quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Amor Natimorto




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Um dia, nalgum lugar, uma eternidade após,
Eu lembraria tudo isto num suspiro:
Dois caminhos divergiam numa floresta de outono,
E eu, eu escolhi o menos percorrido,
E isto fez toda a diferença!

Robert Frost

  
Do Amor Natimorto

Sossega a voz e o coração
Silencia os pensamentos, abafa os gemidos
Nada há de ser tão cruel quanto “o que poderíamos  ter sido”
De hipóteses estamos cheios, amor natimorto.

Amo-te no futuro do pretérito
Como quem tomou o veneno antes mesmo da picada
Aquele que nem vive e já morre

"Amor declarado morto,
Como pode ser tão vivo
Dentro dos limites do meu corpo?"

E qual pena maior do que amar sem amar?
Então se for assim, prefiro que me deixe viver e esfaqueie lentamente.
Deixe-me sentir que nalgum momento houve pulso. Por que daí valeria a morte.

 Enche-me de vazio. Mas não me torture assim.
 Não mate os abraços, beijos, gemidos e plurais.
 Ou que  mate, então...
Salve-me dessa hesitação a cansar meus dias.  

Mas mate lentamente ... que seja de desgosto, frieza, desencanto  ou qualquer coisa que doa em mim. Porque agora não sinto nada que não seja brisa suave.
Seja cruel, me faça sentir cada instante do teu adeus. 

Poupe-me  do sofrimento de não sofrer.
Quero doses cavalares da tua carne e homeopáticas de lucidez.
Dê-me, apenas, o direito ao último suspiro
Aquele que antecede a morte, mas que liberta a alma.


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foto: google

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Resoluções


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Passei o reveillon com amigas numa praia. Após a ceia, fomos para a beira do mar, sendo que até lá, passamos por uma trilha íngreme no breu da noite. Chegamos ofegantes, mas em tempo de apreciar os lindos os fogos. Ótima companhia e o mar imenso à frente. Fomos  correndo pular as sete ondas. Concentradas, contando em conjunto... uma, duas, três... sete!!!! Começamos bem o ano.

A noite passou e 2014 chegou junto com a ressaca de freixenet. Na conversa do café uma delas perguntou: Bine, tu fez os sete desejos?  Eu achando estranho a pergunta respondi: como assim, sete desejos?  ... Ué, os sete desejos das ondas... Ó Cristo! Não era só contar os pulinhos e a sorte vinha de arrasto??

Eis que ela me responde... pois é, eu também não fiz. Mas falei para um carinha que pulei as sete ondas e ele pediu que contasse um dos meus pedidos. Não fiz nenhum também!

Óbvio que rimos muito e conjecturamos sem titubear: nosso ano vai ser trash...  sem  amor, sem dinheiro, sem saúde e blá blá blá. Após um minuto de silêncio ela  soltou a pérola: Quer saber? Melhor que tenha sido assim mesmo... começar o ano sem expectativas, sem frustrações e tudo o que vier é lucro!

A paz e felicidade reinaram em nossos corações...  lembrei de um conselho que recebi certa feita : |Fabrine, crie tudo... mas nunca crie expectativas.  E é verdade. O mal do século são as expectativas, em si e nos outros.  Planos são necessários e plausíveis para direcionar nossas vidas, mas projetar resultados cartesianos  baseados em fatos que nãos estão totalmente sob nosso controle é assinar atestado de frustração e tristeza futura.

Então este ano não fiz resoluções de ano novo.  Para que fazer prognósticos criados no afã do momento, com a sensibilidade aflorada com a comoção da expectativa do ano que virá, fadados a darem errado? Não... deixei para janeiro, quando a poeira tá baixa e  o senso de realidade está mais condizente com as minhas necessidades.

Em 2014 não quero emagrecer, quero ser  frequentadora assídua da academia, beber mais água e menos cerveja, comer mais salada. Também não quero dinheiro, quero  trabalhar afinco todos os dias úteis e ser  valorizada por isso. E não quero ser feliz, quero  visitar mais meus amigos, ir ao cinema, voltar a nadar, caminhar  ao sol e conviver muito com a minha família.

Também não quero um amor, quero abraçar, ser abraçada, beijar, ter muitos orgasmos, descansar a cabeça em um lugar seguro e flutuar. E que tudo isso seja com  mesma pessoa que me faça rir de doer  a barriga.

Ah... e quero chorar um pouquinho também, porque a tristeza faz parte da vida e mostra que estou viva e suscetível aos desprazeres inerentes a ela. Vai me fazer dar mais valor a tudo o que escrevi  antes.

Esse ano quero ter a mesma convicção e confiança que meu cão tem em mim: De que quando eu esteja presente, tudo estará bem e eu só traga afeto, carinho, proteção.


Se 2014 me trouxer tudo isso, maravilha! Se não trouxer... daí vou me divertindo com o que aparecer...  assim a gente faz com que a felicidade vire rotina.




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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Jardim Secreto



Este texto, diferente dos demais que escrevo em uma única “sentada”, levou alguns meses para ser feito, talvez porque só hoje eu tenha entendido de fato sobre o que estava falando.




"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior, com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.”

Saint-Exupéry



Li essa frase em um e-mail que recebi e me remeteu  a uma música do Bruce Springsteen, que se chama Secret Garden (jardim secreto). Ela é linda e sempre levou meus pensamentos para longe... num lugar que só eu conheço.

Acho ela de uma profunda sensibilidade. Não sei quantas vezes me peguei cantarolando esta música, andando pela rua e pensando no meu jardim secreto. Na minha livre interpretação, a letra fala de uma mulher misteriosa, que deixa que entrem em sua vida, mas tem um ponto inacessível, um mundo onde somente ela habita e por mais que você se aproxime, jamais chegará perto, sempre estará a milhas e milhas de distância.

Na verdade acho que todos temos um mundo particular isolado e secreto, onde somente nós habitamos. Onde escondemos nossos desejos mais profundos, nossos pensamentos mais torturantes, repreensivos e inconfessáveis.

Um lugar sagrado e necessário para tirarmos umas férias de vez em quando do mundo lá fora. Porém, é ali também que mora tudo aquilo que não queremos mostrar aos outros, nossos medos, traumas e ambigüidades e conflitos e também nossa reserva emocional.

Esse local deve ser sempre preservado, pois nele está nossa essência, nosso cerne, nossa identidade.

Temos características mutáveis e maleáveis, porém nosso ponto de integridade é perene e nada vai fazer mudarmos isso.

Quando alguém tenta, conscientemente ou não, invadir nosso espaço vital, nos sentimos acuados, violados, apreensivos. Refutando assim qualquer ameaça à nossa própria essência.

É uma pena que algumas pessoas que gostamos não tenham a visão dessa cerca que colocamos para defender nosso lugar mais precioso. Às vezes por descuido, desconhecimento ou desatenção invada um local que não a pertence e jamais irá pertencer, por só caber um dentro desse lugarzinho sagrado. Por mais que alguém queira chegar, sempre estará a milhas de distância.

Mas temos vastas planícies lindas, floridas e perfumadas que não tem uma porteira tão hermética, pode-se dar livre passagem e lá sim, cabe mais um, uma pessoa bem-vinda que pode ser pra sempre a fiel guardiã do nosso jardim secreto.


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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Suprimindo o Grito






As melhores frases são as que o silêncio soletra. E os piores vácuos, são os cheios de vazio.

Dizer tudo sem falar nada é a láurea da linguagem.  É o olhar oblíquo,  o sorriso de Da Vinci, é a pauta em branco e o coração latente.

Palavras que nunca direi, estas são as mais valiosas. Lembro dos meus hiatos como momentos. Algumas vezes medo, outros sabedoria.

Poucas vezes silenciei tão alto. Mas esses gritos sem eco, ainda ressoam na minha alma.

Não gosto de calar, mas cada vez mais me calo.  Minhas falas estão tão calejadas, que agora o silêncio se torna astro-rei, e supre a incompetência das palavras não entendidas, das palavras mal escritas que só de pensar, cansa os dedos e seca a pena.

De tanta incompreensão, as palavras suprimidas escorrem dos olhos, e a lágrima se faz verso, tão belo e transmutado que traz sorriso ao rosto cansado, fazendo rica qualquer rima.

Escrever nada mais é do que passar pela alma as palavras incompreendidas, pôr o meu perfume soletrado e, após, asfaltar com elas o caminho empoeirado por onde ando.

Essas palavras talvez não façam sentido para ninguém além de mim, mas de sentido as almas estão cheias, e de sentimentos os textos andam vazios.

Mas o que eu escrevo... isso tem alma, coração e fé. Tem um amor tão grande, que faz de um simples  fonema a poesia mais bela que Drummond sequer sonhou.

Escrever traduz a alma e silencia o coração, deixando sempre à minha escolha onde pôr o ponto final, incluir as reticências ou, por fim, suprimir o grito.



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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Porquê dos Espinhos




Hoje meu sobrinho e afilhado de 8 meses fez uma cirurgia para corrigir uma má formação no crânio. Tão pequeno já ganhando a sua primeira (e grande) cicatriz.

Há uns 8 anos atrás minha sobrinha também precisou fazer uma delicada cirurgia com um mês de vida, porque nasceu com as válvulas do coração invertidas. Outra que ganhou bem novinha sua primeira cicatriz.

Naquela época o corte foi da altura do peito até quase o meio da barriga. Algo apavorante para uma leiga na área, como eu. Lembro de quando fui visitá-la na UTI,  parecia tão frágil, cheia de tubos e curativos. Segurei seus dedinhos e senti a pressão daquela mãozinha segurando a minha.  Fiquei hipnotizada olhando a barriga dela se mexendo com a respiração. Foi algo indescritível sentir a força da vida em cada inspiração que aquele pedacinho de gente dava. Emocionante ver que um Ser tão pequeno e frágil carrega em si uma prodigiosa fortaleza.

Hoje ela é uma menina linda, cheia de vida e serelepe que enche a nossa vida de alegria e, a outrora imensa cicatriz, hoje é apenas um risquinho quase imperceptível. Mas está lá, como registro da primeira luta que ela travou com a vida. Sei que o mesmo vai acontecer com o bebezinho da família que hoje passa pela mesma provação. Logo, logo essa grande marca vai se dirimir e perder a força no transcorrer da sua vida. No futuro será apenas uma história para contar.

Tenho várias cicatrizes, mas a mais importante é uma abaixo do joelho. Marca de um acidente ocorrido em 1994, em que perdi alguns queridos amigos de infância. Sem dúvida foi um dia que jamais esquecerei. Cada vez que a vejo, agradeço por ter essa cicatriz, pois muitos não tiveram esta sorte.

Mas, muito mais do que cicatrizes na pele, carregamos cicatrizes na alma. Marcas silenciosas, mas que ao mesmo tempo, se tocadas, seu grito ecoa dentro de nós.

Meus irmãos e cunhados, não tenho dúvidas, ficaram com marcas no coração pelo sofrimento dos seus filhos, pelo medo de perder seus bebezinhos ou por não poderem eles próprios, evitar a cirurgia.

Meus pais jamais esqueceram o dia do meu acidente, as horas de desespero por não saber se eu tinha sobrevivido ou não.  Os pais dos meus amiguinhos que se foram tiveram seus corações dilacerados pela morte prematura de suas crianças.

Outros talvez não tenham essas marcas tão profundas, mas tiveram seus corações partidos pela perda de um grande amor, por um erro cometido, uma injustiça sofrida, por sentir a falta de um estimado bichinho de estimação ou por uma oportunidade perdida.

São essas marcas que nos moldam, que nos tornam mais fortes e calejados.  Elas são inerentes à existência humana e, uma existência sem cicatrizes, é uma existência perdida. Só sofre quem se expõe, quem ama, se arrisca, quem enfrenta as cirurgias que a vida faz na nossa alma, sem as quais, talvez, para sempre ficaríamos mancos.

Por fim, acredito que a vida, definitivamente, não foi feita para a linearidade, mas sim para altos e baixos, tropeços, quedas e cortes.  Mas precisamos lembrar que a cada ferida feita na alma ou no corpo, a vida dá um jeito de se regenerar, de se recriar e de trazer um novo sentido e olhar para a nossa extraordinária existência.

Por isso, parafraseio Nietzsche, que em sua inquestionável sapiência sobre a experiência humana afirma que  tudo aquilo que não nos mata, nos torna mais forte. Por isso também aprendemos a nos defender e, como já se sabe, rosa sem espinhos, não é rosa.


* Este texto é para meus pequenos e fortes botões de rosa Larissa e Caio e suas lindas cicatrizes.

Foto: Google

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Ensaio sobre Baratas







Certa feita uma amiga disse que em meio a uma discussão com o namorado, soltou a seguinte frase: “eu mesma mato minhas baratas”.

Quando  contou o que houve, essa frase ecoou nos meus pensamentos. É uma boa forma de dizer que ela é independente e autossuficiente, claro que estou fazendo uma interpretação lato sensu.

Por um breve momento, lembrei das várias baratas que já matei nessa vida. Sim, morando sozinha, se eu não matar, quem vai? Pior é saber que um bicho feio e nojento daqueles está habitando meu lar.

Não tenho medo de barata, tenho muito nojo, ojeriza e o único medo é que ela venha para perto de mim.

Já travei duelo com spray de cabelo, desodorizador de ambiente, detergente de louça, até amaciante de roupas. Pego a arma que estiver mais perto. Confesso que nas vezes em que não matei afogada, pelo menos deixei ela bem tontinha.

Não é uma tarefa fácil, até mesmo porque, conforme um documentário, as baratas são os únicos seres que sobreviveriam a uma guerra nuclear. Imagine...

Quem já passou por isso sabe o pânico que dá quando ela está em cima da porta, com as anteninhas se mexendo e olhando pra ti, parecendo pronta pra dar o bote.

Sou uma mulher que mata suas próprias baratas, instala chuveiro, troca resistência, botijão de gás, toca sua vida e lida com os embates do dia a dia sem ter pra onde correr e confesso que há pouco drama nisso. Momentos de solidão, vazio e carência fazem parte da vida de todas as pessoas que vivem sozinhas ou não.

Acho que foi isso que minha amiga quis dizer. Que ela sabe se defender e não precisa de um homem ao seu lado para servir como alegoria.

Vivemos numa época em que as pessoas querem, mais do que convenções sociais, serem felizes.

Este parece um texto feminista, mas não é, serve para os homens também. Pessoas que podem fazer um bom lar, criar laços saudáveis e perenes de afeição são as que sabem matar suas próprias baratas, são as que “pegam” juntas nos embates da vida e não têm medo de viverem sozinhas.

É claro que adoraria ter alguém comigo para ajudar a montar a melhor estratégia para matar o tal bichinho ou segurasse a lanterna para eu trocar a resistência do chuveiro à noite, quando queima no meio do banho (segurar a lanterna e trocar a resistência junto é uma árdua tarefa), mas não é por isso que vou por uma plaquinha no pescoço e escrever: “procura-se”.

Todos nós sempre estamos a procura de alguém para coexistir, ter filhos, para amar e ser amado,  eu não fujo à regra. Mas não quero um genitor para meus filhos, um provedor ou a companhia de uma pessoa que sirva para eu descarregar minhas carências ou satisfazer meus caprichos.

Então, que fique claro, não estou queimando sutiã, apenas ratifico a opinião de que, em tempos de relacionamentos falidos, solidão a dois e comodismo emocional,  opto por continuar matando, eu mesma,  minhas baratinhas.


"Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência  de pessoas. Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer a verdadeira companhia."

Friedrich Nietzsche







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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Brilho nos olhos




Na época da ditadura, o cronista Tarso de Castro publicou uma coluna totalmente em branco na Folha, em protesto contra a prisão do jornalista Lourenço Diaféria, e foi retaliado também por não escrever nada. Ou seja, censuravam até uma página em branco.

Soube disso na aula de história e me marcou a ironia que envolve esse contexto. Hoje me peguei pensando nisso. Nos textos em branco que publico diariamente na minha vida.

Quase todos os dias acontece algo que eu penso “deveria escrever sobre isso”, mas me auto-censuro.
Não quero encher minha vida da vazios, coisa que muita gente faz. E agora falo em terceira pessoa, porque no mundo tem muita gente cheia de páginas em branco, publicadas nos principais cadernos que compõem suas vidas.

Oscar Wilde dizia que viver é a coisa mais rara no mundo, porque a maioria das pessoas apenas existe. Eu me considero borderline, estou na corda bamba entre viver e existir. Quero e tento viver intensamente, mas por vezes existir apenas é tão mais brando, calmo e seguro... Viver exige coragem, força e resiliência.

 E assim fui alternando meu livro entre páginas cheias de cor e outras pálidas, sem viço. Mas a mim, como uma boa leitora, jamais agradaria ler um livro com falhas, com histórias pela metade, sem nuances que instigam meu pensar, meu olhar, meu viver.

Muitos leitores meus deixaram de ler o blog porque não havia mais nada de novo escrito, muitas pessoas deixaram de habitar minha vida porque me auto-censurei pra elas. Pelo meu eterno silêncio. Não que seja ruim, a vida é assim. Ninguém entra ou permanece na nossa vida por acaso.

Estou escrevendo justamente por isso, porque não quero ser um livro pela metade, quero encher meus dias de cores, mesmo que por vezes essas cores sejam preto e branco, quero ter nele páginas perfumadas, páginas com reticências, mas com uma bela história, com personagens reais, humanos e com brilho no olhar. Do jeito que eu gosto de viver e ter por perto.

Uma pessoa me ensinou a abrir meu caderninho e escrever diariamente textos multicoloridos, com direito a desenhos e aromas. Com ela aprendi que nenhum sonho, nenhum sentimento ou desejo deve ser censurado. Essa pessoa me ensinou a viver.

Porque, como está escrito no meu poema preferido, mesmo com toda a tragédia, sofrimentos e sonhos desfeitos, o mundo ainda é belo.


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Namastê



Faz tempo que não escrevo. Receava não conseguir transformar em palavras, sentimentos. Porque tudo o que eu sou não passa de um emaranhado de sentimentos que por vezes brincam de roda, noutras de Primeira Guerra.

Além disso, ao reler meus textos percebi que são repetitivos, pois geralmente são intimistas e viscerais demais. Textos passionais e egoístas. Isso me fez duvidar muito da qualidade das minhas mal traçadas linhas.

E tudo o que eu fiz, nos últimos 17 meses em que fiquei sem escrever foi desenrolar esses fios entrelaçados de sentimentos que formam meu corpo. O corpo que só eu conheço, o corpo de dentro.

Muitas vezes me senti patética com a busca incansável da minha façanha para mapear e dominar os meus impulsos, refluxos e masmorras emocionais.

Fiquei reclusa em um retiro Zen Budista, onde meditei por horas a fio, fui à Centro Espírita, Terreiro de Umbanda, conheci um Swami das Ilhas Maurício que atingiu a iluminação e me deu sua benção, ganhei um guru hinduísta, participei de Ritual Xamânico, fui à Culto Evangélico e conheci um ashram, me tornei filha de Santo, "dei minha cabeça para a umbanda, peguei-a de volta e tornei dona de mim.

Eu racionalmente diria que não busquei nada disso, que as situações foram surgindo e, curiosa como sou, fui ver o que era. Mas talvez não... estava buscando desenfreadamente me espiritualizar. Queria achar uma razão para essa roda gigante em que somos acoplados assim que nascemos.

Uma das frases de efeito que eu costumo usar é: eu nunca quis ser igual, nunca me tocou ser do rebanho.

De fato, eu não conseguiria me classificar em determinado estereótipo social, crença ou religião.

Confesso que foi um tanto difícil para mim, que nasci e cresci com o catolicismo arraigado e com uma visão maniqueísta do mundo e das outras formas de religião e crenças, abrir minha visão para vivenciar a espiritualidade de outras maneiras. Mas como diz minha terapeuta, eu tive um “salto quântico”. Seja lá o que isso signifique, acredito que de fato tive algum insight psicológico que abriu meus horizontes para algo maior, que desse algum significado para mim e aos seres que me cercam.

E em todos esses lugares em que busquei a espiritualidade tive a sensação de plenitude e ao mesmo tempo de incompletude. Plenitude por ser parte de tudo e incompletude pelo fato de que em cada lugar onde estive, tirei meu sumo, mas não fui o devoto que era esperado. De certa forma, decepcionei a todos. Em nenhum desses lugares saí com a "vestimenta" completa. Apesar de bem trajada, sempre faltou alguma coisa, nem que fosse a abotoadura.

Porém, em cada destino espiritual ou religioso em que estive, apesar do discurso diferente, todos foram uníssonos em afirmar que cada Ser carrega em si a luz divina, o pulso de Deus, a luz do Espírito Santo.

Eu não servi a vários Deuses. Descobri que meu Deus é um só. Meu deus sou eu mesma. A Senhora da minha vida, a quem eu devo venerar e amar infinitamente. A quem devo fazer oferendas diárias de amor, afeto e gratidão.

Eu sou bem e sou mal, porém, mais do que qualquer classificação, eu continuo sendo um mosaico de sentimentos que, para quem observa raso é trama, mas de longe é poesia.

Aprendi nessa lição que somente assim posso amar todos os outros Deuses. Amar o Deus que está no céu, que está no Universo, o Deus que habita os templos, o deus chamado de Krishna, Oxalá, Jeová, Brama, Poder Superior, Maria, João...


Estou de volta, com todo meu ser, palavras, licenças poéticas, erros de visão e gramática, incoerente, densa, translúcida, (i)resignada e, sobretudo, satisfeita.

Até breve.

Um beijo carinhoso a todos os deuses que leram este texto.

Fabrine Souza


* Namastê: O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você.
















quarta-feira, 30 de junho de 2010

Fazendo as Pazes

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Há dias em que não há nada a escrever. Muitos dias em que isso ocorre. Tudo acontece dentro, como disse Clarice.

Tenho meses de silêncio. Ninguém entenderia nada que eu escrevesse. Talvez hoje seja um deles e eu busco uma forma de ser clara. É contraditório: se não tenho o que escrever, não há o que ser entendido.

Têm pessoas que nasceram para solidão e teimam em se misturar. Talvez eu seja uma dessas. Minha ânsia em me fazer entender parece uma fuga da natureza.

Vejo que sou feliz na solidão, mas ela me parece triste. Fui ensinada a achar triste a solidão. Mas é quando estou só que me sinto bela, que as palavras fluem e o amor por tudo brota. Sozinho não há a quem odiar, a não ser si mesmo. E quem odiaria a si mesmo?

As pessoas buscam alguém para dividir a vida, como se a vida pudesse ser fracionada. Sendo assim seria ruim ter alguém, porque quando se divide, se perde.

Talvez a solidão seja um mito. Torná-la ruim seja uma forma de forçar o ser humano a ter relações, a procriar... Talvez a solidão seja a maior expressão do egoísmo. Ser só, estar só. Ninguém mais existe.

Todos nó deveríamos experimentar a solidão. Na verdade todos nós a experimentamos, mas geralmente nos consumimos nela enquanto deveríamos nos alimentar.

Nela eu cesso a busca frenética em agradar aos outros, a impor resultados que não dependem de mim, a querer mais do que tenho direito.

Transformar a solidão em alegria é uma arte. Tornar agradável algo que nos dói é o fim da tristeza e o começo da paz.


...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Clarice Lispector
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Enquanto a moça dormia com seu cão




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Invente verdades, se diversifique.
Esqueça fórmulas e caminhos conhecidos,
Esqueça o lugar comum, caso viva nele.
Pense menos nas jogadas.
Perceba os outros.

Ouça a moça cantarolar a música que toca sua alma,
O velho na parada lendo com os dedos seu livro da história da ciência em braile.
A moça dormindo com seu cão no colo...

Ver o desfilar de fragmentos de emoções e pensamentos na rua centenária.
O novo cristão pregando ao lado da velha figueira, dizendo que o milagre vai acontecer.
O louco locutor das ruas falando sobre política vestido de mulher, com uma caixa de som no pescoço.

E a vizinha ranzinza rindo dele.

A nobre cafeteria cheia de doutores de si mesmos, distribuindo tapinhas nas costas dos conhecidos.

A democracia da mesa de xadrez da praça... só não havia nenhuma mulher. Talvez mulheres não joguem xadrez...

O sol à pino sobre todos, as horas passando para todos, a alegria à mão de todos.
Por um momento voltei a pensar em mim, meus pés doem. Calcei o sapato errado.

E a moça continuava dormindo com seu cão...
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Razão pelo qual um sem o outro não existem




* *


Imagine que o orgasmo durasse horas,
E que o olhar que te enternece fixasse nos teus ininterruptamente, até cansar.

Imagine a paixão perene,
E que não existisse o choro compulsivo que te lava alma.

Imagine que gosto teriam os prazeres efêmeros se fossem eternos.
O sonho se realizando  dias e dias a fio, tal qual idealizado, sem que houvesse esforço.

Competições sem podium,
Pecados sem julgamentos e penitências.

Imagine o abraço sufocando tua respiração sem cessar.
E o gosto que teria cada novo dia se a morte não existisse.

A satisfação é a inversa medida do sofrimento suprimido em cada ato.

O espasmo, a aflição, o prazer, o tempo...

Que triste, que triste o ausência permanente da dor.

Há quem chame de masoquismo, mas ao contrário,
É por tanto gostar do prazer que enalteço a dor.

Pois se ela não existisse, por falta de de referências, eu jamais saberia reconhecer a anestesia na alma que só o verdadeiro amor comporta.

E sem ele, por mais anos que vivesse, eu jamais existiria. 
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Máscaras (aos meus amigos)

A pessoa que eu achava que fosse mais feliz se matou, e eu demorei a escrever algum texto por medo de falar coisas que não sentia. Não quero mais falsidades na minha vida.

Ele era meu amigo há mais de 10 anos. Nos víamos nas férias, porque eu morava no Rio Grande do Sul e ele em Florianópolis. Tinha 43 anos, alto executivo de um banco da elite.

Lembro de cada dia juntos. Com ele eu podia brincar de rica. Não pagava nada pra mim, mas eu esbanjava junto. Cada real muito bem aplicado. Mas também fazíamos programinhas de estudante. Num reveillon, eu totamente dura, passamos a noite toda passeando entre a Praia da Pinheira e a Guarda do Embaú, em seu carro conversível, bebendo todas e conversando com a lua. Sempre ríamos muito juntos. Qualquer drama virava piada de doer a barriga em sua boca. Num carnaval na cidade do interior onde eu morava, em pleno festejo aparece ele, de surpresa, pronto para passar a festa da carne comigo. Inesquecível...

Então os anos passaram e eu vim morar pertinho do meu amigo. O banco no qual trabalhava era vizinho do meu apartamento. Às vezes nos esbarrávamos nas esquinas, sempre fazendo promessas de almoço que nunca aconteceram. Às vezes eu dava uma entradinha no Banco para dar um abraço. Mas correira da vida, na qual vai boa parte das nossas desculpas, abafou nossa amizade.

Certo dia recebo a ligação de uma amiga em comum, falando que meu amigo tinha morrido. Até então surtiam boatos de assalto, vingança, tudo, menos suicídio. Jamais passaria isso na cabeça de qualquer pessoa que o conhecia.

Fui no velório, cheguei antes dele... ninguém acreditava que de fato se tratava do nosso amigo. Só acreditei quando vi o corpo inerte, irreconhecível... não havia dúvidas de que tinha se enforcado.
Sem cartas de despedida ou qualquer desabafo com amigos... trancou o cachorro na área de serviço, fechou a porta do quarto, bebeu todas... se entupiu de remédios, amarrou o lençol no cano de ferro do chuveiro, pôs o pescoço e se foi para sempre.

Destrinchando a sua vida, vimos que havia muitas coisas que não sabíamos. Nem os amigos, nem ninguém. Isso ficou ecooando na minha cabeça.
De quantas mascaras somos feitos? Quantos sorrisos enrustidos distribuímos, quantas mágoas e dores carregamos sozinhos sem dividir o peso com alguém que nos ama?

A gente sempre se indaga o motivo de estar vivo, os amores que deixamos passar, tantamos lidar com as nossas dores... mas e a dos amigos? Poucas vezes temos a sensibilidade de nos preocupar com as dores de quem está ao nosso lado, com o sofrimento verdadeiro dos nossos amigos.

Ao cumprimentar alguém sempre perguntamos: “Oi, tudo bem?” e a resposta sempre é “Oi, tudo bem, e contigo?”. Aceitamos ela sem questionar... já chega os nossos problemas... Mas sabemos que na minha vida ou na tua nunca está tudo bem.

Meu aniversário está chegando. Vou receber cumprimentos com desejos sinceros de felicidade, saúde e amor. Vou ficar muito agradecida, mas minhas angústias, anseios e decepções ainda vão me perseguir... algumas vou conseguir dirimir sozinha, apenas algumas...

Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo, sim, de envelhecer sem franqueza, sem assumir minhas dores, sem lutar pelo amor, pela sincera gratidão minha para com as pessoas que me fazem bem. Tenho medo de responder sempre que está tudo bem comigo enquanto meu mundo desmorona.

Não tenho qualquer tendencia suicida, mas tenho receio de sempre esperar meus amigos advinharem meus pensamentos e meus problemas para me darem uma palavra de conforto.

Tenho a sorte de me sobrar amigos para estenderem a mão ou darem o ombro, mas me falta sinceridade para dizer que preciso. Apesar de já ter sido socorrida muitas vezes por esses anjos disfarçados que estão na minha vida.

Depois que passei a morar só aprendi que muitas vezes precisamos nos bastar. Pôr a cabeça no travesseiro e ter uma conversa franca consigo mesmo, mas não nascemos para sermos só.

Tantas vezes penso nos meus amigos que teriam prazer em ouvir meus lamentos e que me fariam rir da tragédia... assim como meu amigo que não está mais aqui fazia comigo e eu poucas vezes fiz com ele.

Por isso, meus amigos que amo tanto... da forma mais sincera e pura que há, me perdoem os olhares e ouvidos desantentos. Às vezes pode me sobrar simpatia e faltar sensibilidade.

Em tempos de conversas instantâneas, mensagens pelo celular e e-mails, nos tormamos tão próximos e acessíveis, mas imensamente distantes das almas das pessoas. Dificilmente passamos do trivial.
Meu amigo que se matou estava todos os dias on line no meu computador, mas raramente trocávamos uma palavra além de cumprimentos ou carinhas engraçadinhas. Cada um queria guardar para si seus problemas.
Por isso rogo aos meus amigos pela sinceridade. Pela sinceridade minha e pela sinceridade deles.
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Me dêem de presente de aniversário suas máscaras e eu lhes darei a minha.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Grande Eco


Mudanças sempre causam um agito. Mesmo que para melhor, elas inquietam. Mas têm horas em que mudar é inevitável. Talvez não mudar necessariamente, mas assumir o que se é e deixar ir o que não te serve mais.
A gente vai mudando aos poucos, pequenos fragmentos nossos se alteram de forma lenta e gradual, até que chega um momento em que assumir essas alterações se torna obrigatório, porque já não somos mais os mesmos. Nossa feição não condiz com nosso olhar, nos tornamos um blefe.
Impreterivelmente é preciso decidir trocar as vestes ou costurar em si essa túnica puída e obsoleta que há tanto tempo usamos.
Por um bom tempo teci minha nova veste. Não sei se é melhor ou pior do que a antiga, mas com certeza é mais confortável. Com o tempo a gente vai aprendendo que o que mais importa não é a beleza, mas a leveza. Nada mais me aperta, oprime ou constrange. Isso é essencial para a felicidade.
Nada de agradar aos outros, carregar a responsabilidade da alegria ou tristeza de alguém. Cada um que assuma seus ais. Sempre levei mais felicidade em campos férteis do que naqueles áridos em que nunca vingou qualquer coisa que eu plantei... o que não se confunde com frieza perante aos infelizes... acontece que a felicidade nunca vem de fora. Se você duvida disso, desejo que descubra o quanto antes, porque mais cedo ou mais tarde, vais aprender.
Não é megalomania, mas as pessoas precisam se bastar. A infelicidade vem justamente em querer buscar em outro o que lhe falta. Mas ninguém pode suprir o vazio que carregas na alma. Todos temos um vazio na alma. Uns mais, outros menos. Carências, traumas, excesso de amor, falta de amor. Em cada extremo nosso há um vazio latente.
Sempre fugi dos meus vazios. Nietzsche dizia que quando a gente olha muito tempo para o abismo, ele também olha pra gente. Meu abismo era meu vazio. Quando resolvi olhar para ele ou o enfrentava ou me sucumbia. Não há redenção em superá-lo. É obrigação de cada um.
A nossa maior briga não é com Deus, com pai, namorado, chefe ou qualquer bode espiatório em que personificamos nossa raiva ou angústia. O maior inimigo sempre somos nós mesmos.
Fazer as pazes consigo mesmo, eis o verdadeiro milagre.

"Conhece-te a ti mesmo. E conhecerás o universo e os deuses."

( Inscrição no frontal do templo de Apolo em Delphos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Moça do Sonho

*


Tocou uma música no carro. Minha amiga suspirou, como quem sente saudade de um amor antigo... a gente reconhece um suspiro apaixonado.
Olhei enviesado, como quem desconfia. Quem é a vítima? Ela se entregou, ficou vermelha de vergonha, desviou o olhar.
Eu estava curiosa para saber quem tinha fisgado o coração dela. Minha amiga é do tipo que eu chamo de “sem sentimentos” menores, nada melodramática. Eu sou passional, não sou dada a amores velados ou silenciosos. Me declaro, choro, amo intensamente... ela não. Até hoje não sei se  já amou de verdade, nem ela sabe...
Minha amiga que tira minhas ilusões. Quando eu estou perdidinha, voando alto, corta as minhas asas e me põe no mundo real. Ela é a rainha das obviedades que eu passo longe... mas não dá moral de cuecas, sempre foi muito sensata.
Amiga de longa data... daquelas que é bom manter para sempre, arquivo vivo. Amizade que não cresce, que já nasceu grande. Que quando está carente, liga só pra dizer que te ama. Fui eu quem ligou para avisar que o nome dela estava no listão, ela que me ligou pra dizer que ouviu meu nome na rádio quando divulgaram os aprovados no vestibular. Liga quando está feliz, triste, com prisão de ventre, com dor de cotovelo, quando morreu a avó... de fazer excursão à sexshop, que conhece as tuas fraquezas e nunca usa isso como arma.
E ela se apaixonou e não me disse! Pior que traição... Insisti e ela revelou, receosa da minha reação... tinha se apaixonado pelo Chico Buarque.
Respirei fundo, segurei o riso. Não podia ridicularizar um sentimento tão forte. Eu sabia que era sério. Sei que ela tem bom gosto, foi quem me apresentou aos Mutantes, Secos e Molhados, Elis... Mas apaixonada pelo Chico! Nunca viu ele...
Ela confessou... o romance se deu em 2008, durou 3 meses. Aconteceu depois de um sonho.
E eu que esperava um sonho erótico me deparei com um sonho singelo, puro e curto... Assim como alguns amores, de fato.
Foi num encontro, na praia. Ele foi muito carinhoso e atencioso. Houve só um leve toque nas mãos... toque que ficou eternizado em sua memória.. Alguns segundos imaginários que foram muito mais concretos e real do que algumas relações efêmeras e superficiais que passam pela nossa vida. Não houve juras de amor, trocas de beijos, mas ela acordou com taquicardia.
Passou três meses com o Chico. Dormia ouvindo Beatriz, acordava com Cotidiano.
É, minha amiga talvez não saiba, mas já amou. Amou como talvez eu nunca tenha amado. Ousou amar o impossível de se ter, amou de forma tão pura e admirável que eu me pego querendo amar assim. E Chico, com certeza, amaria seu amor.
ELE NÃÓ sabe, talvez nem ela, mas esse amor foi recíproco. Acredito ser ela a tal "Moça do Sonho".
Agora ele achou o sonho extraviado. Quem sabe vasculhando bem o tal bazar, eu tenha a sorte de achar um também...

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó´


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais... ”


A Moça do Sonho, Chico Buarque

*

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Coração Exposto


*


Têm dias em que eu acordo querendo amar.
Dias cheios de segundas intenções.
Acordo com o coração exposto.
Dias sensíveis. De poucas palavras.
Em que prefiro ficar só.
Dias em que tenho medo de estranhos.
Fico envolta com meus sentimentos,
Apaziguando as lembranças distantes, as latentes e as que virão.
Nesses dias vou à livraria,
Encho a vida de prefácios, de amores de outros, de experiências efêmeras.
Ouço algumas vezes uma música que toca minha alma.
Escuto uma tragédia alheia.
Vou ao espelho e me encaro de forma fixa e verdadeira.
Gosto do que eu vejo
Encontro o que procuro noutro.
Travo um intenso silencioso diálogo.
Sem máscaras, subterfúgios ou falsidade.
Sorrio para mim mesma
Faço as pazes com os sentimentos,
Coloco meu coração para dormir.
Aconchego ele no meu peito, sinto se acalmar com a minha respiração.
Encontro, finalmente, o amor em mim.



*