segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Namastê



Faz tempo que não escrevo. Receava não conseguir transformar em palavras, sentimentos. Porque tudo o que eu sou não passa de um emaranhado de sentimentos que por vezes brincam de roda, noutras de Primeira Guerra.

Além disso, ao reler meus textos percebi que são repetitivos, pois geralmente são intimistas e viscerais demais. Textos passionais e egoístas. Isso me fez duvidar muito da qualidade das minhas mal traçadas linhas.

E tudo o que eu fiz, nos últimos 17 meses em que fiquei sem escrever foi desenrolar esses fios entrelaçados de sentimentos que formam meu corpo. O corpo que só eu conheço, o corpo de dentro.

Muitas vezes me senti patética com a busca incansável da minha façanha para mapear e dominar os meus impulsos, refluxos e masmorras emocionais.

Fiquei reclusa em um retiro Zen Budista, onde meditei por horas a fio, fui à Centro Espírita, Terreiro de Umbanda, conheci um Swami das Ilhas Maurício que atingiu a iluminação e me deu sua benção, ganhei um guru hinduísta, participei de Ritual Xamânico, fui à Culto Evangélico e conheci um ashram, me tornei filha de Santo, "dei minha cabeça para a umbanda, peguei-a de volta e tornei dona de mim.

Eu racionalmente diria que não busquei nada disso, que as situações foram surgindo e, curiosa como sou, fui ver o que era. Mas talvez não... estava buscando desenfreadamente me espiritualizar. Queria achar uma razão para essa roda gigante em que somos acoplados assim que nascemos.

Uma das frases de efeito que eu costumo usar é: eu nunca quis ser igual, nunca me tocou ser do rebanho.

De fato, eu não conseguiria me classificar em determinado estereótipo social, crença ou religião.

Confesso que foi um tanto difícil para mim, que nasci e cresci com o catolicismo arraigado e com uma visão maniqueísta do mundo e das outras formas de religião e crenças, abrir minha visão para vivenciar a espiritualidade de outras maneiras. Mas como diz minha terapeuta, eu tive um “salto quântico”. Seja lá o que isso signifique, acredito que de fato tive algum insight psicológico que abriu meus horizontes para algo maior, que desse algum significado para mim e aos seres que me cercam.

E em todos esses lugares em que busquei a espiritualidade tive a sensação de plenitude e ao mesmo tempo de incompletude. Plenitude por ser parte de tudo e incompletude pelo fato de que em cada lugar onde estive, tirei meu sumo, mas não fui o devoto que era esperado. De certa forma, decepcionei a todos. Em nenhum desses lugares saí com a "vestimenta" completa. Apesar de bem trajada, sempre faltou alguma coisa, nem que fosse a abotoadura.

Porém, em cada destino espiritual ou religioso em que estive, apesar do discurso diferente, todos foram uníssonos em afirmar que cada Ser carrega em si a luz divina, o pulso de Deus, a luz do Espírito Santo.

Eu não servi a vários Deuses. Descobri que meu Deus é um só. Meu deus sou eu mesma. A Senhora da minha vida, a quem eu devo venerar e amar infinitamente. A quem devo fazer oferendas diárias de amor, afeto e gratidão.

Eu sou bem e sou mal, porém, mais do que qualquer classificação, eu continuo sendo um mosaico de sentimentos que, para quem observa raso é trama, mas de longe é poesia.

Aprendi nessa lição que somente assim posso amar todos os outros Deuses. Amar o Deus que está no céu, que está no Universo, o Deus que habita os templos, o deus chamado de Krishna, Oxalá, Jeová, Brama, Poder Superior, Maria, João...


Estou de volta, com todo meu ser, palavras, licenças poéticas, erros de visão e gramática, incoerente, densa, translúcida, (i)resignada e, sobretudo, satisfeita.

Até breve.

Um beijo carinhoso a todos os deuses que leram este texto.

Fabrine Souza


* Namastê: O Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você.
















quarta-feira, 30 de junho de 2010

Fazendo as Pazes

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Há dias em que não há nada a escrever. Muitos dias em que isso ocorre. Tudo acontece dentro, como disse Clarice.

Tenho meses de silêncio. Ninguém entenderia nada que eu escrevesse. Talvez hoje seja um deles e eu busco uma forma de ser clara. É contraditório: se não tenho o que escrever, não há o que ser entendido.

Têm pessoas que nasceram para solidão e teimam em se misturar. Talvez eu seja uma dessas. Minha ânsia em me fazer entender parece uma fuga da natureza.

Vejo que sou feliz na solidão, mas ela me parece triste. Fui ensinada a achar triste a solidão. Mas é quando estou só que me sinto bela, que as palavras fluem e o amor por tudo brota. Sozinho não há a quem odiar, a não ser si mesmo. E quem odiaria a si mesmo?

As pessoas buscam alguém para dividir a vida, como se a vida pudesse ser fracionada. Sendo assim seria ruim ter alguém, porque quando se divide, se perde.

Talvez a solidão seja um mito. Torná-la ruim seja uma forma de forçar o ser humano a ter relações, a procriar... Talvez a solidão seja a maior expressão do egoísmo. Ser só, estar só. Ninguém mais existe.

Todos nó deveríamos experimentar a solidão. Na verdade todos nós a experimentamos, mas geralmente nos consumimos nela enquanto deveríamos nos alimentar.

Nela eu cesso a busca frenética em agradar aos outros, a impor resultados que não dependem de mim, a querer mais do que tenho direito.

Transformar a solidão em alegria é uma arte. Tornar agradável algo que nos dói é o fim da tristeza e o começo da paz.


...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Clarice Lispector
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Enquanto a moça dormia com seu cão




* * *

Invente verdades, se diversifique.
Esqueça fórmulas e caminhos conhecidos,
Esqueça o lugar comum, caso viva nele.
Pense menos nas jogadas.
Perceba os outros.

Ouça a moça cantarolar a música que toca sua alma,
O velho na parada lendo com os dedos seu livro da história da ciência em braile.
A moça dormindo com seu cão no colo...

Ver o desfilar de fragmentos de emoções e pensamentos na rua centenária.
O novo cristão pregando ao lado da velha figueira, dizendo que o milagre vai acontecer.
O louco locutor das ruas falando sobre política vestido de mulher, com uma caixa de som no pescoço.

E a vizinha ranzinza rindo dele.

A nobre cafeteria cheia de doutores de si mesmos, distribuindo tapinhas nas costas dos conhecidos.

A democracia da mesa de xadrez da praça... só não havia nenhuma mulher. Talvez mulheres não joguem xadrez...

O sol à pino sobre todos, as horas passando para todos, a alegria à mão de todos.
Por um momento voltei a pensar em mim, meus pés doem. Calcei o sapato errado.

E a moça continuava dormindo com seu cão...
*

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Razão pelo qual um sem o outro não existem




* *


Imagine que o orgasmo durasse horas,
E que o olhar que te enternece fixasse nos teus ininterruptamente, até cansar.

Imagine a paixão perene,
E que não existisse o choro compulsivo que te lava alma.

Imagine que gosto teriam os prazeres efêmeros se fossem eternos.
O sonho se realizando  dias e dias a fio, tal qual idealizado, sem que houvesse esforço.

Competições sem podium,
Pecados sem julgamentos e penitências.

Imagine o abraço sufocando tua respiração sem cessar.
E o gosto que teria cada novo dia se a morte não existisse.

A satisfação é a inversa medida do sofrimento suprimido em cada ato.

O espasmo, a aflição, o prazer, o tempo...

Que triste, que triste o ausência permanente da dor.

Há quem chame de masoquismo, mas ao contrário,
É por tanto gostar do prazer que enalteço a dor.

Pois se ela não existisse, por falta de de referências, eu jamais saberia reconhecer a anestesia na alma que só o verdadeiro amor comporta.

E sem ele, por mais anos que vivesse, eu jamais existiria. 
**

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Máscaras (aos meus amigos)

A pessoa que eu achava que fosse mais feliz se matou, e eu demorei a escrever algum texto por medo de falar coisas que não sentia. Não quero mais falsidades na minha vida.

Ele era meu amigo há mais de 10 anos. Nos víamos nas férias, porque eu morava no Rio Grande do Sul e ele em Florianópolis. Tinha 43 anos, alto executivo de um banco da elite.

Lembro de cada dia juntos. Com ele eu podia brincar de rica. Não pagava nada pra mim, mas eu esbanjava junto. Cada real muito bem aplicado. Mas também fazíamos programinhas de estudante. Num reveillon, eu totamente dura, passamos a noite toda passeando entre a Praia da Pinheira e a Guarda do Embaú, em seu carro conversível, bebendo todas e conversando com a lua. Sempre ríamos muito juntos. Qualquer drama virava piada de doer a barriga em sua boca. Num carnaval na cidade do interior onde eu morava, em pleno festejo aparece ele, de surpresa, pronto para passar a festa da carne comigo. Inesquecível...

Então os anos passaram e eu vim morar pertinho do meu amigo. O banco no qual trabalhava era vizinho do meu apartamento. Às vezes nos esbarrávamos nas esquinas, sempre fazendo promessas de almoço que nunca aconteceram. Às vezes eu dava uma entradinha no Banco para dar um abraço. Mas correira da vida, na qual vai boa parte das nossas desculpas, abafou nossa amizade.

Certo dia recebo a ligação de uma amiga em comum, falando que meu amigo tinha morrido. Até então surtiam boatos de assalto, vingança, tudo, menos suicídio. Jamais passaria isso na cabeça de qualquer pessoa que o conhecia.

Fui no velório, cheguei antes dele... ninguém acreditava que de fato se tratava do nosso amigo. Só acreditei quando vi o corpo inerte, irreconhecível... não havia dúvidas de que tinha se enforcado.
Sem cartas de despedida ou qualquer desabafo com amigos... trancou o cachorro na área de serviço, fechou a porta do quarto, bebeu todas... se entupiu de remédios, amarrou o lençol no cano de ferro do chuveiro, pôs o pescoço e se foi para sempre.

Destrinchando a sua vida, vimos que havia muitas coisas que não sabíamos. Nem os amigos, nem ninguém. Isso ficou ecooando na minha cabeça.
De quantas mascaras somos feitos? Quantos sorrisos enrustidos distribuímos, quantas mágoas e dores carregamos sozinhos sem dividir o peso com alguém que nos ama?

A gente sempre se indaga o motivo de estar vivo, os amores que deixamos passar, tantamos lidar com as nossas dores... mas e a dos amigos? Poucas vezes temos a sensibilidade de nos preocupar com as dores de quem está ao nosso lado, com o sofrimento verdadeiro dos nossos amigos.

Ao cumprimentar alguém sempre perguntamos: “Oi, tudo bem?” e a resposta sempre é “Oi, tudo bem, e contigo?”. Aceitamos ela sem questionar... já chega os nossos problemas... Mas sabemos que na minha vida ou na tua nunca está tudo bem.

Meu aniversário está chegando. Vou receber cumprimentos com desejos sinceros de felicidade, saúde e amor. Vou ficar muito agradecida, mas minhas angústias, anseios e decepções ainda vão me perseguir... algumas vou conseguir dirimir sozinha, apenas algumas...

Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo, sim, de envelhecer sem franqueza, sem assumir minhas dores, sem lutar pelo amor, pela sincera gratidão minha para com as pessoas que me fazem bem. Tenho medo de responder sempre que está tudo bem comigo enquanto meu mundo desmorona.

Não tenho qualquer tendencia suicida, mas tenho receio de sempre esperar meus amigos advinharem meus pensamentos e meus problemas para me darem uma palavra de conforto.

Tenho a sorte de me sobrar amigos para estenderem a mão ou darem o ombro, mas me falta sinceridade para dizer que preciso. Apesar de já ter sido socorrida muitas vezes por esses anjos disfarçados que estão na minha vida.

Depois que passei a morar só aprendi que muitas vezes precisamos nos bastar. Pôr a cabeça no travesseiro e ter uma conversa franca consigo mesmo, mas não nascemos para sermos só.

Tantas vezes penso nos meus amigos que teriam prazer em ouvir meus lamentos e que me fariam rir da tragédia... assim como meu amigo que não está mais aqui fazia comigo e eu poucas vezes fiz com ele.

Por isso, meus amigos que amo tanto... da forma mais sincera e pura que há, me perdoem os olhares e ouvidos desantentos. Às vezes pode me sobrar simpatia e faltar sensibilidade.

Em tempos de conversas instantâneas, mensagens pelo celular e e-mails, nos tormamos tão próximos e acessíveis, mas imensamente distantes das almas das pessoas. Dificilmente passamos do trivial.
Meu amigo que se matou estava todos os dias on line no meu computador, mas raramente trocávamos uma palavra além de cumprimentos ou carinhas engraçadinhas. Cada um queria guardar para si seus problemas.
Por isso rogo aos meus amigos pela sinceridade. Pela sinceridade minha e pela sinceridade deles.
.
Me dêem de presente de aniversário suas máscaras e eu lhes darei a minha.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Grande Eco


Mudanças sempre causam um agito. Mesmo que para melhor, elas inquietam. Mas têm horas em que mudar é inevitável. Talvez não mudar necessariamente, mas assumir o que se é e deixar ir o que não te serve mais.
A gente vai mudando aos poucos, pequenos fragmentos nossos se alteram de forma lenta e gradual, até que chega um momento em que assumir essas alterações se torna obrigatório, porque já não somos mais os mesmos. Nossa feição não condiz com nosso olhar, nos tornamos um blefe.
Impreterivelmente é preciso decidir trocar as vestes ou costurar em si essa túnica puída e obsoleta que há tanto tempo usamos.
Por um bom tempo teci minha nova veste. Não sei se é melhor ou pior do que a antiga, mas com certeza é mais confortável. Com o tempo a gente vai aprendendo que o que mais importa não é a beleza, mas a leveza. Nada mais me aperta, oprime ou constrange. Isso é essencial para a felicidade.
Nada de agradar aos outros, carregar a responsabilidade da alegria ou tristeza de alguém. Cada um que assuma seus ais. Sempre levei mais felicidade em campos férteis do que naqueles áridos em que nunca vingou qualquer coisa que eu plantei... o que não se confunde com frieza perante aos infelizes... acontece que a felicidade nunca vem de fora. Se você duvida disso, desejo que descubra o quanto antes, porque mais cedo ou mais tarde, vais aprender.
Não é megalomania, mas as pessoas precisam se bastar. A infelicidade vem justamente em querer buscar em outro o que lhe falta. Mas ninguém pode suprir o vazio que carregas na alma. Todos temos um vazio na alma. Uns mais, outros menos. Carências, traumas, excesso de amor, falta de amor. Em cada extremo nosso há um vazio latente.
Sempre fugi dos meus vazios. Nietzsche dizia que quando a gente olha muito tempo para o abismo, ele também olha pra gente. Meu abismo era meu vazio. Quando resolvi olhar para ele ou o enfrentava ou me sucumbia. Não há redenção em superá-lo. É obrigação de cada um.
A nossa maior briga não é com Deus, com pai, namorado, chefe ou qualquer bode espiatório em que personificamos nossa raiva ou angústia. O maior inimigo sempre somos nós mesmos.
Fazer as pazes consigo mesmo, eis o verdadeiro milagre.

"Conhece-te a ti mesmo. E conhecerás o universo e os deuses."

( Inscrição no frontal do templo de Apolo em Delphos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Moça do Sonho

*


Tocou uma música no carro. Minha amiga suspirou, como quem sente saudade de um amor antigo... a gente reconhece um suspiro apaixonado.
Olhei enviesado, como quem desconfia. Quem é a vítima? Ela se entregou, ficou vermelha de vergonha, desviou o olhar.
Eu estava curiosa para saber quem tinha fisgado o coração dela. Minha amiga é do tipo que eu chamo de “sem sentimentos” menores, nada melodramática. Eu sou passional, não sou dada a amores velados ou silenciosos. Me declaro, choro, amo intensamente... ela não. Até hoje não sei se  já amou de verdade, nem ela sabe...
Minha amiga que tira minhas ilusões. Quando eu estou perdidinha, voando alto, corta as minhas asas e me põe no mundo real. Ela é a rainha das obviedades que eu passo longe... mas não dá moral de cuecas, sempre foi muito sensata.
Amiga de longa data... daquelas que é bom manter para sempre, arquivo vivo. Amizade que não cresce, que já nasceu grande. Que quando está carente, liga só pra dizer que te ama. Fui eu quem ligou para avisar que o nome dela estava no listão, ela que me ligou pra dizer que ouviu meu nome na rádio quando divulgaram os aprovados no vestibular. Liga quando está feliz, triste, com prisão de ventre, com dor de cotovelo, quando morreu a avó... de fazer excursão à sexshop, que conhece as tuas fraquezas e nunca usa isso como arma.
E ela se apaixonou e não me disse! Pior que traição... Insisti e ela revelou, receosa da minha reação... tinha se apaixonado pelo Chico Buarque.
Respirei fundo, segurei o riso. Não podia ridicularizar um sentimento tão forte. Eu sabia que era sério. Sei que ela tem bom gosto, foi quem me apresentou aos Mutantes, Secos e Molhados, Elis... Mas apaixonada pelo Chico! Nunca viu ele...
Ela confessou... o romance se deu em 2008, durou 3 meses. Aconteceu depois de um sonho.
E eu que esperava um sonho erótico me deparei com um sonho singelo, puro e curto... Assim como alguns amores, de fato.
Foi num encontro, na praia. Ele foi muito carinhoso e atencioso. Houve só um leve toque nas mãos... toque que ficou eternizado em sua memória.. Alguns segundos imaginários que foram muito mais concretos e real do que algumas relações efêmeras e superficiais que passam pela nossa vida. Não houve juras de amor, trocas de beijos, mas ela acordou com taquicardia.
Passou três meses com o Chico. Dormia ouvindo Beatriz, acordava com Cotidiano.
É, minha amiga talvez não saiba, mas já amou. Amou como talvez eu nunca tenha amado. Ousou amar o impossível de se ter, amou de forma tão pura e admirável que eu me pego querendo amar assim. E Chico, com certeza, amaria seu amor.
ELE NÃÓ sabe, talvez nem ela, mas esse amor foi recíproco. Acredito ser ela a tal "Moça do Sonho".
Agora ele achou o sonho extraviado. Quem sabe vasculhando bem o tal bazar, eu tenha a sorte de achar um também...

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó´


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais... ”


A Moça do Sonho, Chico Buarque

*

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Coração Exposto


*


Têm dias em que eu acordo querendo amar.
Dias cheios de segundas intenções.
Acordo com o coração exposto.
Dias sensíveis. De poucas palavras.
Em que prefiro ficar só.
Dias em que tenho medo de estranhos.
Fico envolta com meus sentimentos,
Apaziguando as lembranças distantes, as latentes e as que virão.
Nesses dias vou à livraria,
Encho a vida de prefácios, de amores de outros, de experiências efêmeras.
Ouço algumas vezes uma música que toca minha alma.
Escuto uma tragédia alheia.
Vou ao espelho e me encaro de forma fixa e verdadeira.
Gosto do que eu vejo
Encontro o que procuro noutro.
Travo um intenso silencioso diálogo.
Sem máscaras, subterfúgios ou falsidade.
Sorrio para mim mesma
Faço as pazes com os sentimentos,
Coloco meu coração para dormir.
Aconchego ele no meu peito, sinto se acalmar com a minha respiração.
Encontro, finalmente, o amor em mim.



*

domingo, 25 de janeiro de 2009

Tênis velho


Hoje cheguei em casa no início da noite, estava irrequieta. Uma vozinha dizia run, Bine, run! Fui correr...

Domingo, a cidade vazia, noite calma e ar fresco. Bom para colocar a conversa com a alma em dia. Pus a roupa de ginástica, olhei para meus pés... decidi pôr o tênis velho. Não quero novas dores hoje. Quero um pouco de conforto do que é seguro, do que não me inquieta. Quero aquilo que já possuo e que me possui. Deixei o desconforto para meus pensamentos.

Falar das dores da alma.... essas são as piores. Não há remédio que as cure, se não o esquecimento. Mas até ele fazer efeito, a dor é latente, não dá sossego. Andei pensando muito na semana que passou sobre essas dores. Não nas minhas, pois elas eu sinto, não preciso pensar, mas nas de outras pessoas.


Tenho um amigo que está com sintomas de depressão. Fui conversar com ele, mas não há o que falar. Como na dor todos somos iguais, minhas únicas palavras foram sobre o que aprendi com elas: “Não dê maior importância do que as coisas têm, isso vai passar e tu sairás mais forte.” As dores são como musculação pra alma. Fortifica e enrijece.


O lado bom das coisas ruins, é que tudo passa. O lado ruim das coisas boas, também é que tudo passa... pode servir de consolo, mas é verdade. O que o tempo não cura, ensina a suportar. O que não  podemos nunca é  nos  conformar com  o desconforto. 


Num curto vôo entre Porto Alegre e Florianópolis dei uma lida na revista da empresa aérea. Lembro de uma frase que me marcou a qual me pego pensando às vezes. Falava sobre uma senhora de 88 anos, batalhadora e vencedora. Usaram a seguinte expressão: “Apesar dos inevitáveis sofrimentos da vida, ela ainda expressa a elegância que forjou sua alma ”.


Faz parte da vida os sofrimentos invitáveis. Todos perderemos pessoas que amamos, passaremos por dificuldades, dúvidas, temores, monstros imaginários e reais. Conforme passamos por eles, moldamos nossa alma e alguns, como aquela senhora, passam por tudo isso com a altivez que faz da sua alma, elegante.


Pensei cá comigo, muitas dores virão, isso é certo... será que chegarei elegante aos 88 ou serei uma daquelas velhinhas de alma corcunda? Espero que não... aceito de bom grado as dores, mas quero que elas venham aos poucos, como pesos pequenos que nos fortalece sem causar fadiga.

No fim da corrida, envolta nesses pensamentos, a chuva chegou. Continuei tranqüilamente a solitária volta para casa, saboreando cada gota que escorria na minha boca e se misturava ao suor, pisando em poças e rindo das marquises.
Já tenho um tênis novo para amanhã, lindo e cheiroso que terei amaciar enquanto aprendo com as novas dores e alegrias que ele trouxer enquanto me leva para passear. Deixemos, então, eu e o velho, por hora brincar... 


*

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Reta de partida e de chegada.





Essa época do ano é contraditória. Quem teve um bom ano fica triste por ele estar indo, quem teve um ano ruim dá graças a Deus que o fim chegou. Mas todos compactuam da ideia de que algo reinicia. Como eu chamo, o tal “delírio coletivo” de que o tempo se recicla. O tempo não se recicla, mas as nossas vidas sim.

O ser humano sempre busca um bom pretexto para fazer as coisas ou deixar de fazê-las. Precisa de algo que motive à mudança ou a tomar atitude. Dietas nas segundas-feiras, orgias pesam menos na consciência se feitas durante o carnaval, perdões são propícios nos Natais. Mas se quiseres cumular tudo, tens que escolher o início do ano. Esta é a data das mudanças, da renovação.
Eu me aproveito dessa época para fazer meus planos, traçar os novos rumos. Confesso que nem sempre dão certo. Muitos projetos se perdem em meados de janeiro... mas uma boa parte se salva e com alguns arranhões chegam ao final do ano com sucesso.

Hoje o blog faz 1 ano de vida. Ele é um desses exemplos. Há muito tempo queria publicar meus textos, mas tinha receio, vergonha... travas. Tive algumas tentativas frustradas que não sobreviveram a uma única postagem. Até que, em meio a uma correria, me sentei no último dia de 2007 num computador que estava à mão e criei o "Ostracismo Voluntário". Escrevi naquela hora para ter o impulso e a meta de continuar a escrever durante o ano.

A partir daquele dia estava criada a meta: ter um blog, escrever e publicar meus textos. O nome da primeira postagem foi "Fim!" Decidi começar  já acabando pois se não vingasse já estaria completado o ciclo de ser blogueira. Ao mesmo tempo essa despretensiosidade me livraria do fardo da obrigação e expectativa que tolhe a inspiração e a mata os sonhos, porém, dava o afã de voltar a escrever meus reinícios. Esses acontecem a cada novo ano, a cada assoprar de velas, a cada amanhecer, a cada segundo, a cada final de namoro, a cada despedida de emprego ou de amigo. O fim sempre é um começo e enseja novas metas, ara a terra fértil para plantar novos sonhos e colher deliciosas realidades.

O Ser Humano precisa disso, de um objetivo. Pode ser adquirir algum bem ou encontrar o verdadeiro amor, mas todos precisamos de algo que nos faça acordar e vencer um dia. Por mais que adote a filosofia do “carpe diem”, nós vivemos para o amanhã. Nosso dia de hoje está apontado lá adiante. Vamos ao mercado fazer compras para comer nos dias que virão, estudamos para usar o conhecimento no futuro, para passar num concurso, para galgar o emprego almejado; trabalhamos para termos dinheiro para fazer a viagem dos sonhos, para termos filhos, para comprar “o carro”.

 Pode ser a longo ou curto prazo, mas temos sempre algum objetivo, e é ele quem engrena a máquina da vida, por ele nos colocamos a correr. São os sonhos e metas que nos mantêm sãos. Quando agimos para alcançá-los estamos bem, quando conduzimos nossa vida contra os nossos sonhos e metas, nos sentimos frustrados, perdidos. São eles que nos guiam e fazem nosso caminho.

Já que estamos na data certa, vamos repensar nossos objetivos, nossas rotas. Vamos criar metas reais, fazer planos com margem para os tropeços e flexíveis para que se adaptem aos ventos que virão. Crie metas para conseguir os objetivos, mas também metas para moldar a si mesmo. Tentar mudar hábitos ruins, neutralizar defeitos, dirimir conflitos internos.

Hoje, almeje mudar tudo o que quiser, alcançar tudo que desejas. Desejos grandes ou pequenos . Não importa se daqui alguns dias alguns se perderão no caminho, o certo é que sempre haverá alguns que chegarão incólumes e vencedores no final, assim como essas palavras aqui escritas que, mesmo entre cacófatos, vírgulas perdidas, pleonasmos, desencontros entre mesóclises e ênclises, chegaram vencedoras e imperiosas ao seu destino, aos teus olhos. 
*
Obrigada aos meus queridos leitores que me impulsionam a escrever para amanhã, 31 de dezembro de 2008.

Desejo um 2009 cheio de objetivos vencedores!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

De volta ao Natal

*




Descobri porque não gosto do Natal. Na verdade faz um tempo que eu sei, mas agora resolvi assumir, tenho esperanças que isso me ajude a mudar um pouco essa visão.
No Natal as pessoas entram numa espécie de euforia coletiva. Todos ficam ansiosos para que tudo saia perfeito: a janta, os presentes, a família completa.
Como a perfeição não existe, sempre há frustração...
Meu problema já começa pela janta, comida fria, arroz à grega, farofa com passas... nunca gostei de nozes, frutas cristalizadas, panetone. Tudo bem que sempre tinha comida reservada pra mim sem essas especiarias natalinas, mas mesmo assim eu me sentia estranha no ninho.
Depois os presentes... minha mãe sempre errava os presentes de Natal. Dava o que eu queria pra minha irmã e o dela pra mim, ou então comprava a prima da minha boneca favorita. Isso que desde novembro eu já ia cantando a pedra do que eu queria ganhar do Papai Noel (sujeitinho, aliás, com quem eu mantinha uma péssima relação... sempre tive medo do bom velhinho). Mas os presentes não me preocupavam, ao fim e ao cabo eu sempre me divertia com o que eu (ou os meus irmãos) ganhavam.
Mas agora, depois de adulta, me causa desconforto esse hábito de presentear no Natal. Acho bonito a simbologia de presentear, mas essa onda de consumo exacerbado faz o encanto se perder. Há tempos que nessa época os cristãos vão mais às lojas do que às igrejas.
Nessa semana saí para comprar um livro para dar de presente a um amigo, fui em 4 livrarias e em todas elas foi impossível eu receber atenção de algum funcionário, tamanha a muvuca das lojas. O que me consolou foi notar que as pessoas compram livros ainda, nem que seja para presentear os amigos. Saí de lá sem o livro, afinal, meu presente vai ter menos prestígio se for dado em janeiro? Sei que para meu amigo não...
O problema não está no movimento das lojas, mas no fato das pessoas ficarem desatinadas para dar algum presente no Natal, criam um estresse em função disso. Não raro se endividam... e quando notam que esqueceram de alguém pedem mil desculpas ou saem a cata de uma lembrancinha perdida para dar de consolo.
Ah... agora a família completa. Foram- se os anos em que toda a família se juntava no Natal. Era até engraçado: tio, primo segundo, irmão da cunhada, sobrinhos, tudo junto com “os mais próximos” para a ceia. Sempre rolava um fofoca entre a mulherada, um comentariozinho sobre a nova namorada do primo mais velho, a desconfiança que o tio solteirão é gay, uma tia que bebe demais e fica “sobressalente”, as cunhadas que não se bicam .... Eu gosto quando mistura todo mundo. Mas de uns tempos pra cá as famílias mudaram. Os primos foram morar fora, os tios cansaram de viajar, os pais se separaram, o irmão começou a passar os Natais com a família da esposa que fica em outra cidade, as crianças cresceram... mas ainda junta um pessoal. O problema é que eu sempre lembro dos que não estão. Ainda não consegui me acostumar com a ausência do meu avó, por exemplo.
Acho que nos dias que antecedem o Natal fico mais sensível. Uma espécie de TPM sui geniris. Parece que preciso ser feliz, custe o que custar e essa falsa euforia me sufoca. Fingir não é comigo.
Para mim, o Natal ideal é aquele em que as coisas acontecem de forma espontânea. As pessoas se unem por prazer, não por convenção. Pode ter porco assado, arroz à grega e farofa com passas, mas nada impede que seja uma “pizza especial”. Os parentes não precisam estar juntos, as pessoas que se gostam precisam emanar coisas boas umas para as outras e isso independe de laços sanguíneos.
Não devemos dar maior importância às datas do que às pessoas e aos sentimentos. Dia 25 de dezembro é só mais um dia, a gente que decide se vai fazer dele Natal ou não. Esse ano o meu será! O primeiro Natal depois de vários 25 de dezembros...

Feliz Natal a todos!!




sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Expelir palavras

*


***

Ando com uma certa angústia em relação ao blog. Às vezes pode parecer displicência, mas no fundo eu acho que é excesso de zelo.
Ele, com um certo orgulho, deixou de ser um ostracismo meu. Tenho pessoas queridas (outras nem tanto) que gostam do que escrevo. Por vezes até me cobram atualizações...
Eu queria muito ter o dom de ter sempre idéias, opiniões e palavras interessantes na ponta dos dedos, mas isso acontece em raros momentos. São insights criativos estimulados por alguma reflexão profunda sobre algo cotidiano, ou algo que me inquietou ou me enraiveceu de tal forma que tenho que escrever como forma de tirar aquilo de mim.
Escrever sobre coisas que não inquietam minha alma me inclina a falar de frivolidades. Sei que a vida é repleta pequenos momentos de discussões cotidianas. Diálogos internos rotineiros, mas inevitáveis. Fazer a lista do mercado, decidir se vou dedicar a manhã de sábado para lavar roupas ou deixar a pilha aumentar e me entregar nas mãos do Morfeu até meio dia... Ligar para alguém para desabafar ou assimilar sozinha o problema... Dar ou não esmola pra criança faminta... Meu dia é feito dessas pequenas indagações e atos que não renderiam um bom texto. O roteiro dos meus dias eu escrevia quando tinha diário. Escrevia nele, desde os dez anos, tudo o que eu fazia. O curioso é que parei de escrever diário, justamente quando meus dias ficaram mais interessantes. Ironias dessa vida... E guardava tudo com um cadeado! Escondia no esconderijo secreto, junto com as cartas de amor. Um dia ainda encontro elas...
Quando meu dia era normal, escrevia “idem ao interior”. Pois é, naquela época já não tinha muita paciência para frivolidades. Se qualquer dia aparecer por aqui um “idem ao anterior”, não se espantem...
Como escrevi no início, coisas cotidianas também me instigam. Eu faço delas um evento quando escrevo, mas na maioria das vezes vivo os dias sem querer analisá-los ou tecer críticas...
Talvez tenha que aguçar isso em mim, talvez seja preguiça... pode ser. Preguiça de pensar... você conhece alguém que já teve? Posso estar sofrendo dessa síndrome quase epidêmica.
O fato é que isso já está me trazendo uma certa angústia, aquela que inquieta minha alma e me faz expelir palavras...



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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

As diferenças que movem o mundo


A diferença entre o veneno e a cura é a dose.
Entre o raso e a essência é o querer ir além.


A diferença entre a primeira e a segunda impressão é o rever.
Entre as almas livres e as outras é a falta de medo do ridículo.


A diferença entre o tentador e o vulgar é a postura.
Entre o pobre e o rico é a medida do que lhe basta.


A diferença entre a risada de alegria e a de desespero é o batimento cardíaco.
Entre o medo e a adrenalina é o suor das mãos.


A diferença entre ver e enxergar é o observar.
Entre a crítica e a ofensa é a intenção.


A diferença entre a criança e o adulto são as dores.
Entre o amor e o ódio é o foco.


Entre a admiração e a inveja é pouca medida de si mesmo.


A diferença entre o primeiro amor e os demais é a falta de referência.
Entre a paz e a solidão é o tamanho do vazio.


A diferença entre o amor e o sexo são as horas depois.
Entre a segurança e a fragilidade é o tamanho da vulnerabilidade.


A diferença entre o que pensa e o que de fato é, está em como age.
Entre a conquista e a impertinência é a abordagem.


A diferença entre os volúveis e os sensatos é a crítica.


A diferença entre o santo e o pecado é o julgamento.


Entre o proibido e o permitido é a existência de testemunhas.


Entre a satisfação e a decepção é a expectativa.


Entre o apaixonado e o poeta é a constância.


A diferença entre tudo e o resto é a essencialidade.


E a ironia que dá graça à história, é que tudo o que nos diferencia acaba por nos tornar iguais.
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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Insônia Moral e Cívica

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Chico Buarque e Milton Nascimento - Cálice


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Minha noite estava terminando de forma razoável. Estou lendo o "Código da Vida", de Saulo Ramos, uma mistura de autobiografia com a história político-social e jurídica do Brasil. Ele é história viva... Estava na parte em que chegou até suas mãos o processo da família de Vladmir Herzog, pedindo reparações morais, queriam apenas que fosse oficialmente aceita a tese de que houve homicídio. Transcreveu uma parte do processo em que Rodolfo Konder, que estava com Herzog no DOI-CODI no dia em que ele foi morto e testemunhou algumas fases da tortura, narrava o que tinha visto, escutado e também sofrido naquelas salas.

Fechei o livro, vi que o sono não viria dali. O “suicídio” de Herzog me causa náuseas... Meia noite e o sono, após eu abstrair para outras áreas mais floridas dos meus pensamentos, finalmente chegou.

Uma hora da manhã toca o telefone, minha mãe avisando que o Fito Paez estava no Jô. Pulei da cama e fui ver. Quem me conhece sabe que Fito, é Fito!

Entrevistinha tosca do Jô, mas pude ouvir algumas canções que valeram a pena. Sempre vale... mas o sono foi-se.

A cama não me atrai, o livro me repugna, a chuva me afasta da sacada... o computador me chama.

Aqui estou. O tracinho do Word pisca, pisca me pedindo mais, mais palavras, mais histórias. Esse Word é curioso, às vezes faminto e desafiador. Mas hoje me pegou desprevenida. Me sinto tentada a falar sobre as surpresas da vida, sobre quando ela nos pega desprevenida... poderia dar um bom texto, mas não agora.

Melhor falar sobre quando ficamos sem palavras. Quando, por exemplo, os homens de farda cometem uma atrocidade com a sociedade, praticando um execrável homicídio, forjam um ridículo suicídio...

De fato Herzog e outros tantos vítimas de luta pela liberdade cometeriam suicídio se soubessem que o “povo” hoje em dia mal lembra da sua luta - da mesma forma como esqueceu da sua própria pátria- que muitos jovens veriam de forma “romântica” o terror da ditadura, que um grande números de cidadãos brasileiros nem sabe que isso existiu. Pergunte para jovens de 17 anos o que foi o AI 5. Melhor nem perguntar... A “massa de manobra” ainda é o partido mais forte desse país.

Ontem foi 7 de Setembro. O dia foi lindo, fiz meu mate e fui para a Beira-Mar, buscar um pouco do pôr do sol do Guaíba ou o gramado da Redenção. Encontrei uma linda Florianópolis, esse país ainda tem coisas lindas.

No caminho pensei, que dia é hoje, mesmo? Nenhuma bandeirinha verde- amarela, nenhum desfile, nada de Hino Nacional o dia todo. Parece que teve desfile dos milicos em algum lugar... é ultraje falar milico? Nem sei... não vou ser presa por isso.

Nos jornais não vi nenhuma referência ao Dia da Independência. Tudo bem, sei em quais circunstâncias ela aconteceu, sei que não há muitos motivos para se comemorar, recebemos poucas medalhas nas olimpíadas, mas fiquei absorta com tamanho desdém dos brasileiros com esse fato importante. Mercadinho aberto, lan house da esquina fechada porque era dia de manutenção, posto funcionando 24 horas... Vi apenas muitas carreatas e panfletos de políticos pelas ruas. No dia 7 de Setembro só se escutou o Hino Nacional porque teve jogo da seleção.

A única referência foi o Presidente aparecer à noite em rede nacional por alguns minutos. Falou do Petróleo. Depois que acabou o ouro, resta o petróleo, mas acho que o preço que estamos pagando dessa vez é bem mais alto, não sei se teremos tantas reservas assim.
Isso me deixou sem palavras. Claro, se fosse numa segunda-feira, todos lembrariam com alegria deste dia.

A tese do suicídio de Herzog ainda prevalece nos quartéis, o motivo dos feriados só são lembrados se não caírem no domingo, autoridades ainda balbuciam o Hino errado em solenidades, terras da Amazônia, pertencentes à União estão sendo vendidas a estrangeiros... continuo sem palavras.

Infelizmente acho que De Gaulle tinha razão, o Brasil não é um país sério. Nem tenta fingir que é.

Vou voltar ao Fito Paez, acho que pego ainda o último bloco. Talvez tenha a sorte de escutar aquela que diz “ Al outro dia como el ave fênix me levanto com el pie direcho y rio sim razón, lhevo uma loucura caprichosa...”.


Amanhã é outro dia...
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Suicídio de joelhos...



Herzog, nas imagens publicadas pelo Correio Brasiliense e na na foto clássica distribuída em 1975 pelos órgãos da repressão da ditadura.