quarta-feira, 3 de junho de 2015

Obscenidades




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Na minha casa não se falava palavrão.  Apesar de meus pais não serem caretas, tinham repúdio às palavras ofensivas. Então não aprendi a conviver muito bem com elas. Uma vez chamei  meu irmão de pentelho na frente do Bispo da cidade, amigo da família. Minha mãe ficou zangadíssima  e tenho certeza que pensou vários palavrões para me xingar.

E assim cresci, sem usar palavras vulgares nas minhas manifestações de ira ou êxtase.  Os palavrões que decorei eram apenas dois: inconstitucionalissimamente  e oftalmotorrinolaringologista. Quando brigava com alguém dizia: inconstitucionalissimamente pra ti!!! Mas o interlocutor nunca entendia a ironia.

Os xingamentos entre mim e meu irmão eram assim: "Bine, vai chupar um prego!" E eu respondia: "e tu vai tomar naquele lugar!"  Sempre acabava rápido porque não tinha mais o que falar.

Fui crescendo e meus amigos “boca sujas” aparecendo. Eu sentia (e ainda sinto) uma certa inveja e admiração por aqueles que quando a bola bate na trave gritam “Ahhhh, porrrrra!!!” Ou na hora de uma discussão enche a boca para mandar o cara pra pqp.

Há poucos dias umas amigas foram juntas num mercado e protagonizaram uma briga com a atendente estúpida. A mais desbocada delas usou todo o seu vasto repertório chulo. Não presenciei a cena, mas de escutar a encenação hilária me regozijava  imaginando eu falando isso tudo para uma certa pessoa.

Tenho uma amiga que, assim como eu,  não tem o hábito de falar palavrão, mas confessou que  aproveita quando está fazendo sexo e rasga todo o seu repertório chulo. Esse acaba sendo um prazer quase orgasmático.

Lembrei  do Drummond, que escreveu um livro cheio de obscenidades, com poesias eróticas, chamado “ O Amor Natural” mas não teve coragem de publicar em vida, porque também não se sentia confortável com essa coisa toda. Há palavrões que são músicas, palavrões que são poesia e poesias que são palavrões (Bukowski que o diga) . 

Só  tinha um momento que eu enchia a boca pra falar palavrão sem consciência pesada. Com quinze anos comprei o CD Cabeça de Dinossauro dos Titãs e conheci a música Bichos Escrotos. Em determinada hora eles mandam toda meiguice se foder. Virou um dos meus hits preferidos, só pra eu poder falar o palavrão.

 Na  época da faculdade frequentava um Pub  que a banda da casa tocava essa música. Toda noite  que eu estava lá dedicavam ela  pra mim. E eu adorava mandar todo mundo pra casa do caralho levantando o dedo do meio  bem desaforada. Mas só no show. Depois  botava um halls na boca  e seguia a festa com a boca limpa.

Não sei se foi esse cerceamento que me deixou uma pessoa mansa e pouco belicosa ou se já é instintivo, mas percebi que mesmo se permitido fosse - pois agora já posso falar a merda que quiser, sem levar tapa na bunda - os palavrões se tornaram inócuos pra mim. Eu xingo com os olhos, ofendo com os quadris e extravaso movimentando de forma debochada o canto da boca. Aprendi que há outras formas de hiperbolizar  minhas emoções. Descobri que meu sorriso nem sempre é simpatia. Essa talvez seja minha maior obscenidade.

Mas de tudo isso, o inquestionável é o poder libertador do palavrão,  que evapora  o álcool e exorciza os demônios. Palavrão é o fio terra da linguagem,  o subterfúgio criado pelo homem para  descarregar a  carga tóxica excessiva de emoções comprimidas. Enquanto as pessoas brigam se xingando gastam mais energia enchendo a boca do que as mãos. Por  isso anseio por um mundo de mais palavrões explícitos ou tácitos e menos vias de fato. E que meus amigos desbocados sejam ainda mais desbocados porque se a palavra liberta, o palavrão é a liberdade em euforia. 

Como disse Dercy Gonçalves “palavrão, meu filho, é condomínio, palavrão é fome, palavrão é a maldade que estão fazendo com um colírio custando 40 mil réis, palavrão é não ter cama nos hospitais. Palavrão, mesmo que ninguém assuma, é a miséria, a falta de respeito, é a sacanagem que estão fazendo com o povo. Isso que é palavrão.”

E o resto do vocabulário pode ser usado de escracho na boca de quem bem entender e se alguém se sentir ultrajado, que coloque tarja preta nos ouvidos.

Só sei que geralmente onde tem palavrão não tem hipocrisia. Talvez por isso  eu prefira mil vezes os boca sujas do que os boca abertas.   

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