulsão e da dominação.
Ele cita uma frase de um vice rei do México que costumava dizer que "não havia melhor remédio que o trabalho nas minas para curar a maldade natural dos índios".
Já no Paraguai, uma pesquisa apontou que a cada 10 paraguaios, oito acreditavam que os índios eram como animais, sendo que a maioria dos latinos tem sangue indígena. Eu já sabia, pois minha avó paterna era indígena.
Em um exame genético feito pelo meu irmão em uma pesquisa na UFRGS, mostrou que temos 17% dessa linda linhagem no sangue. Na verdade, todo brasileiro é indio, se não no sangue, na cultura a qual fomos forjados.
No Brasil sabemos do escambo, como foram explorados e enganados os verdadeiros donos dessa Terra. Como diz a música da Baby Consuelo:
Antes que os homens aqui pisassem nas ricas e férteis
Terraes Brasilis
Que eram povoadas e amadas por milhões de índios
Reais donos felizes da terra do pau Brazil
Pois todo dia e toda hora era dia de índio
Mas agora eles tem só um dia
Um dia dezenove de abril
Amantes da pureza e da natureza
Eles são de verdade incapazes
De maltratarem as fêmeas
Ou de poluir o rio, o céu e o mar
Protegendo o equilíbrio ecológico
Da terra, fauna e flora pois na sua historia
O índio é exemplo mais puro
Mais perfeito mais belo
Junto da harmonia da fraternidade
E da alegria, da alegria de viver
Da alegria de amar
Mas no entanto agora
O seu canto de guerra
É um choro de uma raça inocente
Que já foi muito contente.
Pra mim, hoje não é dia de pintar a cara e tirar foto usando cocar. Hoje é dia de parar para pensar, silenciar, aprender a respeitar, ver o que podemos fazer para mudar essa imagem tão caricata, tratada na maioria das vezes de forma burlesca e desrespeitosa.
Precisamos erradicar as injustiças e preconceitos. Precisamos, definitivamente, sair do discurso e fazer com que todos os dias sejam de índio!
... e de homem, de mulher, de negros, de brancos, de pardos, de pobre, de rico, de deficiente, de homossexual, de idoso e de criança...
Todo dia tem que ser dia de gente, todas elas.
Curiosamente estou lendo o livro Emprega-dor: a participação da classe dominante na construção do Direito do Trabalho no Brasil - uma história forjada com alienação, estranhamento e ideologia, do amigo Almiro Eduardo de Almeida que analisa, entre outras coisas, a história das relações do trabalho no país.
Me deparei com uma parte em que ele fala sobre a inclusão do índio como "trabalhador" na fase primitiva da economia brasileira.
De fato, ali havia muito trabalha-dor. A dor do abuso, do roubo, da exploração, do egoísmo, da ganância, da expulsão e da dominação.
Ele cita uma frase de um vice rei do México que costumava dizer que "não havia melhor remédio que o trabalho nas minas para curar a maldade natural dos índios".
Já no Paraguai, uma pesquisa apontou que a cada 10 paraguaios, oito acreditavam que os índios eram como animais, sendo que a maioria dos latinos tem sangue indígena. Eu já sabia, pois minha avó paterna era indígena.
Em um exame genético feito pelo meu irmão em uma pesquisa na UFRGS, mostrou que temos 17% dessa linda linhagem no sangue. Na verdade, todo brasileiro é indio, se não no sangue, na cultura a qual fomos forjados.
No Brasil sabemos do escambo, como foram explorados e enganados os verdadeiros donos dessa Terra. Como diz a música da Baby Consuelo:
Antes que os homens aqui pisassem nas ricas e férteis
Terraes Brasilis
Que eram povoadas e amadas por milhões de índios
Reais donos felizes da terra do pau Brazil
Pois todo dia e toda hora era dia de índio
Mas agora eles tem só um dia
Um dia dezenove de abril
Amantes da pureza e da natureza
Eles são de verdade incapazes
De maltratarem as fêmeas
Ou de poluir o rio, o céu e o mar
Protegendo o equilíbrio ecológico
Da terra, fauna e flora pois na sua historia
O índio é exemplo mais puro
Mais perfeito mais belo
Junto da harmonia da fraternidade
E da alegria, da alegria de viver
Da alegria de amar
Mas no entanto agora
O seu canto de guerra
É um choro de uma raça inocente
Que já foi muito contente.
Pra mim, hoje não é dia de pintar a cara e tirar foto usando cocar. Hoje é dia de parar para pensar, silenciar, aprender a respeitar, ver o que podemos fazer para mudar essa imagem tão caricata, tratada na maioria das vezes de forma burlesca e desrespeitosa.
Precisamos erradicar as injustiças e preconceitos. Precisamos, definitivamente, sair do discurso e fazer com que todos os dias sejam de índio!
... e de homem, de mulher, de negros, de brancos, de pardos, de pobre, de rico, de deficiente, de homossexual, de idoso e de criança...
Todo dia tem que ser dia de gente, todas elas.
sexta-feira, 12 de abril de 2019
Oitenta Tiros
Hoje a insônia me
acordou às 3 da manhã. Um amigo disse que nessa hora muita gente acorda,
despertadas pelos anjos, para que, em silêncio, orem pela humanidade, como uma
egrégora em busca de paz e acalento. Esse mesmo amigo sempre diz que o faço
lembrar da Clarice Lispector. Não no brilhantismo com as palavras, mas na
visceralidade da existência.
Não fiz a oração, mas
resolvi rever a última entrevista da Clarice Lispector. A entrevista mais
verdadeira e intensa que já assisti. Vinte e três minutos de alma exposta frente às
câmeras com uma intimidade que o big
brother jamais alcançou.
Em determinado
momento é perguntado a ela qual, dentre seus trabalhos, seria o seu ‘’filho’’
predileto, por qual teria mais carinho. Ela responde que é o conto chamado “Mineirinho”.
Ele fala sobre um bandido que, por suas palavras, morreu com treze balas, quando
uma só bastava. Nesse conto descreve sobre o que sente a cada tiro.
Na entrevista ela diz
‘’ Eu me transformei no Mineirinho, massacrado pela polícia. Qualquer que
tivesse sido o crime dele uma bala bastava, o resto era vontade de matar. Era
prepotência’’.
Por fim, lhe foi
perguntado em que medida essa crônica poderia mudar a ordem das coisas. Ela responde
que não altera em nada e que escreve sem esperança que altere qualquer coisa.
Obviamente lembrei do
Evaldo dos Santos Rosa e os 80 tiros que o mataram. O que diria Clarice ao saber
dessa barbárie? Se com 13 ela morreu, com 80 o que lhe sobraria? Nem ladrão ele era. E
mesmo que fosse, uma bala só bastava.
Os oitenta tiros não mataram Clarice, ela já está
morta. Morreu 10 meses após a entrevista. Aliás, na mesma entrevista, ao final,
diz também estar morta em vida, o que acontecia ao fim de cada obra, que
eram seus hiatos. E assim como ela, os 80 tiros fuzilaram o Brasil inteiro, estamos
todos mortos.
Morreu a nossa tão cansada crença na segurança, na
justiça, no Estado, na leveza e alegria
que deveria permear nossos dias.
Como escreve a Clarice sobre Mineirinho:
Esta é a lei.
Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um
alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o
quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o
coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no
décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu
irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu
quero ser o outro.
Essa justiça
que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso
durmo e falsamente me salvo.
Se nenhum desses oitenta tiros te atingiu, então,
desculpe, mas você já está morto e não sabe. E quanto a nós, continuamos. Vivos, mas nem tanto, ainda enlutados
enxugando o pranto dessa morte todos os dias anunciada. Nasci branca, classe
média, letrada. Sei que não foram miradas em mim as armas, mas acertaram em
cheio meu peito.
A crônica foi
publicada em 1978 no livro Para Não Esquecer. Hoje eu escrevo sabendo também
que nada irá mudar, mas com um desejo imenso que futuramente esse episódio tão
triste esteja apenas na lembrança em algum arquivo morto e não revivido nas
capas dos jornais.
domingo, 9 de setembro de 2018
De cujus de mim mesma
* * *
Nem todo suicídio é um execrável ato, muitas vezes é uma ação de
coragem. Processo doloroso onde o auto julgamento leva por punição a pena de morte, sendo uma só pessoa a criminosa, a julgadora, defesa,
o júri e seu carrasco executor da pena.
E sabe o que é mais curioso disso tudo? Há uma
infinidade de pessoas habitando a Terra que estão mortas sem coragem de cometer
o haraquiri.
Óbvio que não falo da morte física, mas da maior de todas as
mortes: a da alma. Mas como poucos prestam atenção em sua existência, as pessoas
andam por aí com corpos enxutos carregando um cadáver dentro, concomitante com
a nova essência que briga por um lugar nesse “latifúndio”. A nova
essência tenta expulsar esse corpo estranho, inerte putrefato.
Esse conflito, essa catarse faz com que muitas vezes tenhamos
atitudes esquisitas, incompatíveis com nosso cerne. Tantas pessoas
irreconhecíveis fazendo uma espécie de exocitose, se deformando para expurgar
esse corpo estranho.
Confesso que me vi assim, me olhando no espelho e não
reconhecendo o reflexo, nem algumas atitudes. Olhava para os lados e não
reconhecia ninguém. Amigos não eram mais amigos, afinidades não existiam mais
entre tantos que antes eram de grande enlace. Atividades, valores, lugares,
gostos, roupas, quadros, músicas. Parei tudo. Fui ver onde estava me perdendo.
Yoga, reiki, meditação, conversas, gritos, silêncios. Parei tudo. Uma grande
briga se travou dentro de mim. Uma faxina geral, uma reforma estrutural,
processo de retirar aquele defunto que me habitava. E lidar com o luto e desapego
de ser grata e deixar ir o que já não mais sou.
Percebi a bagunça que faz ser surdo da própria existência. As
mudanças aconteceram paulatinamente, a pobre alma tentou avisar que estava mudando, mas eu
continuava certa das verdades que construí desde criança, achando que era dona
de mim. Mas, não vi que esse “eu” era o ego surdo, tendencioso e mentiroso
que deixei reinar por muito tempo sem dar um limite. Acabou crescendo igual
criança mimada, ignorante e raso por essência. Arrogante e prepotente que não
pede ajuda, nem conselho, que sai por aí igual “cavalo xucro” dando “coice” e se
machucando. Pior: machucando pessoas no caminho. E o mais curioso, percebi que
desse rebanho que fiz parte por uns bons meses, tem muita gente que conheço e
ele só aumenta.
Creio que essa epidemia de suicídios e depressão são oriundas
desta mesma matriz. Ouça você mesmo, mude de religião, vire vegetariana, deixe de
ser vegetariana, vire ateu, seja lá o que for, aceite escute e aceite o que sua
alma “fala”.
Muitos por vergonha, outros tantos por ignorância ou extremo
apego andam por aí sendo “múmias” de si mesmos. O mais curioso é que todos em volta percebem que
vivemos como avatares. Creio que meu maior erro foi, pior do que não me ouvir,
foi escutar os outros. Todos cheios de opiniões e julgamentos sem de verdade se
preocuparem em fazer com que eu me escutasse. Não é de hoje que dizem que o erro
é uma escola, mas eu diria que os momentos de queda são como máquina de lavar: sacode tudo, lava,
tira a sujeira, te limpa e te devolve todo amassado, mas leve e perfumado. Tira
os falsos amigos, perdoa-te os erros, organiza os pensamentos, devolve-te novinho para
novas lições, para se sujar de novo e começar o novo ano letivo nessa escola
sem fim.
Só sei que consegui enterrar meu cadáver com honras e pompas,
eternamente grata pelo que fui e feliz com a criança serelepe que está
crescendo em mim. Nada de dramas ou ressaca moral. Tenho pedidos de perdão para
quem magoei, devo, principalmente desculpas à minha jovem nova alma que por meses deixei dormir no relento. Mas, agora está
tudo certo, ela está aqui dentro de mim protegida e bem alimentada e sapeca
pulando poças, descalça.
Quanto a você, vasculhe seu terreno e veja se não tem nenhuma parte morta
que anda “fedendo” por aí. Enterre, torne-a adubo e vai cultivar teus novos
sonhos. Da mesma forma como tirar cutícula, cortar unhas, cabelos, a alma também carrega
uma parte morta. Assim como erva daninha, deve ser podada. Não seja um cadáver
ambulante, não seja um blefe. Na verdade é libertador e muito fortalecedor ser
eu de cujus de mim mesma.
quinta-feira, 26 de abril de 2018
Não é o espelho, é você!
**
**
O Mal do Século
O
Mal do Século não é a pobreza, intolerância ou o capitalismo
O
Mal do Século é a autocomiseração
São
pessoas perderem uma vida inteira sentindo pena de si mesmos e pondo a culpa de
suas más escolhas nos outros
O
Mal do Século é a auto-indulgência, onde ninguém não se culpa por ser
estupida, racista, sexista ou maniqueísta
O
Mal do Século não é o ego é o ególotra
O
Mal do Século não é o dinheiro nem a falta dele, é o desperdício
O
Mal do Século não a TV, é mídia sendo usada para gerar ignorância
O
Mal do Século não é a guerra, é o ódio
O
Mal do século não é a peste, é o pesticida
O
Mal do Século não é o narcisismo, é não se olhar no espelho
O
Mal do Século é o mundo, são os mundanos
O
Mal do Século não são eles....
O
Mal do Século somos nós.
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Aurora Tropical
****
Dizem que nos extremos o sol não brilha e a noite se faz perene
No Polo Sul e Norte eles têm pouca sorte
De ver o sol raiar, a tempestade passar e flores em cada canto brotar
Ver o sol de só de passagem no descanso da tela do computador não serve pra mim.
Não nasci para expectador.
Nasci para ser Deusa, dona dos ventos, luz e trevas, disjuntor da minha própria existência
Crio breus, noites escuras na alma, becos sem saídas. Crio paz, luz e amor, tormentas e tormentosos prazeres.
Gosto de brincar de nascer, matar e recriar. Nasci pra ser deus. Nasci para me mandar.
Para me auto pontuar.
Nasci para me queimar, julgar, condenar e perdoar. Nasci para me indultar.
Para me deportar e repatriar, nasci para me governar. Pra me benzer e excomungar. Nasci para me matar, gerar, parir e nutrir.
Nasci para ressurgir.
Nasci assim, para me descrever. Para ser estranha a quase todos e lugar comum para todos que conquistaram e dominaram o vasto horizonte que habita em mim.
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Quando Eu Tinha Dezesseis
**
Quando eu
tinha dezesseis anos achava que a vida era infinita, talvez pelo medo da morte.
Hoje, com
trinta e seis, tenho certeza de que ela é. Mas meu corpo não e que a morte é só
uma ficção e espero por ela, mas que venha em tempo, por hora, distante.
Quando eu
tinha dezesseis não tinha nostalgia.
Agora com
trinta e seis, aprendi que nostalgia é o bem querer do passado repisado.
Quando eu
tinha dezesseis, amava Fito Paez.
Agora com
trinta e seis, também.
Quando eu
tinha dezesseis, achava que meus pais eram imortais.
Hoje com
trinta e seis, um pai com AVC e mãe que superou dois cânceres e uma trombose,
sugo o sumo de suas efêmeras existências terrestres.
Quando eu
tinha dezesseis achava que odiava beterraba.
Hoje, com
trinta e seis, amo o gosto doce desse tubérculo.
Quando eu
tinha dezesseis lia Paulo Coelho e sonhava em fazer o Caminho de Santiago.
Hoje com
trinta e seis, depois de ler Kafka, Sartre, Pessoa, Oscar Wilde , Clarice Nietzsche, e
Bukowski ainda sonho em fazer o Caminho de Santiago.
Quando eu
tinha dezesseis não tinha rugas.
Agora com
trinta e seis, desfilo orgulhosamente pelas ruas com meu bigode chinês.
Quando eu
tinha dezesseis fazia o que desse na telha.
Agora com
trinta e seis, também.
Quando eu
tinha dezesseis, sonhava em ser presa numa solitária com um violão onde tocaria
lindas canções do Legião.
Hoje com
trinta e seis, depois de tentar aprender, descobri que tocar violão exige
dedicação, destreza e talento que não tenho e também que o sonho da solitária é
igual ao dos idiotas que vêem poesia na ditadura, além de achar o Legião o
suprassumo da depressão.
Quando eu
tinha dezesseis pensava que não gostar de algo sobre alguém me faria sua
inimiga.
Agora, com
trinta e seis, posso achar Legião Urbana depressivo e amar a música Metal
Contra as Nuvens e outras tantas mas, ainda assim, não querer ouvir quando
acordo num dia de sol.
Quando eu
tinha dezesseis achava que o amor era fruto de uma geração espontânea.
Hoje, com
trinta e seis e um coração retalhado, sei que ele é fruto de uma construção
paulatina,não raro, de algumas vidas...
Quando eu
tinha dezesseis, sonhava em casar e ter filhos.
Agora com
trinta e seis também, mas já cogito congelar meus óvulos.
Quando eu
tinha dezesseis, mudava a cor do cabelo conforme meu estado de espírito,
Hoje, com
trinta e seis, também.
Quando eu
tinha dezesseis achava minha irmã uma chata e démodé.
Hoje, com
trinta e seis, ela é minha melhor amiga.
Quando eu
tinha dezesseis, era maniqueísta. Entusiasta dos rasos extremos da vida.
Hoje, com
trinta e seis e dez anos de advocacia familiar, sou mediadora, partidária do
caminho do meio.
Quando eu
tinha dezesseis fazia terapia.
Hoje com
trinta e seis, também.
Quando eu
tinha dezesseis achava que as borboletas e a fênix me representavam.
Agora, com
trinta e seis, também.
Quando eu
tinha dezesseis achava que ser caçula me fazia ser a eterna criança da família,
Hoje, com
trinta e seis, sei que serei a eterna menina sapeca da família, mas que o meu
irmão mais velho, extremamente exigente e crítico, vai me chamar para ser
a sua advogada (e pagar os honorários, mesmo que eu não queira).
Quando eu
tinha dezesseis, achava que meu coração era do tamanho da minha mão fechada.
Hoje com
trinta e seis, sei que meu coração consegue pulsar e habitar milhas de
distância.
Quando eu
tinha dezesseis, achava que era dona do mundo e senhora do meu destino.
Agora, com
trinta e seis, não tenho mais dúvidas. Sou dona do meu mundo e senhora do meu
destino!
**
quarta-feira, 1 de março de 2017
Sobre o eterno, o presente e o amor
**
* *
Minha
irmã mostrou uma foto em que dormia com seus quatro filhos, pediu
que eu escrevesse um texto sobre amor baseado nela. Disse que
desejava que o tempo parasse nessa foto para manter as crianças
pequenas e sempre perto dela. Lembrei de várias situações em que
eu gostaria que o tempo parasse.
Quantas vezes desejamos que nossa vida pairasse numa imagem? Como naquelas dos amores de carnaval que passaram tão rápido, da paixão existente no início dos relacionamentos, dos abraços fortes, dos beijos sufocantes que nos enchem de vida e que gostaríamos de eternizar. Do colo da mãe, de brincar com o pai, dividir o chocolate com os irmãos, de cruzar um olhar que ficou eternizado no passado entre dois jovens corações que poderiam ter para sempre se amado se tivessem sido apresentados. Lembrei também do vídeo que acabei de receber de um estimado amigo apresentando sua primeira neta.
Quantas vezes desejamos que nossa vida pairasse numa imagem? Como naquelas dos amores de carnaval que passaram tão rápido, da paixão existente no início dos relacionamentos, dos abraços fortes, dos beijos sufocantes que nos enchem de vida e que gostaríamos de eternizar. Do colo da mãe, de brincar com o pai, dividir o chocolate com os irmãos, de cruzar um olhar que ficou eternizado no passado entre dois jovens corações que poderiam ter para sempre se amado se tivessem sido apresentados. Lembrei também do vídeo que acabei de receber de um estimado amigo apresentando sua primeira neta.
Imagino
os pensamentos que lhe vieram à tona, mesmo que por um rápido
lampejo, no voltar no tempo. Lembrou, com certeza, da primeira vez
que pegou sua filha nos braços e mostrou para os amigos aquele
pacotinho tão esperado e já um pedaço indivisível de si, mesmo
que recém a conhecesse. Assim como a minha irmã ao ver a foto dos
seus filhos aninhados junto dela em sua cama. Nessa hora queríamos
ter o poder da alquimia sobre os segundos.
Por
outro lado, se tivéssemos esse poder, de quantos outros momentos
lindos seríamos furtados? De dar um segundo abraço mais cúmplice,
de ver as crianças crescerem ou reencontrar com mais maturidade
aquele olhar encantador do passado e poder viver a mais linda
história de amor. A vontade de tornar eterna a efemeridade contida
na felicidade latente nos tolhe muitos momentos de mais amor. Aceitar a
passagem rápida da vida é o segredo da felicidade.
Queremos
congelar o tempo para guardar as boas lembranças, mas esse apego enevoa a esperança de acordarmos no dia seguinte com vontade de termos
dias a mais. A gente só lembra do que pode perder sem lembrar que o
melhor sempre está por vir. Querer manter o estado presente mata a
alegria que está nos esperando de braços abertos ali na frente. Meu
amigo não teria a felicidade de segurar sua neta se não tivesse
deixado sua filha crescer ou tivesse sido privado de envelhecer.
O
amor de verão pode viver até o inverno, um primeiro beijo pode se
repetir a cada novo dia, a cumplicidade de uma noite de carnaval pode perdurar até o próximo Natal. Um casamento falido
pode dar lugar a mais felicidade quando as crianças deixam de
presenciar brigas e compartilham a alegria de ver um novo amor
resplandecendo a vida dos pais. A chance de um segundo encontro pode dar início à parceria de uma vida inteira. Às vezes nos acorrentamos a uma cota
pequena de felicidade e acabamos por resumir nossa alegria olhando
uma antiga fotografia.
Quantas
vezes matamos novos doces retratos da vida enquanto alimentamos a
nostalgia? O medo gera apego e poda o nosso florescer. Medo de experimentar o novo, medo de reiterar, de novamente sofrer, de se apegar, de doer, de se entregar às surpresas do destino faz com que passemos nossos dias acorrentados à âncora da reles existência que limita os horizontes e tolhe vermos a vida através de novos lindos amanheceres.
Se não largarmos as moedas de pratas, jamais pegaremos o pote de ouro que ali se avizinha. Sem a dor de perder o primeiro amor não teríamos como viver um "grande amor" pois faltaria maturidade para reconhecê-lo. Se os filhos fossem sempre crianças não existiria colo de vô. As lembranças do primeiro amor, a cumplicidade do primeiro casamento, o primeiro choro do rebento sempre estarão vivas no fio invisível da memória e podem ser revividas todas as vezes que o coração quiser visitar o passado.
Se não largarmos as moedas de pratas, jamais pegaremos o pote de ouro que ali se avizinha. Sem a dor de perder o primeiro amor não teríamos como viver um "grande amor" pois faltaria maturidade para reconhecê-lo. Se os filhos fossem sempre crianças não existiria colo de vô. As lembranças do primeiro amor, a cumplicidade do primeiro casamento, o primeiro choro do rebento sempre estarão vivas no fio invisível da memória e podem ser revividas todas as vezes que o coração quiser visitar o passado.
Deus
nos deu a memória para que possamos fazer essas pausas e contemplar a qualquer momento as paisagens da nossa existência. A vida
jamais pode parar, porém o coração permite revisitar nossas
antigas moradas. É muito bom ter as crianças no colo, mas é
preciso deixar que os dias o ensinem a caminhar. Ao invés de querer parar
o tempo, devemos deixar ele nos acarinhar, aconchegados nos braços
desse momento sagrado em que nosso pulsar agora está alocado, lugar
onde deve estar eternamente ancorado nosso coração e nossa mente que, não à toa, é chamado
de presente.
À memória da Poesia, minha gatinha que morreu enquanto escrevia esse texto.
À memória da Poesia, minha gatinha que morreu enquanto escrevia esse texto.
* *
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Despedidas
**
Os últimos acontecimentos do ano me fizeram pensar muito sobre a fragilidade da vida e a real importância da nossa existência. Muitas pessoas perderam seus maridos, filhos, irmãos dando apenas um “até logo”, sem a chance da real despedida.
Passei a me questionar quantas
pessoas que amo e não tive a oportunidade de me despedir. Lembrei dos meus avós
falecidos, os que conheci em vida foram internados antes do falecimento e pude, sim,
me despedir de todos. Lembro de no leito do hospital beijar cada um, olhar nos
olhos e dizer o quantos os amava. Tinha certeza que não teria uma segunda
chance para dar adeus.
Perdi amigos também, esses foram
no rabo do foguete para o outro plano, de forma abrupta sem que eu pudesse dar
um abraço forte e dizer o quanto eram importantes pra mim.
Veio como lampejo uma súbita e
curiosa vontade de que os velórios
fossem feitos com as pessoas ainda vivas. Tipo uma mesa redonda, onde no
centro estaria o futuro morto, em que não fosse permitido julgar, nem ofender,
nem punir, apenas enaltecer.
Nesse encontro ante mortem poderiam participar todas as pessoas que o pré-defunto tivesse encontrado durante a vida. Todas teriam direito à voz, mas somente falariam as coisas boas e significativas que ele fez. Não se chamaria velório, talvez festório, pois teria clima de festa e confraternização, com direito a brinde e confetes. Não é isso que se fazem nos velórios? Jogam confetes nos mortos... então pra que privar a pessoa de receber os confetes, elogios e agradecimentos ainda em vida? Depois sim, viria o velório clássico onde todos os defeitos do morto seriam escritos, sem assinatura, e depositados numa urna a serem enterradas junto com o de cujus. Coisas ruins devem ser enterradas e esquecidas logo, seja de vivo ou morto. Já as boas.... essas devem ser entoadas para além das gerações.
Nesse encontro ante mortem poderiam participar todas as pessoas que o pré-defunto tivesse encontrado durante a vida. Todas teriam direito à voz, mas somente falariam as coisas boas e significativas que ele fez. Não se chamaria velório, talvez festório, pois teria clima de festa e confraternização, com direito a brinde e confetes. Não é isso que se fazem nos velórios? Jogam confetes nos mortos... então pra que privar a pessoa de receber os confetes, elogios e agradecimentos ainda em vida? Depois sim, viria o velório clássico onde todos os defeitos do morto seriam escritos, sem assinatura, e depositados numa urna a serem enterradas junto com o de cujus. Coisas ruins devem ser enterradas e esquecidas logo, seja de vivo ou morto. Já as boas.... essas devem ser entoadas para além das gerações.
Pois é, talvez você esteja fazendo
a mesma pergunta que eu: como saber quando é a hora de fazer o festório, visto
que a hora da morte é uma eterna dúvida? A resposta é bem simples, pode-se
fazer a qualquer hora e várias vezes, basta que o futuro morto esteja vivo,
claro... Pode fazer junto de uma festa de aniversário, no Natal em que a família
está reunida. Pode ser feito também por
telefone, quando sentir saudade ou lembrar com carinho da pessoa. É muito
simples e libertador.
Uma coisa é fato, todas as
pessoas, em detarminado momento, vão nos deixar, seja vivo ou morto. Pense em
quantas pessoas passaram pela sua vida? Não falo de quem morreu fisicamente,
mas morreu na tua existência física na terra, que não teve mais contato algum.
Que sumiram no oco do mundo e nunca irão voltar. Quantas você mesmo as mandou embora? E quantas dessas pessoas se foram sem despedir? Para quantas você gostaria de dizer algumas palavras se
soubesse que aquele tchau seria para sempre? Quais seriam suas últimas palavras
para ela?
Confesso que não lido bem com
despedidas, mas tenho certeza que mais vale um abraço apertado com sabor de
último do que mil lamúrias em frente a um caixão. Abracem e beijem seus vivos, declare seus amores. Faça um exercício: pense em uma pessoa que amas e
estás distante. Agora imagine que acabou de saber que ela morreu. O que sentiria?
O que diria? Quais arrependimentos tem? Quais perdões lhe daria? Agora pegue o telefone, facebook,
whatsapp, e-mail, marque um café ou qualquer forma de contato que tem com ela e
diga tudo o que pensou. Aproveite a oportunidade de experimentar a sensação de
paz no coração.
Pode ser clichê, mas não deixe nenhuma reserva de amor guardado para amanhã. Ele pode nunca chegar e o mundo está cheio de últimos abraços suprimidos e os cemitérios lotados de flores que o ente querido ali enterrado nunca sentirá o perfume.
Então desejo que o amor nunca se demore nessa pressa atropelante dos dias e que sempre haja tempo para todas as despedidas.
**
Pode ser clichê, mas não deixe nenhuma reserva de amor guardado para amanhã. Ele pode nunca chegar e o mundo está cheio de últimos abraços suprimidos e os cemitérios lotados de flores que o ente querido ali enterrado nunca sentirá o perfume.
Então desejo que o amor nunca se demore nessa pressa atropelante dos dias e que sempre haja tempo para todas as despedidas.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Coragem de Maestro
* *
A vida não te dá respostas prontas, caminhos retos, direções certas nem obviedades. A vida não vem afinada. Como disse Guimarães Rosa, o que ela quer da gente é coragem.
Tu podes ter a coragem de um kamikaze suicida, de um ancião ou monge tibetano. Coragem para ser o que se é. Mas longo é o caminho do autoconhecimento.
Ao meu ver, o maior ato de coragem é desbravar a si mesmo. Ser mochileiro de seus lugares inóspitos. Desbravar o inviolável de sua própria alma. Esse é o maior ato de coragem .
Tantos ganham o mundo perdendo a sua essência. Percorrem a jornada da vida deixando pelo caminho migalhas de sua própria alma, chegando na reta de chegada vencedores de recordes e perdedores de si mesmos.
Não adianta ser um catedrático laureado mas reprovar no estreito contato com sua própria sombra. Por isso, mais importante do que abrir as cortinas do quarto, é buscar iluminar seu porão.
Às vezes é preciso silenciar a alma do mundo lá fora para poder ouvir qual sinfonia que toca aqui dentro, porque o que faz uma orquestra afinada é o ouvido apurado e a brilhante regência de seu maestro.
Mas não se nasce maestro. É preciso tempo, tato, treino, silêncios, ruídos, coordenação, foco.
E na viagem da vida somos todos maestros amadores conduzindo um bando de desafinados que nos habitam: medos, insegurança, desejos ignorados, talentos adormecidos.
Daí vem a coragem a qual me refiro, aquela necessária para a vida: assumir a maestria perante a condução da nossa existência, pegar a batuta, conhecer e comandar todos os "eus" que nos habitam, afinar os instrumentos e nos tornarmos maestros da nossa mais perfeita sinfonia.
**
* foto: google
domingo, 13 de dezembro de 2015
Sobre ventos, cabelos e AI-5
**
**
Cheguei no cabeleireiro e sentei como uma rainha.
Aquele salão chic cheio de espelhos,
lustre de cristal, máscaras da L'Oréal e serviçais trazendo café
em xícaras de porcelana chinesa. O intuito era cortar as pontas secas e mudar
um pouco o layout, como diz meu pai.
Logo chega o ''mestre das tesouras'',
muito simpático e sorridente, com aquele instinto de vassalo e pergunta: quanto
posso cortar?
Fixando os olhos nos dele através
do espelho, respondi: quanto tu achar que precisa.
Até agora não sei por quê falei
isso. Por um lapso de segundo me arrependi. Como depositar tamanha confiança em
um estranho? Mas meu orgulho impediu de retificar a resposta. Maldito orgulho
ceifador.
O olhar dele se transformou e o senti
se regozijar por dentro. Em dois segundos me tornei vassala e ele o suserano. Ali estava eu, igual o arbusto sendo tosquiado
pelo Edward Mãos de Tesoura. Só olhava de canto de olho minhas madeixas caírem ao
chão, sem dó nem piedade. Senti minha mãe incorporada naquele corpo. Desde meus
23 anos ela diz que já sou velha para ter cabelos compridos. Praga da D. Inês,
só pode.
Maldito tosador. Em questão de
segundos fui teletransportada do trono majestoso para a guilhotina. As
mãos suavam frio e o coração palpitava. Comecei a colocar a mão no cabelo num ato
comedidamente desesperado e notei que
pouco restava, nem dava para dar aquele
nó charmoso no meio do calor da balada.
Já tive cabelo curto e lembro do
trabalho que dava para domar. Sempre acordava com os cabelos parecendo um
capacete loiro que sobreviveu a um acidente, todo amassado. Já sei que perderei
meia hora de sono todos os dias só por causa desse ato inconsequente.
Depois do cabelocídio ele pergunta (agora com aquele ar de superior cheio de
intimidade) se eu queria que escovasse
com a franja para o lado ou ao meio. Nessa hora quase mandei ele pegar aquela
escova e...
Sai dali meio desnorteada. Entrei
no primeiro banheiro que vi e fiquei uns vinte minutos mexendo no cabelo, me
encarando no espelho, tentando ver todos os ângulos e me reconhecer em algum. Mandei
fotos para os amigos, caso me encontrassem na rua saberem que se tratava de
mim. Fui para a rua com a força do Sansão careca e segui a vida. Assim os dias se passaram, já
que a vida não condiciona sua existência pelo nosso corte de cabelo.
Lembrei que hoje marcam 47 anos
do AI-5. Para quem não cabulou as aulas de história, ou quem viveu na época da
ditadura, sabe que o corte que ele causou na vida dos brasileiros foi imensamente
mais castrador, catastrófico e durador do que qualquer corte de cabelo. E a
vida seguiu para todos (ou quase).
Nessa hora me dei conta que vida
se condiciona a fatos muito mais importantes do que uma visita frustrante ao cabeleireiro.
Visitas ao cabeleireiro não entram nos anais. Assim como os finais de
relacionamento ou oportunidades perdidas não entram nas biografias.
No final das contas, percebi que
o cabelo curto me cai bem, assim como acordar mais cedo me trouxe cafés da
manhã mais sossegados e, melhor do que dar nó no cabelo no calor da balada, é
sentir o ventinho fresco do final de tarde deliciosamente contornando tua nuca.
Pois é, quero que isso conste na minha biografia : ''Fabrine, aquela que preferia vento na nuca do que nó na cabeça e mil cortes nos cabelos a um rasgo na Constituição.’’
Pois é, quero que isso conste na minha biografia : ''Fabrine, aquela que preferia vento na nuca do que nó na cabeça e mil cortes nos cabelos a um rasgo na Constituição.’’
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Obscenidades
**
Na minha casa não se
falava palavrão. Apesar de meus pais não serem caretas, tinham repúdio às
palavras ofensivas. Então não aprendi a conviver muito bem com elas. Uma vez
chamei meu irmão de pentelho na frente do Bispo da cidade, amigo da
família. Minha mãe ficou zangadíssima e tenho certeza que pensou vários
palavrões para me xingar.
E assim cresci, sem
usar palavras vulgares nas minhas manifestações de ira ou êxtase. Os
palavrões que decorei eram apenas dois: inconstitucionalissimamente e
oftalmotorrinolaringologista. Quando brigava com alguém
dizia: inconstitucionalissimamente pra ti!!! Mas o interlocutor nunca
entendia a ironia.
Os xingamentos entre
mim e meu irmão eram assim: "Bine, vai chupar um prego!" E eu
respondia: "e tu vai tomar naquele lugar!" Sempre acabava
rápido porque não tinha mais o que falar.
Fui crescendo e meus
amigos “boca sujas” aparecendo. Eu sentia (e ainda sinto) uma certa inveja e
admiração por aqueles que quando a bola bate na trave gritam “Ahhhh,
porrrrra!!!” Ou na hora de uma discussão enche a boca para mandar o cara
pra pqp.
Há poucos dias umas
amigas foram juntas num mercado e protagonizaram uma briga com a atendente
estúpida. A mais desbocada delas usou todo o seu vasto repertório chulo. Não
presenciei a cena, mas de escutar a encenação hilária me regozijava
imaginando eu falando isso tudo para uma certa pessoa.
Tenho uma amiga que,
assim como eu, não tem o hábito de falar palavrão, mas confessou que
aproveita quando está fazendo sexo e rasga todo o seu repertório chulo.
Esse acaba sendo um prazer quase orgasmático.
Lembrei do
Drummond, que escreveu um livro cheio de obscenidades, com poesias eróticas,
chamado “ O Amor Natural” mas não teve coragem de publicar em vida, porque
também não se sentia confortável com essa coisa toda. Há palavrões que são
músicas, palavrões que são poesia e poesias que são palavrões
(Bukowski que o diga) .
Só tinha um
momento que eu enchia a boca pra falar palavrão sem consciência pesada. Com
quinze anos comprei o CD Cabeça de Dinossauro dos Titãs e conheci a música
Bichos Escrotos. Em determinada hora eles mandam toda meiguice se foder. Virou
um dos meus hits preferidos, só pra eu poder falar o palavrão.
Na época da
faculdade frequentava um Pub que a banda da casa tocava essa música.
Toda noite que eu estava lá dedicavam ela pra mim. E eu adorava
mandar todo mundo pra casa do caralho levantando o dedo do meio bem
desaforada. Mas só no show. Depois botava um halls na boca
e seguia a festa com a boca limpa.
Não sei se foi esse
cerceamento que me deixou uma pessoa mansa e pouco belicosa ou se já é
instintivo, mas percebi que mesmo se permitido fosse - pois agora já posso
falar a merda que quiser, sem levar tapa na bunda - os palavrões se tornaram
inócuos pra mim. Eu xingo com os olhos, ofendo com os quadris e extravaso
movimentando de forma debochada o canto da boca. Aprendi que há outras formas
de hiperbolizar minhas emoções. Descobri que meu sorriso nem sempre é
simpatia. Essa talvez seja minha maior obscenidade.
Mas de tudo isso, o
inquestionável é o poder libertador do palavrão, que evapora o
álcool e exorciza os demônios. Palavrão é o fio terra da linguagem, o
subterfúgio criado pelo homem para descarregar a carga tóxica
excessiva de emoções comprimidas. Enquanto as pessoas brigam se xingando gastam
mais energia enchendo a boca do que as mãos. Por isso anseio por um mundo
de mais palavrões explícitos ou tácitos e menos vias de fato. E que meus amigos
desbocados sejam ainda mais desbocados porque se a palavra liberta, o palavrão
é a liberdade em euforia.
Como disse Dercy
Gonçalves “palavrão, meu filho, é condomínio, palavrão é fome, palavrão é a
maldade que estão fazendo com um colírio custando 40 mil réis, palavrão é não
ter cama nos hospitais. Palavrão, mesmo que ninguém assuma, é a miséria, a
falta de respeito, é a sacanagem que estão fazendo com o povo. Isso que é
palavrão.”
E o resto do
vocabulário pode ser usado de escracho na boca de quem bem entender e se alguém
se sentir ultrajado, que coloque tarja preta nos ouvidos.
Só sei que geralmente onde tem palavrão não tem
hipocrisia. Talvez por isso eu prefira mil vezes os boca sujas do que os
boca abertas.
* *
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Pimenta da vida
**
Ontem foi aniversário de uma
amiga. Menina de alma doce, compositora talentosíssima e com uma capacidade de
empatia ímpar. Ela leu algumas mensagens de felicitações. Dentre elas, uma me
chamou a atenção. Desejava felicidades, amor, saúde e também que mantivesse a
tristeza latente em sua alma, para que ela pudesse continuar escrevendo lindas
canções, porque a beleza das letras está
na dor pungente.
Olhei para a aniversariante com
ares de resignação, porque é a mais pura verdade. Eu escrevo quando dói. Me senti humana nessa hora (sim, têm dias que
me ponho acima dos deuses do Olimpo). Também desejei (em silêncio) a dor a ela,
e a mim.
Lembrei que não escrevo há
tempos. Não que esteja sem dores, só acho que me anestesiei. Dor que não se sente, não se tem. Voltei pra casa derrotada, como um vencedor
mundial de MMA que usou drogas e burlou o antidoping. Dores íntimas e silenciosas,
quando descobertas, ardem mais.
Passei o dia a cutucar as feridas
da minha alma. Raspei saudades, tirei a casca das escolhas mal feitas, passei
álcool nos cortes que me mutilei por derrotas não digeridas. Despi as indulgências
e fiquei nua com a pele lanhada. Enchi a banheira de sal e mergulhei. Senti cada
ardência dos machucados que aceitei de presente da vida. E agradeci por sentir
a dor de estar viva.
Esse texto de tom pesado, aos
olhos de um poeta, soa brisa. E para um bom intérprete de alma, sabe que é aí
que mora a felicidade. Em aceitar a incompletude da vida, os desencontros, as
esperas, os becos sem saída que nos ensinam a pular o muro.
Tem uma música que diz “eu não
consigo ser alegre o tempo inteiro”. Pois é, eu também não consigo, e nem
quero. Quero a distância e
a chegada. Mais que sorrisos francos,
quero o choro sincero. Enquanto as pessoas têm medo de chorar, eu tenho gana
por viver. Mal sabem elas que as lágrimas lavam a alma para a alegria fazer
morada.
As pessoas fogem desenfreadamente
da dor. Bebem, cheiram, têm relacionamentos fugazes, se escondem e vivem como
múmias sem sentir o real gosto de estar vivo.
A felicidade vem para aqueles que
ousam sentir a derrota, que colocam os joelhos no chão não apenas por devoção, mas
por serem alunos da escola dos tombos e tropeços. Aliás, quero ser laureada nesse
liceu, porque cada tombo ensina a se levantar e cair com mais suavidade, até chegar
o dia em que perdemos o medo de beijar o chão.
A felicidade é um milagre para
poucos que ousam ir além da reles superficialidade dos lugares comuns, dos
sentimentos comuns, do relacionamento meia boca, do sorriso que não mostra os
dentes, do rolo compressor da rotina
esmagadora de sonhos.
Eu quero mais, eu bebo a vida aos
goles. Prefiro ter a língua queimada do que comer a vida pelas beiradas. Eu quero mesmo é me doer (e me doar) inteira, afinal a dor é a pimenta da vida.
Para Indy, que sempre leva minha
dor para dançar.
* *
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Alma Canhota
* *
Quero
placidamente transitar entre as paisagens da minha alma
Reconhecendo cada esquina como antigas moradas.
Almejo viver minha vida sem altares ou púlpitos.
Sonho pela sutil presença das horas
Sentir cada vão momento como vão momentos que são.
Escrever sem pensar. Escrever por sentir
e sentindo, no cerne imutável da existência,
criar a minha audaciosa biografia póstuma.
Quero passar meus dias a escrever sobre o de cujus que serei.
Quero a morte latente nos meus dias para viver com a gana de um sobrevivente
A morte acompanha a vida, e isso é o que lhe dá sentido.
Quero escrever minha biografia deslizando a mão esquerda sobre o papel manchando de tinta a pele, como cicatriz da jornada errante.
A torta, a gauche, a mutante alma que me suporta.
Pobre alma amante fiel, filha incompreendida e resignada
minha jovem alma sossegada que desperta com o cingir da carne.
E por tão doce e límpida, disputada entre Deus e o diabo pelos seus santos pecados, incompreendida entre os homens, na incompetência de alcunhar, te chamam de canhota.
Reconhecendo cada esquina como antigas moradas.
Almejo viver minha vida sem altares ou púlpitos.
Sonho pela sutil presença das horas
Sentir cada vão momento como vão momentos que são.
Escrever sem pensar. Escrever por sentir
e sentindo, no cerne imutável da existência,
criar a minha audaciosa biografia póstuma.
Quero passar meus dias a escrever sobre o de cujus que serei.
Quero a morte latente nos meus dias para viver com a gana de um sobrevivente
A morte acompanha a vida, e isso é o que lhe dá sentido.
Quero escrever minha biografia deslizando a mão esquerda sobre o papel manchando de tinta a pele, como cicatriz da jornada errante.
A torta, a gauche, a mutante alma que me suporta.
Pobre alma amante fiel, filha incompreendida e resignada
minha jovem alma sossegada que desperta com o cingir da carne.
E por tão doce e límpida, disputada entre Deus e o diabo pelos seus santos pecados, incompreendida entre os homens, na incompetência de alcunhar, te chamam de canhota.
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